Ao aceitar o desafio de aplicar um de meus workshops, Batalha de Percepções, a um grupo de pré-conhecidos na III Semana da Arte e Design da UFG, estive durante a semana passada pela primeira vez em Goiânia – GO. A boa dica desse magrinho que a natureza impede de engordar é: permita-se conhecer o novo, não somente por seus sons e formas, mas também por seus cheiros e sabores. Mais clima de Batalha de Percepções impossível!
A vedete gastronômica era o pequi. Fruto pelo qual eu desenvolveria uma relação de amor ou ódio após prová-lo, me alertavam os amigos. Sentia naquele momento um misto de alegria, excitação e fome juntamente com a constatação de que há ainda neste país de proporções continentais muito a ser descoberto e exposto ao desfrute de todos. Eu falei desfrute?
É isso mesmo, surgia naquele momento um convite para irmos a um rodízio de sorvete de frutas do cerrado provarmos o misterioso pequi e diversos outras frutas, dentre elas a inusitada cagaita.
Éramos Marcio Shimabukuro (SP), Fábia Betina (SC), Sabrina Del Bianco (GO) e parte do escritório de design NitrocorpZ (GO) - todos palestrantes do evento -, além de Paula Del Bianco, Djalma Costa - organizadores da Semana de Design -, Patrícia Fregonesi (GO) - designer de moda - e eu, participando de um verdadeiro bacanal gelado de degustações e surpresas do óbvio que o sertanejo há muito já conhece. Pobres designers que massificados por gostos globais somos desacostumados a provar de nosso próprio pomar. Entendo cada vez mais e luto contra a dificuldade de representarmos nossa identidade na produção de design nacional. Falo por mim que tenho em minha coleção de .mp3 mais de 80% de canções internacionais. Os participantes da Batalha de Percepções praticamente só escolhem canções estrangeiras para se auto-representar.
Ora, veja que meu repertório de gostos e imagens desde meus primeiros passos tem influência e formação estrangeira. Os índios dos desenhos animados são índios americanos e meus bichinhos preferidos eram leão, tigre, águia imperial e cobra naja. A sedução de poder, força e virilidade sempre venderam bem, desde a infância. As meninas cresciam treinando afeição por bichinhos que só existiam na neve, como ursinhos e cãezinhos. Impossível resistir a tanta coisa fofa. Não quero soar xenofóbico, não culpo as crianças, esses exemplares eram meramente o que lhes era oferecido ou simplesmente empurrado. Não tínhamos opção.
Ao constatar que a grande maioria do repertório de imagens e gostos da minha infância e adolescência é importada compreendo porque hoje, andando pelas ruas de Belo Horizonte onde vivo, tenho dificuldade tremenda em localizar-me e orientar-me quando estou em uma rua com nome de tribo indígena. Eu não sei dizer se a Rua Tamoios é ao lado da Rua Aimorés, vizinha da Rua Carijós ou a duas quadras da Rua Tupinambás. Não sei mesmo, todo esse tupi-guarani me soa grego. Não consigo fazer um mapa mental, justamente por que nunca vi sequer uma foto desses índios nem sei localizar suas tribos no território nacional, o que seria capaz de me formar uma memória visual e facilitar minha locomoção pela capital. Outro bom exemplo é não saber identificar o canto e os nomes de pássaros brasileiros. Quando a questão são os peixes, fico na mesma, reconheço três em meio milhão.
Careço de informações e cultura nacional básica. Quero representar meu país além dos clichês, mas pouco conheço e valorizo da nossa identidade para retratá-la com desenvoltura em meus projetos. É como se eu fosse incapaz de compreender meu país por osmose. Simplesmente a informação entra em minha cabeça, mas lá não se estabelece. Só conseguiremos ser globais se nossa cultura local e regional deixar se ser exótica aos nossos próprios olhos, se nossos cheiros e sabores forem sempre comuns e uma memória de repertórios genuinamente nacionais for naturalmente formada.
A propósito, quer conhecer a cagaita?
