Resguardando Chovendo na Roseira, de Tom Jobim

Resguardando “Chovendo na Roseira”

Por pura sorte encontrei em uma limpeza caseira o disco original da única gravação do Grupo Chovendo na Roseira, feita pela Som Livre em 1988. A ausência desses títulos no mercado fonográfico torna importante este tipo de resgate.

 

Foi durante a década de 1980 que eu vi pela primeira vez um disco com o título “Grupo Chovendo Na Roseira Interpreta Tom Jobim”, o qual comprei imediatamente, por causa principalmente do repertório. Infelizmente, o Grupo teve duração curta. Vejo agora na Internet que ele foi de 1984 a 1988, época na qual gravou o único CD, junto com a edição em LP, na gravadora Som Livre.

Aconteceu, naquela época, que o CD foi dado para uma pessoa da família, que eventualmente “doou” de volta para a minha filha, na época adolescente. E mais para a frente ela decidiu que iria tirar e jogar fora todos os estojos e capas dos CDs, colocando os discos em um recipiente. Antes que ela fizesse isso, eu copiei o disco no formato 1:1 e copiei a capa e contracapa, com as quais fiz o meu disco.

O mundo dá voltas, disco original aparentemente perdido, mas quando dias atrás todo este material estava indo para o lixo, me ocorreu de ver o que estava sendo jogado fora, e lá achei o CD original da Som Livre/Sigla, com alguns arranhões e sujeira.

Levei o disco imediatamente para a pia e o lavei exaustivamente. Para aqueles que não sabem nada sobre isso, esclareço que CDs podem ser lavados com detergente neutro, com o cuidado de passar os dedos em movimentos radiais, ao invés de circulares. Os arranhões são geralmente na superfície de plástico e se nada mais profundo em corte for encontrado, as chances de se conseguir restaurar o disco são enormes.

 

 

Chovendo na Roseira

 

Para ter certeza do sucesso da lavagem, levei o disco para o computador de mesa, e rodei a ferramenta Nero Disc Speed, que aliás é gratuita e é altamente recomendável a quem coleciona discos.

Tecnicamente, o CD estava com 100% de área íntegra. Ao colocar para reproduzir, nada foi notado que evidenciasse qualquer tipo de falha de áudio. Como o áudio digital é um bitstream, a ausência prolongada da sequência de bits pode resultar em interrupção da reprodução, que felizmente não foi o caso, ou seja: disco salvo, cópia guardada como segurança.

 

 

Chovendo na Roseira, Tom Jobim

 

Durante o resgate, eu me lembrei vividamente que na parte interna do encarte original aparecia a informação “gravado em Dolby Surround”. Como o encarte foi perdido, eu não tenho mais como provar isso.

O fato é que eu toquei este disco várias vezes com a ajuda de um decodificador Dolby e nunca consegui perceber nada auditivamente que me indicasse que a codificação em Dolby Surround tivesse de fato existido.

E por causa disso, eu fui consultar o Nolan Leve, um amigo de mais de vinte anos, que foi chefe da engenharia de manutenção do estúdio, e ele me conta que quando foi instalado o equipamento da Dolby a saída do codificador foi montada exclusivamente para a gravação de trilhas sonoras de filmes, feitas na época em filme magnético.

Segundo ele, nenhuma sessão de gravação de música passou perto deste codificador, e se de fato o logo da Dolby foi impresso ele atribui a algum erro por parte de quem montou a capa do CD. Segundo ainda o Nolan, a Som Livre usou Dolby A (compander redutor de ruído) para as gravações analógicas de música, tanto para 24 canais quanto para a versão de 2 canais (master).

A gravação e as músicas do Grupo

Me pareceu na época e eu confirmei isso por historiadores na Internet, que o Grupo Chovendo na Roseira foi criado por Cynara (ex-Quarteto em Cy), Bia Paes Leme, Soraya Monte Nunes e Luciana Medeiros, com trabalho vocal dedicado a Tom Jobim. Não me lembro de ter visto no encarte do disco qualquer menção às cantoras do Grupo ou a seus acompanhantes.

A gravação em si eu até hoje acho fraca na captura dos arranjos vocais, e eu confesso que sempre impliquei com a voz anasalada de uma cantora do Grupo, qual delas eu não sei quem é. Acho que a captura das vozes poderia torná-las mais proeminentes e detalhadas, e nem tanto ao fundo e sem peso como aparecem, inclusive nas vozes das solistas.

Os arranjos em si são muito simples, eu diria espartanos, os músicos parecem ser de bom nível, mas nada de arrepiar os cabelos. Pouco importa, o conteúdo é de primeira, e uma atenção especial foi dada à música tema “Chovendo na Roseira”, estupenda composição do Tom.

E ainda mais importante, sob o ponto de vista do colecionador, a ausência de produções discográficas deste nível acaba deixando uma lacuna que só seria preenchida se houvesse resgate fonográfico adequado. Eu fiz o dever de casa, mas e as gravadoras?  _Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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