Lucy, o filme. Comparando 1080b Blue Ray com 2160p HDR Blu-Ray

Comparando Lucy 1080p Blu-Ray e 2160p HDR Blu-Ray

Uma comparação subjetiva das edições do filme “Lucy”, de Luc Besson (em Blu-Ray 2K e em 4K HDR) na tentativa de observar diferenças significativas entre elas.

 

Lucy, para aqueles que por acaso não viram, foi um filme realizado pelo cineasta francês Luc Besson em 2014, uma mistura de ficção científica e filme de ação, com alguma forma de ultra violência, disfarçada pelo tom de comédia na narrativa.

Lucy é, na verdade, uma ficção bem humorada, ao estilo de seu predecessor bem sucedido “O Quinto Elemento”, feito na década de 1990.

O diretor parece se divertir com este tipo de roteiro, explorando as caretices (distorções de rosto) de alguns de seus atores, que parece não se importarem com isso. E por que deveriam? Todas as caretas têm a ver com a distorção de personalidade dos personagens!

Lucy poderia ser levado a sério como peça de ficção científica? Na minha opinião, claro que sim. Pouco se conhece a respeito do cérebro humano ou dos animais em geral, portanto o assunto está aberto para especulações ou até mesmo teorias, quando roteiristas se sentem à vontade com isso.

Além do mais, o nome “ficção” traduz o que é, uma peça escrita fundamentada na fantasia de algo que bem poderia ser de uma dada maneira, não precisando necessariamente ser real ou verdadeiro.

Então, “Lucy”, o filme, entretém sem perturbar a plateia, a qual pode confortavelmente aceitar as premissas de que todas as possibilidades se abrem, na medida em que o cérebro de uma pessoa passa a ser usado em um percentual mais alto do que o normal.

 

Lucy, o filme. Comparação das edições em Blu-Ray 2K e em 4K HDR

Eu escolhi Lucy para traçar uma comparação entre as edições em Blu-Ray e Blu-Ray 4K. Por coincidência, o filme foi um dos primeiros títulos da Universal lançado no novo formato. Originalmente filmado com câmeras digitais (Arri Alexa, Red Epic, Sony Alta etc.), com som tridimensional (Dolby Atmos e Auro-3D nos cinemas) e mais importante, com intermediário digital na resolução de 4K, que pode servir tanto para um Blu-Ray de alta qualidade quanto para a sua contrapartida em 4K, sem qualquer perda na transferência.

Métodos de reprodução

Para a versão de alta definição convencional, as especificações foram as seguintes:

  • Mídia – Blu-Ray Universal Pictures, prensagem brasileira.
  • Imagem – 1080p (2K), AVC, SDR, com upscale para 2160p, 8 bits, BT.709.
  • Som – DTS HD MA 5.1, com upmixing para Neural:X, 11 canais + LFE.
  • Aparelho de reprodução – Oppo BDP-103.

Para a versão em 4K:

  • Mídia – Blu-Ray UHD, Universal Pictures, prensagem americana.
  • Imagem – 2160p (4K), HEVC, HDR 10, com upscale para 12 bits, BT.2020.
  • Som – Dolby Atmos, reprodução com layout 7.1.4.
  • Aparelho de reprodução – Oppo UDP-203.

Com ambos os equipamentos de reprodução, as duas saídas HDMI foram usadas, uma para o receiver Denon AVR-X7200WA, outra direto para a TV LG OLED 65E7P, ajustada para UHD 60 Hz. Para os canais frontais esquerdo e direito foi usado um amplificador Marantz MM7025, perfazendo um total de 11 canais + LFE.

Análise

O leitor deve ter em mente que a análise e os comentários a seguir são pessoais e de caráter subjetivo, e por isso devem ter lidos com a necessária cautela. Nenhum tipo de medição foi usado para este tipo de comparação, exceto aquelas exibidas pelo aparelho de reprodução usado.

Lucy, na sua forma de Blu-Ray convencional, mostra uma imagem de excelente qualidade. Se reproduzida em um display capaz de aceitar qualquer aprimoramento competente, passa a ser exemplar. Neste caso, o ajuste de imagem da TV usado por mim foi o da Technicolor, com alterações mínimas. O perfil deste ajuste se equipara ao padrão da ISF, incluso na TV, mas a meu juízo apresenta uma imagem ligeiramente mais equilibrada para a reprodução de filmes.

Os aparelhos da Oppo, ajustados para uma sub amostragem de cores automática, conseguem negociar a transmissão de sinal em YCbCr 4:4:4, aumentando as chances de uma reprodução de cores a melhor possível, já que pouca ou nenhuma conversão é necessária ao nível da TV.

As mídias de reprodução 2K e 4K, sem exceção, são codificadas em 4:2:0, embora em um Blu-Ray UHD seja teoricamente possível aplicar 4:4:4. O que isto implica na prática é que a reprodução em 4:4:4 depende do transmissor de sinal e do display utilizado.

Idealmente, em algum ponto da cadeia de reprodução, 4:2:0 deverá passar para 4:4:4. Se a descompressão de sinal for feita no nível do reprodutor, o display terá que ser capaz de aceita-la. O uso de cabos HDMI de alta velocidade, com protocolo 2.0a, é igualmente importante para a transmissão do sinal descomprimido.

Quanto à profundidade de cores (bit depth), existe uma diferença importante entre o Blu-Ray convencional e a sua versão UHD: o primeiro está limitado a 8 bits de resolução, mas o segundo é obrigatoriamente codificado com HEVC-10, com 10 bits de resolução.

A propósito, a codificação de Dolby Vision, que exigiria 12 bits, pode ser feita com HEVC-10 e na reprodução o decodificador fará um aprimoramento para 12 bits em tempo real. Se o display não tiver capacidade para 12 bits ou Dolby Vision, ele irá reproduzir HDR 10 ao invés de Dolby Vision. Na prática, isto significa que equipamentos sem Dolby Vision poderão reproduzir discos UHD assim mesmo, apenas com a imagem HDR padrão, a 10 bits.

Quando esta análise foi feita, todas as condições de profundidade de cor foram satisfeitas na cadeia de reprodução. Observando o resultado, é possível notar que a imagem HDR 10 é superior à imagem 1080p com upscaling para 4K na saída de vídeo, mas nada de impressionar demais quem assiste os discos.

Ou seja, um reprodutor competente, com chipset de alta qualidade, uma vez aprimorando a imagem convencional para 2160p, ele pode apresentar uma imagem quase tão boa quanto aquela em 4K nativos.

A diferença está na luminância, principalmente, e embora seja possível codificar 1080p com HDR (eu tenho vários clipes de vídeo que provam isso) a realidade comercial é que nenhum Blu-Ray 1080p (2K) é vendido com HDR. Por este motivo, fica virtualmente complicado comparar imagens 2K e 4K, por causa da diferença de tratamento do material da fonte. Nos discos com Lucy, é bastante possível, eu diria até que bastante provável, que o usuário desavisado não note diferença de qualidade nas respectivas imagens.

No tocante a áudio, existem variáveis importantes a serem observadas, a primeira delas que este filme foi feito com som tridimensional para os cinemas, incluindo Dolby Atmos e Auro-3D, mas a edição em Blu-Ray 2K, tanto a nossa como a americana, se limita a DTS HD MA 5.1, não sei por que. A opção de excluir o som Atmos ou DTS:X modifica a forma como o filme é mixado para a mídia doméstica.

Aqui se nota nitidamente que o aprimoramento do som base 5.1 por um upmixer (Neural:X) melhora a qualidade da reprodução, e emula muito bem o som 3D, mas uma vez se ouvindo o som original do filme (Dolby Atmos), observa-se que a mixagem deste codec é notoriamente superior, e quase impossível de ser comparada com o som emulado. Via de regra, e aqui não é exceção, o som 3D é melhor ouvido nos efeitos sonoplásticos das trilhas sonoras, e Lucy se beneficia muito deste tipo de recurso.

Assim, creio que não seria justa uma comparação de reprodução de áudio, a não ser que o usuário dispensasse o Neural:X e deixasse o som ser reproduzido com o 5.1 convencional, quando então as diferenças passam a ser mais marcantes.

Comentários finais

A pressão financeira na montagem de um sistema mais moderno de reprodução de discos Blu-Ray convencionais e UHD irá contraindicar o uso de mídias de melhor qualidade, motivo pelo qual quando um sistema 4K é montado o usuário recorre aos serviços de streaming, como o Netflix, que atualmente possibilita a reprodução de Dolby Atmos e Dolby Vision ou HDR 10.

Eu tenho observado que, com a ajuda de um player tipo Apple TV, que agora permite a reprodução de ambos os codecs, o resultado em si é bastante satisfatório. Para um usuário exigente, pode-se admitir que o uso do Blu-Ray 4K seja mais interessante tecnicamente, por conta da baixíssima taxa de compressão do bitstream e dos valores de croma superiores da mídia.

Convenhamos que em telas de 65”, instaladas em salas de pequeno porte, esta diferença na qualidade da imagem pode até não ser prontamente perceptível. Ninguém que eu conheça assiste a um filme procurando obsessivamente ficar tentando achar diferenças, quando o nível de reprodução de imagem passa dos 1080p de resolução. Uma vez entretido pela estória do roteiro, a abstração visual e auditiva exclui mais ainda esta possibilidade.

O que me leva a indagar se a presença do Blu-Ray 4K irá fazer aquela diferença necessária para estimular o consumidor em geral perseguir um projeto de montagem mais cara. Eu diria que não. Porém, continuo achando um verdadeiro absurdo a omissão de comercialização da mídia e dos players no nosso mercado, deixando o usuário sem opção, a não ser importar a mídia ou compra-la muito cara em alguma revenda on-line.

Acho que o Blu-Ray 4K per se é de fato muito interessante. Porém, é preciso tomar cuidado para não comprar gato por lebre, porque muitos desses títulos à venda são feitos com intermediários digitais de 2K, enquanto que vários discos sequer contemplam editar a trilha sonora com Atmos ou DTS:X.

Outro aspecto, sujeito a chuvas e trovoadas nas discussões entre entusiastas e cinéfilos, é a intenção de manipular a imagem de uma película com HDR. É possível que se objete, e com justa razão, que não foi o aspecto visual que a produção do filme intencionou. Tal fato chega a ser controverso quando o filme é feito com uma escuridão proposital na composição da fotografia, mas isto é assunto para outro texto. _Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

5 comentários sobre “Comparando Lucy 1080p Blu-Ray e 2160p HDR Blu-Ray

  1. Paulo é uma grande satisfação ter conhecimento dessa matéria, que reúne um conteúdo tão relevante. Eu sempre fiquei na expectativa que algum especialista pudesse fazer essa análise comparativa, mas a mídia nos tempos atuais descarta estes temas. Eu tinha uma ideia que ocorreria isso (da pouca percepção da diferença entre 2K e UHD). A muitos anos atrás li um artigo que dizia, se continuasse o avanço da tecnologia no aumento da resolução dos painéis, chegaria o momento em que o olho humano não iria mais notar tanta diferença na imagem, quanto ao aumento da resolução. A prova prática foi demonstrada com esse seu experimento Paulo. Creio que com a introdução de novos materiais e de novas tecnologias na construção dos painéis, trarão algum incremento na qualidade da imagem, e não a resolução. Abração

    • Oi, Rogério,

      Obrigado pelo comentário. Realmente, está difícil comparar a reprodução com chipsets de um nível mais sofisticado, como aqueles que eu usei para fazer estes testes. É lamentável, por outro lado, que os fabricantes de reprodutores de mesa estejam se retirando do mercado, depois inclusive de aumentar demais os preços no varejo. Olhe que o tempo passou e ninguém aqui apareceu com qualquer explicação do porque de nenhum disco 4K ter sido prensado no país. Eu tenho notado que sistematicamente selos de determinados estúdios (Lionsgate, por exemplo) estão sendo representados por selos locais independentes, e nestes casos os lançamentos locais são muitas vezes lançados sem equiparação com o que sai lá fora, principalmente no que tange a áudio.

      Painéis 4K já chegaram a um nível que nos permite ver detalhes, mas é claro que há uma limitação na observação da imagem e que varia por indivíduo. O que tem me impressionado é o avanço de processamento, a tal ponto que você pega um DVD, reproduz em um sistema atual com upscale a 4K, e fica perplexo com a diferença na imagem. Existe um lado positivo nisso, porque dependendo do disco, não é possível se encontrar uma contrapartida em mídia de melhor resolução. Recentemente, eu distribuí quase 100 DVDs para os amigos, mas fui obrigado a guardar outros tantos.

      Outro aspecto complicado, que eu procurei alertar os potenciais leitores deste texto é que está havendo uma repetição em mídia 4K de títulos já existentes em 2K, uma dessas eu usei para fazer o texto. Eu já passei por isso várias vezes, nas ocasiões de saltos de mídia, como DVD e Blu-Ray, e a coisa chegou a um ponto em que o bom senso precisa prevalecer, caso contrário eu estarei doando Blu-Rays pelo mesmo motivo, em curto espaço de tempo. Abraço.

      • Paulo , tendo em vista o seu vasto conhecimento em tecnologia gostaria de sanar algumas dúvidas sobre meu Home Theater que estou montando nesse instante. Primeiramente adquiri um TV 4K Sony 65 XBR e um Receiver Marantz SR 5013 ambos com tomadas HDMI ARC, caixas JBL Studio formando um sistema 7.2 e um Blu-Ray Sony com upscaller 4k mas não 4K nativo. Minha dúvida seria, primeiro valeria a pena investir num player Sony 4K nativo tipo o X800 tendo em vista o variado serviço de streaming de filmes nesse padrão nos dias de hoje ? segundo valeria a pena eu investir numa Apple TV sendo que a minha Sony tem o sistema Android TV e por último a melhor conexão entre a TV e o receiver seria a HDMI ARC ? Desde já agradeço.

        • Oi, Lucimar, obrigado pela leitura.

          Os melhoramentos para os quais você tem dúvida dependem da maneira como você vai usar o seu equipamento: o Marantz SR5013 pode ser usado, segundo especificações, na configuração 5.1.2 Atmos. Sendo assim, é possível ter benefícios concretos com o uso de um player Blu-Ray 4K nativo e do Apple TV 4K. Sobre este, eu escrevi um texto que talvez lhe possa ser útil: https://outrolado.com.br/2018/10/08/atualizacao-oficial-do-apple-tv-e-as-indagacoes-recorrentes/

          Na minha experiência a configuração ideal para a reprodução do Dolby Atmos e do DTS:X é 7.1.4 com caixas Height, que permitem a compatibilidade com Auro-3D se desejado, mas eu entendo que este tipo de instalação é onerosa e nem sempre factível.

          Eu tenho o Apple TV 4K por quase um ano, e eu vejo virtudes que o diferenciam dos outros, como uma imagem otimizada para 4K, HDR 10 ou Dolby Vision, se disponíveis. Mas, o mais importante é a reprodução de áudio diretamente no receiver, ao invés de usar barras ou alto-falantes da TV.

          Finalmente, eu não usaria HDMI ARC, porque muitas vezes ele aciona equipamentos que não se quer usar. Para ligação com o receiver existe uma possibilidade de a conexão não passar sinal adequado de áudio multicanal, e neste caso você teria que experimentar para ver o resultado que dá. Note que não há nada que impeça o uso de um servidor de streaming externo, que certamente lhe dará melhores resultados em imagem e vídeo.

  2. Paulo , tendo em vista o seu vasto conhecimento em tecnologia gostaria de sanar algumas dúvidas sobre meu Home Theater que estou montando nesse instante. Primeiramente adquiri um TV 4K Sony 65 XBR e um Receiver Marantz SR 5013 ambos com tomadas HDMI ARC, caixas JBL Studio formando um sistema 7.2 e um Blu-Ray Sony com upscaller 4k mas não 4K nativo. Minha dúvida seria, primeiro valeria a pena investir num player Sony 4K nativo tipo o X800 tendo em vista o variado serviço de streaming de filmes nesse padrão nos dias de hoje ? segundo valeria a pena eu investir numa Apple TV sendo que a minha Sony tem o sistema Android TV e por último a melhor conexão entre a TV e o receiver seria a HDMI ARC ? Desde já agradeço.

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