Art Garfunkel está no selo Dutton Vocalion

Dutton Vocalion

Dutton Vocalion é um pequeno selo inglês, fundado pelo engenheiro de gravação Michael J. Dutton, responsável pela qualidade do áudio. Fitas master quadrafônicas têm sido sistematicamente remasterizadas e relançadas em SACD, indo do clássico ao popular.

 

Um tempo atrás, um amigo meu norte americano me escreve chamando a atenção para uma liquidação de discos no site da Dutton Vocalion, que representa o selo Vocalion, montado pelo engenheiro de gravação inglês Michael J. Dutton.

Tudo o que é vendido no site é fruto de um longo e meticuloso trabalho de remasterização de títulos de catálogo, que vão do clássico ao popular. Mr. Dutton tem uma experiência que extrapola as gravações de áudio para música, a sua participação em trilhas sonoras é igualmente significativa.

O que me chamou a atenção na época foi a presença de discos SACD masterizados a partir de fitas master quadrafônicas, lançadas em profusão no formato de Lp Quad, na década de 1970. Eu já tinha alguns discos deste tipo, mas no site da Vocalion eu vi títulos que eu nunca imaginei que poderia ver de volta à venda.

Por favor, notem que não se trata de apenas um relançamento, mas de um trabalho de resgate de fitas analógicas, no caso quadrafônicas, em um formato de alta qualidade técnica e sonora.

Uma matriz quadrafônica é literalmente transcrita para SACD, uma vez a conversão da fonte analógica ter sido convertida para DSD. O disco é autorado com 5.0 canais, com o canal central vazio.

Um sistema de reprodução adequado deve ser usado, para o melhor aproveitamento do resultado sonoro. Na minha instalação, e aí fica a sugestão, eu uso a saída DSD do meu Blu-Ray player, conectado via HDMI a um A/V receiver com opção de “DSD Direto”, ou seja, o sinal não passa por pré ou pós processamento digital algum.

O catálogo da Vocalion, que consta de diversos tipos de mídia, é relativamente limitado. Na época daquela liquidação, eu achei e comprei a gravação da orquestra de Michel Legrand, com o título “Twenty Songs Of The Century”, editado no Brasil em Lp duplo, sob licença da Bell Records, divisão da Columbia Pictures.

 

 

O disco das tais vinte músicas do século eu nunca notei ter sido lançado em remasterização alguma. Alguns dos arranjos são bons, mas infelizmente outros nem tanto. Um dos arranjos que se destaca dos demais é o de “Samba De Uma Nota Só”.

Na versão quadrafônica, que eu nunca tinha ouvido, a introdução de piano passeia pelos canais frontais como se estivesse flutuando. Os puristas talvez achassem exagerado ou desnecessário, mas comigo a reação foi bem outra, realçando a beleza da música e do arranjo propriamente dito.

De uma maneira geral, a qualidade do som nesta versão é extraordinariamente mais limpa e melhor resolvida do que aquele que eu ouvi do Lp estéreo anos atrás. Como eu não tenho mais o Lp seria difícil comparar, mas eu me arrisco a dizer que o SACD é de insuperável qualidade, e com o benefício de se poder ouvir o trabalho quadrafônico feito na década de 1970.

Sunset Boulevard

Eu acabo de receber em casa um dos lançamentos da Vocalion para 2018. Trata-se, nada mais nada menos do que a gravação feita pelo maestro Charles Gerhardt, regendo a National Philharmonic Orchestra, com as trilhas sonoras compostas por Franz Waxman, recuperadas pelo filho dele.

O disco, com o título “Sunset Boulevard – The Classic Film Scores Of Franz Waxman”, foi editado originariamente em Lp RCA Red Seal, como parte de uma série de músicas compostas para filme. Como se trata de partituras originais, o disco é uma excelente oportunidade de ouvir essas trilhas sonoras caso o cinema antigo tivesse som de melhor qualidade. A pujança das orquestrações é uma clara demonstração de como as trilhas gravadas em som ótico deixavam a desejar para quem apreciava a parte musical dos filmes.

É digno de nota que a versão em Lp fez parte de uma lista famosa do crítico Harry Pearson, conhecido pelos íntimos como “HP”, e editor da revista para audiófilos “The Absolute Sound”.

Pearson e a revista foram opositoras à introdução do áudio digital desde o lançamento do CD. A postura de Harry Pearson diante até mesmo dos equipamentos do High End era invariavelmente sarcástica ou debochada. Mas a lista dos elepês persiste até hoje, apesar de que a presença de alguns títulos ali ser altamente duvidosa. Não foi, felizmente, o caso da gravação de Charles Gerhardt, que apresenta boa dinâmica e correto posicionamento de microfones.

Na década de 1980, o lançamento do CD obliterou a versão em Lp, e cobriu a gravação completa com 13 faixas. Foi uma época em que amigos e eu frequentávamos a loja Gramophone, filial do centro da cidade. Conseguir um disco desses foi difícil, porque o mercado de CDs estava restrito a uns poucos importadores. E quando este disco chegou, eu estava na loja e fui logo alertado sobre a chegada. Era pegar ou perder!

Abaixo podem ser vistas as capas do CD e da nova versão em SACD:

 

 

Durante a febre do quadrafônico, em 1974, a RCA lançou o Lp que serviu de base para a edição em SACD da Vocalion:

 

 

Esta versão tem apenas 8 faixas, felizmente as melhores do disco original. Anteriormente, a RCA havia feito uma versão em CD com Dolby Surround. Infelizmente, eu tenho vários CDs RCA neste formato, com resultados abaixo da crítica. Não sei se a versão Surround do Sunset Boulevard está no mesmo nível de mediocridade, porque não tive interesse algum quando o disco foi lançado.

Além deste CD com Dolby Surround, uma tentativa recente foi feita pela High Definition Tape Transfers (HDTT), para transferir o conteúdo quadrafônico, lançado em Blu-Ray Audio, mas o resultado foi um verdadeiro desastre.

A nova edição Vocalion supera tudo isso. Na gravação quadrafônica original, os engenheiros e técnicos resistiram à tentação de isolar instrumentos ou seções da orquestra em qualquer dos canais surround.

Ao fazer isso, o som orquestral se espalha lateralmente na parte frontal da sala, como, aliás, já explicado anteriormente nesta coluna. O resultado sonoro, sem restrição de dinâmica, dá a sensação ao ouvinte de estar sentado na frente da orquestra!

Em faixas como “A Place In The Sun”, esta sensação é aumentada pela presença de instrumentos que tocam mais ao fundo. Em “Prince Valiant”, a suíte mostra um órgão de tubo ao fundo que eu juro nunca ter notado, e com isso se percebe a resolução instrumental do SACD.

Ressuscitar fitas master quadrafônicas não é novidade. Anos atrás, ex-engenheiros da extinta Polygram se juntaram para formar a Pentatone. Grande parte do catálogo da Philips Classics foi remasterizada para SACD, com excelentes resultados.

A iniciativa da Vocalion em fazer o mesmo é louvável, e serve para prolongar por mais um tempo o interesse de audiófilos e fãs de música em recuperar gravações fora de catálogo, com garantia de remasterização de primeira classe.

A oferta de reprodução de SACD é muito mais vasta do que se imagina. Diversos Blu-Ray players da Sony fazem isso sem muito alarde, e ainda se consegue comprar aparelhos deste tipo no mercado brasileiro. Assim, como diz o ditado popular, “comer e se coçar a questão é começar”. Nunca é tarde para se começar uma boa coleção de discos!  _Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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