2001, Uma Odisseia no Espaço, em versão UHD

2001: Uma Odisseia No Espaço, em versão Blu-Ray 4K, Dolby Vision HDR

2001: Uma Odisseia No Espaço, a obra importante de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, exibida em Cinerama em 1968, aparece agora em versão de vídeo UHD a partir do negativo de câmera, com trilha restaurada. Lançamento importante para os colecionadores e fãs de cinema.

 

Está lá: 8 de julho de 1968. Estreava no Cinema Roxy do Rio de Janeiro, a obra de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke “2001: Uma Odisseia No Espaço”, projetado no processo chamado naquela época de Super Cinerama ou Cinerama 70.

O Roxy, que funciona hoje todo dividido, tinha um auditório largo o suficiente para abrigar uma tela curva de Cinerama 70 mm. Segundo o Orion Jardim de Faria, que instalou todo o sistema, duas lentes chegaram de fora, que iriam permitir o uso de película com uma retificação ótica que possibilitaria a projeção em tela ultra curva.

Naquele momento estreavam também no Roxy os projetores Incol 70-35, modelo capaz inclusive de exibir filmes Todd-AO com velocidade de 30 quadros por segundo, com curvatura similar.

A tela Cinerama do Roxy ia do chão ao teto. Infelizmente, até hoje não consegui uma foto da mesma. Na realidade, passei um tempo enorme no passado indo a bibliotecas públicas, incluindo a do Museu Nacional, sem nenhuma chance de entrar no recinto com uma câmera na mão, ou de tirar fotocópias, caso achasse informação ou foto de interesse.

Uma imagem do auditório do Roxy está exibida em uma das paredes do Kinoplex local, e na Internet se pode ver o auditório vazio, de outro ângulo:

 

 

Foi graças ao leitor João Carlos Reis Pinto, que viu o meu texto no site in70mm sobre a presença do 70 mm no Rio de Janeiro, publicado em 2009, que eu consegui achar anúncios em imagens do acervo do jornal Última Hora, que aparecem em um texto sobre o mesmo assunto.

 

 

A edição de 2001 em disco Blu-Ray 4K

Anunciada há pouco tempo atrás, a edição do filme de Kubrick em versão Blu-Ray 4K foi motivo de comemoração por parte de fãs do filme.

O anúncio foi seguido de um press-release da Warner Brothers, detentora do catálogo MGM, onde se informava que a equipe de restauração do estúdio tinha recorrido ao negativo de câmera e feito um novo scanning dos fotogramas, desta vez com 8K da resolução, a partir do qual foi criado um intermediário digital (DI) com 4K de resolução, que seria usado no novo disco UHD e no Blu-Ray convencional que vem dentro da caixa.

 

 

A trilha sonora original do filme foi retirada dos elementos de 6 canais usados na versão em Cinerama e restaurada, além de uma outra trilha, remixada, que seria também incluída no disco. As duas trilhas foram transcritas em DTS HD MA de 5.1 canais.

A chiadeira na Internet e o recall do disco

Mal as primeiras vendas começaram a ser despachadas e os seus donos começaram uma chiadeira que durou semanas a fio.

Na cena em que Heywood Floyd se despede dos cientistas russos, um deles (Smyslov) faz comentários sobre o encontro e coloca um copo na mesa, quando então é feito uma dissolução de cena do tipo “fade out”, isto é, a imagem é escurecida e depois cortada.

Na cópia 4K o escurecimento é omitido e a imagem é cortada para imagem preta.

Em uma segunda grande queixa, alguém observou que a trilha remixada estava fora de sincronismo no início do filme, enquanto que a trilha original restaurada não mostrava este problema.

Houve também queixas do registro de cores em algumas cenas, mas isso acabou sendo contestado por falta de evidências de que o original era diferente do que foi agora autorado.

Logo no início de novembro o disco foi recolhido. O meu nem chegou a ser enviado, para sorte minha. Mais ou menos uma semana atrás, a nova prensagem começou lentamente a ser distribuída e exportada. Não houve anúncio oficial por parte da Warner do motivo do recolhimento.

A apreciação pessoal do novo disco

A edição em Blu-Ray de anos atrás foi feita a partir de uma redução do negativo para 35 mm, e por um motivo simples: o negativo de câmera, com bitola de 65 mm, teria exigido um equipamento de telecinagem com varredura muito alta, indisponível naquela época. Ao reduzir a película para 35 mm se tornou factível manter uma resolução razoável do fotograma original, e o resultado todo mundo viu que ficou bom, mas…

A nova edição trabalha com equipamentos mais modernos, capazes de escanear cada fotograma até 8K. Mas, não para por aí. Qualquer artefato de imagem encontrado no negativo pode agora ser corrigido com programas sofisticados, que tornam a imagem imaculadamente limpa, sem distorção do material fotográfico original. A propósito, a fonte de vídeo em 8K foi reservada para uso em transmissão experimental em 8K, prestes a acontecer no Japão.

O resultado do novo processo de captura em 8K impressiona, e não tem porque ser diferente porque a fonte de câmera é de primeira geração, ou seja, ela tem mais informações e detalhes do que qualquer cópia, não importando se estas diferenças não sejam prontamente perceptíveis por parte de quem vê.

Em relação ao suposto erro de registro de cor em algumas cenas, o assunto é de fato discutível, porque ninguém de nós está lá dentro do laboratório do estúdio, para saber se o negativo de câmera apresenta a mesma cor da nova transcrição. E para tornar isto mais evidente o disco que eu tenho em mãos não mostra alteração alguma na imagem reclamada!

Quanto ao erro de sincronismo na trilha remixada, eu gostaria de fazer as seguintes observações:

O início da abertura “Assim Falou Zaratustra”, de Richard Strauss, é tocada por um órgão de tubo em registro muito baixo, que começa durante a apresentação do logo MGM em cor azul.

 

 

Em vista do alegado erro de sincronismo, eu reproduzi cerca de cinco vezes o capítulo 2 do disco, que contém o logo e os créditos, alternando a trilha sonora entre a remixada e a restaurada. As duas estão em perfeito sincronismo entre si, não apresentando erro algum de sincronismo como foi dito.

Todo o sincronismo labial nos diálogos, que às vezes aparece com um erro ou outro, está de acordo com o que se costuma ouvir neste tipo de filme, sem nenhum erro perceptível.

Nos relatos que eu li sobre este suposto erro, ninguém aventou a possibilidade do erro de sincronismo ser resultante do equipamento de reprodução!

A qualidade da trilha remixada me deixou impressionado, tal a definição do áudio, aliada à dinâmica da trilha. A resolução de instrumentos na trilha remixada é notável, ao ponto de, comparativamente, fazer o som da trilha restaurada reproduzir sem brilho algum. Na trilha remixada, o diálogo direcional é criteriosamente preservado, portanto os técnicos sabiam o que estavam fazendo.

Mesmo na reedição provocada pelas reclamações, nada da trilha remixada foi aparentemente alterado. Pessoalmente, eu preferiria “aturar” o erro da abertura, se fosse o caso, do que ouvir a trilha original. Em virtude das diferenças de qualidade de áudio, eu até entendo porque o disco 4K dá preferência à trilha remixada. Para ouvir o som original é preciso trocar a trilha.

A imagem recebeu um tratamento com Dolby Vision, e este foi muito bem aplicado. Para aqueles usuários que têm tela HDR sem Dolby Vision, a reprodução será feita com HDR 10.

Acho que este disco, junto com a estatura do filme, compensou amplamente o meu sacrifício de orçamento para conseguir instalar um reprodutor de mesa 4K.

Idealmente, seria bem melhor poder assistir de novo este filme em uma tela para Cinerama, mas como infelizmente este projeto seria inviável, pelo menos se consegue através da nova edição um resgate dos mais importantes, de um filme que marcou sua época quando foi lançado nos cinemas do mundo todo.

Quando 2001 estreou nos cinemas americanos a imprensa daqui relatou que pessoas haviam saído deprimidas dos cinemas. Ao ver o filme pela primeira vez, o que eu percebi foi o clima de solidão dos astronautas rumo à Júpiter, com a trilha sonora tocando o Adagio da Suite Gayne, de Khachaturian. Esta mesma peça foi reaproveitada no início da “Aliens”, de James Cameron, rodado na década de 1980.

Kubrick teve a ousadia de fabricar um filme mudo em várias daquelas sequências, com a omissão de som que é pertinente à ausência de ar no espaço.

As naves tem um desenho muito detalhado, incomum até então para os filmes do gênero, design este extensamente copiado por muitos outros diretores e roteiristas.

2001 mostra que o homem é selvagem por natureza. O monólito, que Arthur C. Clarke chamou de “máquina de ensinamento”, passa conhecimento ao homem primitivo de como dominar pela violência, lembrança inclusive dos episódios da segunda guerra mundial na Europa e no Pacífico.

2001: Uma Odisséia No Espaço mostra a intenção do homem do futuro em guardar para si a conquista do monólito, portanto nada de fato teria mudado, mas no final os cineastas anunciam o renascimento de um novo homem, viajando no espaço em direção à terra. Fica no ar, entretanto, a indagação se este novo ser humano implicará em mudanças ou se o primitivo continuará a ter prevalência.

Outrolado é conteúdo e comunicação_

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Consultoria em conteúdo

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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