Roteiro de Fury deixa furiosos fãs de filimes sobre a segunda guerra

O roteiro de Fury deixou os fãs furiosos

O roteiro de Fury, filme sobre a segunda guerra lançado em 2014, parece um game onde os personagens matam quem aparece pela frente sem receber de volta um tiro certeiro sequer.

 

Eu estava outro dia mesmo assistindo o filme Fury (“Corações de Ferro”), no qual Brad Pitt e companhia encarnam personagens que teriam existido próximos do fim da segunda guerra mundial.

O filme, que deve ter sido exibido nos cinemas anos atrás, mas que eu por sorte perdi, é um verdadeiro descalabro em termos de cinema e principalmente no que tange aos eventos históricos que todo mundo conhece. Eu fui olhar as críticas no IMDb e fiquei surpreso com a magnitude de opiniões negativas, algumas até sarcásticas outras “furiosas”, fazendo jus ao título original do filme.

Durante sei lá quanto tempo Hollywood “glamourizou” o soldado americano, com o objetivo de destacar a sua superioridade diante do exército nazista, depois da sua entrada na guerra em 1942.

Ao longo deste tempo, vários cineastas (até mesmo John Ford) rodaram filmes contra a guerra, não havendo assim glamour algum. O resto parecia uma propaganda escancarada, parecendo querer justificar o “heroísmo” dos soldados que vivenciaram aquele horror todo.

Mas, o tempo passa, e invariavelmente, a tonelada de documentações sobre toda a extensão da segunda guerra mundial vem sistematicamente aparecendo na mídia. Arquivos antes sigilosos, de ambos os lados, se tornaram alvo de intensa pesquisa por historiadores e scholars afins. Muito dos mistérios sobre este período de tempo ainda está para ser desvendado, porque nem tudo foi divulgado pelas autoridades até hoje.

Um exemplo recente disso foi a ocultação pelo governo britânico dos trabalhos feitos para decodificar as máquinas Enigma, com a participação do brilhante matemático inglês Alan Turing, que desenvolveu as bases do que chamamos hoje de inteligência artificial.

Quando o tiro sai pela culatra

Se o objetivo de Fury foi perpetuar o mito do bravo soldado americano, os cineastas que o fizeram falharam redondamente. O filme mais parece um game com os personagens matando quem tivesse na frente sem receber de volta um tiro certeiro sequer.

Nas últimas cenas a coisa toda atingiu o nível do ridículo, quando os heróis, dentro de um tanque inoperante e atolado na lama, enfrentam um pelotão de soldados da SS, a chamada elite militar nazista.

Inexplicavelmente, os soldados alemães enfrentam o tanque de frente, sendo então dizimados pelas armas dos soldados dentro do tanque. E quando finalmente eles conseguem jogar granadas dentro do tanque, os que estavam lá sequer tiveram seus corpos despedaçados, uma façanha que nem a metafísica explica.

O problema central deste tipo de roteiro é conseguir justificar porque o filme foi feito, coisas que os soldados não conseguem. E para piorar mais ainda a situação os roteiristas lançam mão de estereótipos conhecidos desde a década de 1950, quando heroísmos deste tipo abundaram nas telas de cinema.

Não foi bem assim

A realidade que hoje qualquer um pode ver, nas dezenas de documentários sobre o tema, é que em vários episódios do final da segunda guerra os soldados aliados sofreram revezes violentos, pelo que sobrou das tropas nazistas e japonesas.

A invasão da Normandia, por exemplo, foi um verdadeiro massacre de soldados aliados, até se chegar ao ponto de vencer os soldados adversários fortemente entrincheirados nas praias. A situação não foi ainda mais grave porque burramente o alto comando alemão insistiu em concentrar forças em Pas de Calais.

A operação Market Garden, tão bem relatada no filme “Uma ponte longe demais”, dirigido por Richard Attenborough, foi outro fiasco, que resultou na morte ou aprisionamento das tropas aliadas.

Durante anos historiadores em consenso afirmam que a derrota nazista foi fruto da obsessão do Reich de invadir a Rússia e acabar com o comunismo. Foi naquele front que a derrota alemã tomou forma, depois de milhares de soldados e civis aniquilados.

Nos dias de hoje, ninguém em sã consciência, pode se atrever a escrever um roteiro, presumindo que as pessoas são desinformadas a ponto de acreditarem na baboseira daqueles estereótipos que descrevem o soldado alemão como um retardado mental.

Basta ler os comentários de usuários do IMDb sobre “Fury” para perceber que roteirista nenhum passa batido e fica incólume!

Os roteiros de cinema

As bases dos roteiros de cinema são conhecidas por quem as estuda. Um roteiro pode conter até três partes: a Sinopse, que contem o resumo do filme, o Tratamento, que contém a prévia do que vai ser o roteiro, e o Roteiro Técnico, que detalha todas as cenas, diálogos e ambiente onde elas se passam.

O roteiro técnico pode ou não incluir detalhes sobre a cenografia ou o posicionamento das câmeras e iluminação. Mas, muitos diretores até hoje preferem eles mesmos desenhar passo a passo o desenvolvimento de uma dada sequência, na forma dos chamados “storyboards”, que são quadros com os desenhos posicionados na sequência exata do que deverá ser filmado.

Era Hitchcock ele próprio quem fazia os storyboards de seus filmes

Era Hitchcock ele próprio quem fazia os storyboards de seus filmes. Sua assistente de direção Peggy Robertson disse em entrevista que Hitch nem ficava atrás das câmeras, ele simplesmente dizia à sua equipe “coloque a câmera ali” e pronto. Peggy afirmou que ele tinha a “câmera na cabeça”!

Storyboards, similares a estórias em quadrinhos, foram extensamente usadas em cinema de animação, algumas vezes em substituição aos roteiros convencionais. Os chamados “cartoons” (curtas em torno de 7 a 8 minutos) surgiram frequentemente de uma ideia em torno de um tema, e a partir daí um storyboard era construído.

Charles Chaplin, que foi pioneiro como diretor, modificava ideias no exato momento da filmagem. Ficou conhecido depois por refilmar a mesma cena dezenas de vezes até conseguir o que queria, e muitas das “soluções” de cena eram imaginadas naqueles momentos.

A elaboração de um roteiro é uma forma de arte e é difícil de realizar. Nos piores momentos do chamado “studio system” em Hollywood, roteiros que não podiam ser mexidos (os chamados “roteiros de ferro”) eram impostos aos diretores contratados pelos estúdios.

Em outros casos, o roteiro era compulsoriamente alterado pelos produtores, como mostra muito bem o diretor Frank Darabont, em seu ótimo filme “Cine Majestic”, de 2001. E o roteirista tinha que aceitar, sob pena de ser despedido no ato.

Lições que Hollywood não aprende

Hollywood resistiu a mudanças, grandes estúdios desfigurados ou consumidos por entidades ligadas a outras mídias, mas o cerne da iniciativa comercial continua lá, firme e forte.

Assim como recentemente, a associação dos estúdios com a mega indústria de estórias em quadrinhos e de games nos mostra inequivocamente como o cinema pode ser desvirtuado somente para atender um público específico. Aliás, a figura do “gamer”, que é o sujeito viciado em jogos de computador, vem ditando a propaganda de como a indústria de informática desenvolve os seus produtos (CPUs, placas gráficas, módulos de memória, gabinetes, etc.) para competirem entre si.

No caso específico do acima citado “Fury” é fácil identificar as características dos jogos de computador onde se mata participantes do “jogo”, enquanto que o personagem herói não é sequer molestado.

E se no final do filme não se acha o objetivo daquilo ter sido filmado é porque o roteiro não tem mesmo objetivo nenhum, a não ser faturar uma grana sentida com os incautos ou com aqueles que se divertem vendo dezenas de mortos na tela, tal como nos games.

Fury como cinema é uma aberração, se visto por um cinéfilo, e mostra o ponto de insanidade que se chega quando se faz de tudo para faturar algum, e no processo chamar de “herói” quem nunca foi!

Outrolado_

O super heroísmo que atrapalha o cinema americano

Winston Churchill e a Segunda Guerra Mundial de volta nas telas

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

11 comentários sobre “O roteiro de Fury deixou os fãs furiosos

  1. Pare de chorar, mostrou o lado deles numa luta onde os tanques nazis eram melhores, mostrou lado idiota deles, simples caipiras nesta guerra na cena do AP da mãe e filha. O filme é sim muito bom.

    • Oi, Lucas,

      É possível que você não acompanhe o que eu escrevo. Digo isso porque em vários dos meus textos eu afirmo que cada um interpreta o cinema e artes correlatas de maneira muito específica. Assim, não adianta você reclamar comigo, se a minha visão difere da sua.

      As diferenças existem entre os críticos, porque no IMDb seria diferente?

      Quero lembrar a situação que o grande cineasta Orson Welles viveu em dois momentos, com gente do próprio estúdio remontando seus filmes sem a sua autorização ou aquiescência. Foi o caso de Magnificent Ambersons e Touch of Evil. Neste último ele foi proibido de entrar na sala de edição. Mas, ao longo do tempo, foi fervorosamente defendido por vários scholars de cinema, como por exemplo, Peter Bogdanovich.

      • Olá Paulo!

        Há cerca de 20 minutos, eu finalizei este filme do qual eu já assisti outras duas vezes, e minha opinião sobre tal continua: eu acredito ser um grande filme do qual os atores e também a direção de filmagem fizeram um grande trabalho. Contudo gostaria de entender melhor o que o senhor quis dizer com sua crítica e procurar entender o seu lado.

        Em minha opinião, os cineastas por trás deste filme tiveram o seu foco em valorizar o “grande heroísmo” que os soldados americanos tiveram no fim da Segunda Grande Guerra (assim como você mencionou), porém, apesar disso, o senhor critica tal filme com rispidez alegando de que ele não foi fiel aos fatos históricos e claro, muito menos a realidade em si, algo do qual eu concordo com o senhor.

        O grande feito que fez eu gostar tanto deste filme foi o seu desenvolvimento dos personagens e em suas personalidades durante o período de guerra e também retratar cenas dos quais inúmeros soldados das nações participantes vivenciaram durante aquele tempo (claro que com aquele toque de dramatização e “hollywoodização).

        Gostaria de saber se o senhor concorda comigo e também peço-te que, deixando de lado a questão do roteiro estereotipado, você possa talvez concordar comigo e também compreender melhor o seu lado.

        Desde já, grato a sua atenção! ^^

        Thales Renan

        • Olá, Thales,

          Mas é claro que eu entendo o seu lado, e você tem todo o direito do mundo de gostar do que quiser.

          Todo filme pode perfeitamente ter altos e baixos. Para concordar contigo quanto ao desenvolvimento dos personagens eu honestamente teria que assistir tudo de novo, mas lhe garanto que estou aberto à interpretação dos outros, tanto assim que fui cineclubista e tive chance de perceber que às vezes o consenso de apreciação de um determinado filme raramente é atingido.

          Eu gostaria de comentar que a realidade da segunda guerra, segundo as dezenas de historiadores que se basearam em documentações sobre o assunto, mostra evidências de que o lado oriental foi bem mais brutal e com maior número de mortes. Ao final, os russos cometeram crimes de guerra de diversos tipos, entre eles a violência contra as mulheres, ao longo do caminho para a Alemanha, e anexaram para si todos os territórios ocupados, em uma jogada política suja que durou até a queda do muro de Berlim.

          Eu tenho certeza que você sabe que os americanos só entraram na guerra porque não tinham outra alternativa. E mostraram despreparo inclusive no nível de generais, cuja memória é controvertida até hoje. A glorificação da ação americana foi maciçamente politizada por Hollywood, embora vários cineastas tenham depois realizado filmes anti guerra dentro do mesmo assunto!

          Eu também agradeço a você pela maneira civilizada com que se dirigiu a mim. Apareça sempre, será bem vindo para outros assuntos também.

  2. Caro Paulo Roberto…
    Entendo sua crítica e opiniões… Gostaria de colocar alguns pontos importantes… Não quero de maneira nenhuma colocar suas críticas em um nível inferior nas camadas do conhecimento, por favor! Afinal quando um realizador coloca sua produção como pública está, logicamente, se abrindo à críticas e comentários quais forem esses! Portanto lhe pergunto sobre seu conhecimento em relação à Hollywood e o Departamento de Defesa dos EUA… Você conhece a história da criação do IPC nos EUA e para qual propósito foi criado? Conhece a relação do IPC e a guerra do Vietnan? conhece o número de produções apoiadas pelas FFAA americanas por ano? Durante anos e ainda hoje o IPC e seus desdobramentos ainda estão ativos e funcionando…
    Logicamente essa colaboração foi se tornando cada vez mais um instrumento de propaganda militar do que política, até porque os produtores não poderiam se arriscar a conectar seus nomes e estúdios à governos transitórios… Melhor seria se conectarem às instituições de Estado, mais perenes e amparadas pelo senso comum e pela constituição. Em sendo assim teriam o apoio e as condições necessárias fornecidas pelas FFAA. Realizando esse conhecimento, talvez sua crítica mude de espectro… Na verdade é um assunto complexo e de alta demanda de tempo. Tenho vários textos que celebram esse assunto. Discordando, respeitosamente, do seu comentário que me parece baseado na sua opinião ( me corrija se estou errado, por favor!) acho o filme perfeito! O filme é independente. Produzido com o dinheiro de Brad Pitt e de Shia LaBouf. Descreve as batalhas com a crueza e violência que às elas são inerentes. Na verdade, no final da WWII, as tropas americanas eram superiores em doutrina e estratégia em relação às inexperientes, porém famosos pelotões SS.
    Espero ter colaborado com sua crítica e sua opinião.
    Sou Fotógrafo, Cineasta, Oficial da reserva do EB e trabalho faz três anos em um projeto sobre comunicação militar. Forte abraço, camarada!
    Ah… não passo meus textos por revisão! escrevo muito rápido e penso que a revisão pode em algum momento minha intenção inicial… portanto peço desculpas por algum erro na linguagem…

    • Oi, Marcio,

      Me parece evidente que o seu conhecimento é muito superior ao meu. Obrigado sinceramente pela sua contribuição e comentário.

      Como disse anteriormente, cada um interpreta um filme do próprio ponto de vista, e todo mundo tem direito de fazer isso. Eu estou no grupo que achou este filme um absurdo histórico. Faz décadas que Hollywood enfatiza o heroísmo americano em qualquer luta, mas contra fatos não há argumentos, e a guerra do Vietnam e a sua repercussão na sociedade mais jovem americana está aí que não me deixa mentir. A propaganda cinematográfica americana é histórica, e muitos cineastas reagiram contra ela, principalmente na segunda guerra mundial e na guerra do Vietnam, talvez em grande parte porque foram guerras com larga repercussão nas telas do cinema e da TV.

      Gozado é que eu já escrevi sobre assuntos de cinema várias vezes, o meu último texto foi sobre Terabítia, que saiu dias atrás, mas nenhum deles despertou este tipo de polêmica. Bem, meu passado cineclubista me compele a aceitar opiniões sem ressalvas, ainda mais de alguém que é cineasta.

      Abraço, Paulo Roberto, e se me permite, gostaria de contar com a sua leitura nos outros textos também.

  3. Concordo com a analise que foi feita sobre o panorama, sobre a insistência em fazer filmes já estereotipados, exageros etc.
    No entanto sinceramente parece que você não viu o filme..
    Ele possui uma tentativa pouco exitosa de mostrar o lado humano, passa boas noções de liderança entre outras coisas.
    Enfim.. nao é tao ruim quanto o texto faz parecer.

    • Oi, Diego,

      Parece, mas eu vi e concordo com as críticas feitas ao filme pelos membros do IMDb. Mas isso nunca impediria você ou qualquer outro de gostar do que viu, concorda?

      Eu já fiz esta colocação antes, mas não custa nada repetir: o cinema está aberto a interpretações, e no caso aprovação ou reprovação. A beleza da arte é dar a chance de cada um gostar de uma obra, seja lá qual for, e ser feliz com ela, ou não.

  4. Muito boa vossa análise. Eu assisti esse filme diversas vezes por um só motivo: os tanques e armamentos. Foi excelente a ideia dos produtores em rodar o filme com o Tiger I – 131 real, atualmente localizado em Bovington, bem como a diversidade de tanques M4 americanos. No resto, o filme é sofrível. As imagens de combate são estúpidas! Tratam os alemães como idiotas, algo totalmente contrário à realidade do exército profissional e competente que foi. As imprecisões nos combates são tristes de ver. Após a apresentação de filmes como O Resgate do Soldado Ryan e Atrás das linhas inimigas, não há espaço para combates fantasiosos como o exposto no filme.

    • Esqueci de comentar… eu não consigo assistir o filme até o final. Quando o Fury passa sobre uma mina e é danificado, é o momento que eu desligo o filme ou troco o canal, pois a última cena do filme é algo estúpido que afronta qualquer ser humano de inteligência média.

      • Oi, Marcio,

        Obrigado pela leitura e comentários.

        Eu estudei o que pude sobre a segunda guerra mundial, ns momentos disponíveis. Dei sorte de ter meu pai amigo de imigrantes europeus os quais eu ouvi quando ainda era menino, e por coincidência trabalhei em pesquisa com um médico e cientista francês, que veio para cá logo após o término da segunda guerra. Quando eu morei em Cardiff eu assisti um monte de documentários, muito bem feitos, sobre o assunto. A memória da guerra ainda está muito presente na Grã-Bretanha, e não é para menos, pela escalada dee terror que aquele povo sofreu.

        Não sou especialista em história, mas o que eu sei é suficiente para fazer uma análise da fantasia exposta neste filme. Durante décadas o cinema americano foi apologista do heroísmo dos seus soldados, com uma exceção ou outra, que desmente esta lado da guerra, que foi duríssima para ambos os lados.

        Eu nunca me arrependi de me interessar pelo assunto, porque os estudos desta história nos mostram os vários lados sujos da política e das disputas por elas provocadas.

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