IMAX dentro de casa?

IMAX dentro de casa?

Um novo programa que permitiria o padrão IMAX dentro de casa foi anunciado sem maiores detalhes. Vai acrescentar qualidade ao que se consegue hoje em dia?

 

No mês de setembro que passou há pouco surgiu na mídia o anúncio de um lançamento de um novo formato para áudio e vídeo doméstico, que leva o nome de “IMAX ENHANCED”. O anúncio foi feito pelas empresas parceiras IMAX e DTS simultaneamente.

Eu juro que eu já vi esse filme antes (sem trocadilho), e parece que outros também, tanto assim que o “novo” processo está sendo chamado de “THX 2.0”. Sim, porque quando Tom Holman propôs um processamento de qualidade de imagem e som com características abençoadas pela THX, vários estúdios e fabricantes passaram a comercializar discos e equipamentos com o logo THX.

Tudo isso custa dinheiro. Anos atrás, quando em visita ao estúdio Double Sound, que tinha, não sei mais se ainda tem, certificado THX, somente o uso do logo lhes custava cerca de dez mil dólares por ano. E em uma das salas do Kinoplex do Shopping Tijuca, que ostentava o mesmo logo, eu reparei que ele acabou sendo retirado!

Existe, entretanto, uma indagação sobre o THX, disposta ao longo do tempo, e que na realidade nunca teve algum tipo de resposta, que eu pudesse ter visto: “Melhorou alguma coisa dentro do ambiente doméstico?”.

Pois eu tive um receiver com certificado THX e confesso que não ouvi nada de mais. Eu posso até estar errado, ou com os ouvidos entupidos, mas o fato é que em discos DVD THX, como por exemplo, na edição do filme de James Cameron “The Abyss”, o que se vê está muito abaixo em qualidade até mesmo dentro dos padrões da época onde o disco foi lançado.

Hoje em dia é raro, creio eu, ver o certificado THX de novo em qualquer tipo de mídia rotativa, e isso tem uma explicação clara: os padrões mudaram!

Essa mudança residiu principalmente no quesito áudio. Com o avanço dos codecs para formatos 6.1, 7.1, e agora som 3D, falar de formato THX se tornou perfeitamente dispensável. Com som 3D então nem se fala, porque os processos de mixagem mudaram radicalmente, e para muito, mas muito, melhor!

O programa IMAX

O anúncio de setembro fala em um ‘IMAX ENHANCED PROGRAM” (ou “Programa de Aprimoramento IMAX”, se quiserem). O programa propriamente dito é um software, supostamente contendo metadados que modificariam a reprodução de codecs DTS, com ênfase em uma tal “variante especial DTS”, baseada no DTS:X. Não vi, porém, explicações sobre o que seria esta tal variante.

 

 

O software, uma vez implementado na mídia, promete cores mais brilhantes, imagens mais vivas, som mais imersivo, etc. OK, mas, e o HDR e o som 3D que se tem agora? Por acaso, não prometem a mesma coisa?

Existe um aspecto desta proposta que para mim é intrigante, e que se refere à relação de aspecto da imagem. Quem já foi a uma sala IMAX deve ter percebido que a imagem é alta e quadrada. A relação de aspecto varia, e pode estar entre 1.9:1 e 1.43:1, valores bem próximos da tela widescreen convencional (1.78:1) e da tela da academia (1.35:1), respectivamente. Discos Blu-Ray com fonte IMAX ficam na faixa de 1.85:1, aproximadamente.

Não foram anunciadas até este momento as relações de aspecto dos modelos de TV com tela padrão IMAX, e/ou se as telas HDTV (1.78:1) seriam adaptadas para o novo software.

Ora, se a tela gigantesca IMAX chega próxima do formato da academia, ela só é compensada pela altura enorme com que ela é vista na plateia do cinema! Jogar esta relação de aspecto em uma tela de TV convencional é um risco cujo resultado pode não compensar o esforço da atualização de software.

A realidade do mercado é outra

É indisfarçável o mau momento que a DTS vive. A empresa sempre esteve correndo atrás dos esforços da Dolby, e mesmo depois que os codecs DTS reinaram supremo no que tange ao DTS HD MA, por culpa aliás de erros dos laboratórios Dolby, o surgimento do Dolby Atmos provocou o ressurgimento em massa do codec Dolby TrueHD, antes preterido, em discos de alta definição.

Basta ver o que está no mercado de discos para constatar que o número de lançamentos com Dolby Atmos supera muito aos discos com DTS:X. E quando se trata de streaming, aí então é que não se enxerga DTS:X em nenhum lugar, simplesmente porque o Dolby Atmos foi projetado para ser agregado ao Dolby Digital Plus, em uso faz tempo por este tipo de serviço.

A empresa DTS original não existe mais. Ela foi vendida para uma empresa de licenciamento de produtos proprietários chamada Xperi Corporation, que faz esta parceria com a IMAX, e que obviamente cuida da venda do novo formato.

O novo formato DTS Virtual:X, aparentemente introduzido sem muito alarme no mercado, promete virtualizar instalações sem som 3D. Nada de muito novo, em um mercado dominado por barras com Dolby Atmos já há algum tempo.

A experiência nos mostra que guerras de formato não beneficiam ninguém. Já se viu isso no passado e de forma dramática, no entrevero entre Betamax e VHS, sem falar em formatos de vídeo cassete que surgiram e logo depois sumiram.

Mais recentemente, a disputa entre Toshiba e Sony, na guerra entre HD DVD e Blu-Ray, terminou com a obsolescência do primeiro, deixando ao relento todos aqueles que acreditaram que este formato era melhor, e colecionaram discos.

THX 2.0 ou não, eu creio que o alto custo dos equipamentos e do software poderão fazer com que o mercado consumidor não se entusiasme por mais formato que aparentemente não oferece nada da novo, e se for assim é bastante provável que daqui a um certo tempo ninguém mais irá se lembrar que existe algo “novo” em oferta no mercado de áudio e vídeo.

Seja como for, a ausência de maiores esclarecimentos por partes dos parceiros envolvidos neste programa acabam por deixar entusiastas com a pulga atrás da olheira, e com justa razão, porque em tempos de crise a economia doméstica sempre fala mais alto!

Salas IMAX neste país são escassas, e é bastante provável que em futuro próximo salas com formato Dolby Cinema sejam introduzidas no mercado exibidor brasileiro. Essas salas são previstas para incluir Dolby Vision e Dolby Atmos. Vamos esperar para ver!  _Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “IMAX dentro de casa?

  1. Olá Paulo enorme satisfação por mais esta matéria com enredo que certamente trará repercussão em fóruns de cinéfilos. Ao meu ver esse sistema “dito doméstico” já nasceu morto. A indústria cinematográfica (no exterior) está botando um pé no freio com filmes em mídia, e aqui no Brasil as distribuidoras colocaram os dois pés no freio. Será que a Empresa THX/DTS não foi avisada ou não ficou sabendo disso ? Será que algum executivo fez alguma sondagem ou pesquisa de mercado para saber qual seria a aceitação, e/ou penetração desse sistema em salas domésticas (Home Theaters) ? Então qual o espaço esse “dito” novo sistema doméstico poderá angariar ? Pena que a mídia televisiva (que tem uma grande penetração na população), não tenha interesse algum de expor essa situação. Algum dia a mídia “ainda” fará reportagens contando que (a exemplo das vídeo locadoras), o vídeo doméstico ainda arrasta uma legião de seguidores, mas quem deveria continuar alimentando esse mercado (as distribuidoras dos grandes estúdios), está dando as costas para os cinéfilos, em detrimento do Streaming que é um engodo a nível técnico e de qualidade. Mas quem tem uma boa acuidade auditiva, e olhos bem aguçados, jamais se deixarão ser enganados. Mas valew pela matéria do Imax dentro de casa, pois nada foi veiculado além daqui Paulo…

    • Oi, Rogério,

      No meu entendimento tinha que ser escrito. Agora mesmo eu recebi Incríveis 2 (Pixar/Disney) e cadê a trilha Dolby Atmos? Caparam, aqui e lá, acredite se quiser. E por quê? A trilha é excelente (vou escrever um texto sobre isso quando tiver tempo). E o mais incrível é que uma trilha com DTS HD HR está lá, só Deus é que sabe quem teve essa ideia. Não dá para entender. Se você por acaso souber por favor me explique!

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