O panorama estereofônico

O panorama estereofônico

Ao contrário do cinema, durante anos a música estereofônica doméstica se restringiu a dois canais frontais, que serviram de instrumento para a realização de um palco sonoro. A evolução deste formato encontra resistências até hoje.

 

O verdadeiro som estereofônico começou de fato no cinema, já no início da década de 1950, mas foi depois rapidamente assimilado para os discos fonográficos. Por motivos históricos este último avanço passou por vários obstáculos, particularmente o da transposição da fita master magnética para o corte do disco de acetato. E quando isso aconteceu, o seu maior avanço ficou restrito a apenas dois canais.

No primeiro momento dessas passagens, o interesse da indústria fonográfica foi tornar visível o progresso conseguido com a chamada “Alta Fidelidade”, ou “Hi-Fi”, seguindo a corruptela do original em inglês “High Fidelity”.

Tomando a Verve Records como exemplo, a expressão “A PANORAMIC TRUE HIGH FIDELITY RECORD” e ainda “A Panoramic True HI-FI Recording” foram ambos estampados nas capas dos elepês:

 

O som estereofônico do cinema passou para as gravações de música

 

Quando a Verve Record, seguindo os demais selos, começou a gravar em estéreo, a informação Stereo foi acrescentada, como mostrado na imagem acima. Esta gravação em particular, depois remasterizada para CD, é praticamente um duplo mono, com todos os instrumentos e vocais isolados em cada um dos dois canais.

Inicialmente, a intenção de gravações deste tipo era apenas a de lançar um elepê mono. Com a febre do estéreo, o processo se inverteu, com gravações mono passando para um falso estéreo, como foi o caso do processamento da Capitol, que levou o nome de Duophonic.

 

 

Em vários dos discos que eu tinha durante a adolescência o logo “Stereophonic – Living Sound Fidelity” foi acrescentado na capa e no selo dos discos da Verve:

 

Som estereofônico nos discos da Verve

Neste mesmo período, a Audio Fidelity, por seu turno, pioneira no lançamento do Lp estereofônico, lançou um disco de teste com o lado B cheio de músicas dos seus discos:

 

Disco de teste de som estereofônico

Um monte de gravações transpostas para os novos elepês estereofônicos vieram de demonstrações da separação entre os dois canais frontais, e recheadas de efeitos sonoplásticos conseguidos com o som estéreo.

Um disco deste tipo sobreviveu em CD, lançado somente no Brasil durante a década de 1990, por incrível que pareça. Em um dos lados aparecem os efeitos da separação do som em dois canais, e no outro, algumas músicas para o ouvinte conhecer o catálogo da gravadora.

 

CD com efeitos da separação do som em dois canais

Um amigo meu me mandou recentemente um item de colecionador, que ele tem em fita pré-gravada, com a mesma estrutura desse disco, para que eu tentasse corrigir um problema no áudio. Ao verificar o conteúdo eu notei logo que o narrador era outro, e a seleção de músicas do Lado B era totalmente diferente:

 

 

Para quem não sabe ou não se lembra mais, Realistic era marca registrada das lojas Radio Shack e Tandy, no que tange a produtos de eletrônica e similares. O licenciamento de matrizes era e ainda é comum entre gravadoras.

Evolução de matrização do Lp estereofônico

Na linha do tempo é interessante notar que muitas das gravadoras ocupadas com elepês estereofônicos preferiram adotar técnicas de mixagem isolando instrumentos de pequenos conjuntos em canais separados.

Uma vez feito desta maneira, o conceito de música estereofônica morreu antes de nascer. Isso porque a ideia por trás da reprodução em estéreo era produzir um campo sonoro uniforme, que permitisse a identificação espacial de cada instrumento, formando um palco sonoro onde a banda estaria tocando.

Para formar um campo sonoro coerente o ideal é ter no conjunto cápsula e agulha um transdutor sem erro de fasamento e sem chance de reproduzir o chamado “crosstalk”, problema este que consiste no vazamento de áudio de um canal para o outro.

Infelizmente, o disco elepê sofre, ele próprio, deste tipo de problema, dificultando a formação de um palco sonoro decente. Em contrapartida, as respectivas edições em fita pré-gravada do mesmo disco mostravam uma enorme superioridade de reprodução estereofônica.

É digno de nota que a reprodução estereofônica de dois canais, imposta pelo elepê, acabou por se tornar uma referência, e é assim até hoje. São raros os chamados “audiófilos” no mundo todo que conseguiram aceitar a reprodução de música em mais de dois canais.

A prova disso é que o disco elepê quadrafônico simplesmente não pegou. E quando lá pelo fim da década de 1990, portanto em tempos bem recentes, o som multicanal atingiu mídias de alta qualidade, como DVD-Audio e SACD, a resistência continuou a mesma.

Um episódio do qual eu me recordo vivamente aconteceu no último fórum norte-americano que eu frequentei, o qual tinha muita gente de conhecimento lá dentro, onde alguns refutavam o som multicanal por causa da mixagem, e eles em parte tinham toda a razão.

A queixa principal era feita em cima de uma técnica de mixagem chamada de “on stage” (ou “dentro do palco”), na qual alguns dos instrumentos eram posicionados inflexivelmente nos canais surround esquerdo e direito. Quando uma mixagem deste tipo é bem feita, o ouvinte se vê rodeado pela orquestra, como se estivesse no meio dela. O problema é que, mesmo assim, vários instrumentos são reproduzidos de maneira a ficarem atrás do ouvinte. Aí o pessoal do fórum dizia que não queriam ouvir um instrumento “blowing out of my ass”, comentário este um tanto ou quanto rude!…

Comparação entre dois e mais de quatro canais

A reprodução de som nos canais frontais, com uma mixagem competente, fará o ouvinte ter uma percepção da amplitude do campo sonoro frontal, no formato de um palco, que seria o palco sonoro orquestral:

A extensão do campo sonoro ficará forçosamente limitado à distância entre uma caixa acústica e outra, a não ser que a gravação seja feita com diferença de fasamento na captura

Existe, entretanto, uma limitação notória na audição com apenas dois canais: em primeiro lugar, o som obtido é necessariamente unidimensional, variando da esquerda para a direita e vice-versa, e segundo, que a extensão do campo sonoro ficará forçosamente limitado à distância entre uma caixa acústica e outra, a não ser que a gravação seja feita com diferença de fasamento na captura. O Rock Progressivo cansou de usar este tipo de recurso, para vencer barreiras espaciais.

Com dois canais em uso, é possível aprofundar o campo sonoro, dando a impressão de sons vindos do fundo da sala onde a captura é feita, e isto é facilmente conseguido com o posicionamento de microfones.

Em alguns casos, o engenheiro de gravação prefere usar métodos minimalistas de captura, usando, por exemplo, um único microfone estéreo, colocado na frente de um conjunto ou banda, e posicionando os músicos de forma a balancear a reprodução.

A limitação unidimensional como consequência do uso de dois canais é um fato. A única forma de contornar esta limitação de distância entre as caixas sem que haja manipulação no fasamento é aumentar o número de canais, bastando usar os canais surround esquerdo (que interage com o canal esquerdo dianteiro) e surround direito, que faz o mesmo com o canal frontal direito. Desta forma, o campo sonoro aumenta significativamente e o som se torna bidimensional.

 

A interação das caixas frontais com os respectivos canais surround pode ser modulada em amplitude

 

A interação das caixas frontais com os respectivos canais surround pode ser modulada em amplitude, trazendo instrumentos para mais próximo ou mais distante do ouvinte.

No passado distante, tentativas como aquela do conhecido “circuito Hafler” tinham o objetivo de aumentar a ambiência orquestral. Com o uso de múltiplos canais discretos a mixagem pode, e na minha opinião deve, ser usada de forma a aumentar o que se ouve na frente. A ambiência resultante é então perceptível naturalmente.

Não há nenhum truque ou mágica envolvida na mixagem frontal alargada. A sua única limitação está circunscrita ao correto posicionamento e calibração das caixas acústicas, incluindo distância e volume.

Como estas medições são idealmente feitas em um assento de referência (o conhecido “sweet spot”) a melhor percepção possível do campo sonoro frontal é restrita a uma pessoa. Quem estiver ao lado dela poderá ou não ter a mesma percepção, dependendo da distância entre as caixas e os ouvintes.

A reprodução de música em sistemas multicanais é de excelente qualidade, quando a gravação é bem realizada e o sistema corretamente ajustado. Entretanto, ao contrário do cinema, a reprodução multicanal para uma percepção musical não é compulsória, ouve quem quiser.

Se alguém, por acaso, me perguntar como se deve ouvir música em um sistema multicanal, eu responderia que se deve respeitar os parâmetros usados nos processos de gravação, ou seja, estéreo deve ser reproduzido em estéreo, porque foi assim que o engenheiro de gravação projetou aquela gravação.

Como gosto não se discute, os sistemas modernos multicanal estão aí para satisfazer qualquer um.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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