Command Records, pioneira do stereo

Gravações da Command Records, sua história e legado

A Command Records marcou presença como selo independente no lançamento de discos estereofônicos dedicados aos audiófilos, seja de demonstração, seja de testes. Fundada por Enoch Light e com a colaboração do lendário Bob Fine, a Command foi muito bem representada no Brasil por Nilo Sergio, que fundou a Musidisc e emprestava todo o seu conhecimento de música e áudio no lançamento desses discos.

 

Foram muitas as vezes que audiófilos da minha geração e anteriores se debruçaram sobre as primeiras gravações estereofônicas. Mas, nem na América nem aqui o disco estéreo foi popular inicialmente, até porque a maioria dos consoles (vitrolas) era mono e ninguém sentia falta de outra coisa.

A falta de interesse em discos estereofônicos obrigou as gravadoras fornecer as duas versões em elepê, estéreo e mono, para o mercado. Aquelas que instalavam, por exemplo, 3 microfones dispostos no topo e em lados opostos da orquestra, usavam o microfone do meio para discos mono, e em outros casos os 3 canais gravados eram mixados para mono em uma master separada, usada para o corte do acetato.

Com o aumento de interesse nas gravações estereofônicas, todo um trabalho pioneiro se desenvolveu não só nas gravadoras de grande porte como nas independentes.

A Command Records foi uma delas, fundada pelo músico Enoch Light, e que depois se dedicou ao desenvolvimento de gravações estereofônicas em um selo próprio e independente. Começou com o nome de Grand Award Records, em 1956. Em 1959 Enoch Light vendeu o pequeno estoque de gravações e o selo para a ABC, que depois iria adquirir todo o catálogo da Command. Neste ano de 1959, Light fundou a Command Records, e contratou Robert (ou Bob) C. Fine, que se tornou seu engenheiro chefe das suas gravações:

 

 

O salto não foi imediato. Light passou inicialmente um período vendendo discos baratos diretamente em lojas, com o selo Waldorf Music Hall, que logo depois mudou para Grand Award Records. Já no início da Command o padrão de gravação por múltiplos canais começava a avançar, e eventualmente começou a ser realizada com filme magnético 35 mm, mídia que foi imediatamente adotada pela Command Records:

 

 

A diferença básica entre as máquinas de 3 canais com fita magnética convencional eram marcantes: o filme magnético continha cerca de 5 vezes a cobertura do óxido de ferro usado nas fitas convencionais, ajudando no quesito saturação.

O filme continha a perfuração usada em películas de cinema, e como consequência o arraste na frente das cabeças tinha menos flutter (variação de frequência devido a oscilações de velocidade).

O chamado “print-through”, que é uma passagem de áudio de um lado para outro da fita, fazendo uma contaminação do conteúdo, deixou de ser um problema e permitiu, entre outros fatores, o aumento da relação sinal/ruído.

Abaixo, se pode ouvir o trompetista Doc Severinsen no antológico álbum “Tempestuous Trumpet”, com a gravação sendo feita em fita magnética convencional:

 

 

O mesmo músico, em fase posterior, com a gravação sendo feita em filme magnético de 35 mm:

 

 

Na série Living Presence, feita para a Mercury, Bob Fine já havia adotado o filme magnético de 35 mm para gravações em 3 canais. Contratou o engenheiro Bob Eberenz, tirando-o da M-G-M, e ele se tornou uma espécie de braço direito no estúdio Fine Sound:

 

 

Enoch Light, em sua última fase de engenharia de gravação, mixou o som para discos Quadrafônicos, usando o formato QS, um dos primeiros a adotar este formato, em torno de 1973, para o selo Project 3, nome este dado porque se tratava do terceiro projeto de gravadora fundada por ele:

 

 

A ideia que prevaleceu na Command Records era que o selo deveria ser dedicado à música popular ou ao Jazz, com prevalência da primeira. Os métodos de gravação usados na Command eram diferentes daqueles usados em música clássica, com um número maior de microfones praticamente colados na frente de cada instrumento, e depois mixados por um console dedicado.

O efeito estereofônico exagerado era demonstrado na mixagem depois conhecida como “ping-pong”, que consiste na passagem da música em mono saltando de um canal para o  outro. Em alguns desses Lps havia uma descrição de como o audiófilo poderia usar o disco para fazer testes em seu equipamento.

A presença excessiva de instrumentos de percussão não só na Command como em outros selos não aconteceu por acaso. A gravação e principalmente a reprodução de transientes produzidos por estes instrumentos era um dos desafios de qualidade de um bom equipamento de áudio, principalmente no que tange a elepês, porque entram em cena outras variáveis, como o tipo de braço e o conjunto cápsula e agulha usados na reprodução. E note-se que não foi só nesta época. Na década de 1970, a Sheffield Lab lançou um elepê de teste com corte direto, cada lado com um baterista: The Sheffield Drum Record, com prensagem limitada.

Na década de 1990, a etiqueta Varése remasterizou com grande qualidade um desses discos e em prensagem limitada, com o título “Persuasive Percussion”:

 

 

Persuasive Percussion foi gravado em 1959, bem próximo das primeiras repercussões de gravações estereofônicas em elepê e fita magnética pré-gravada de 7 ½ polegadas.

Em algumas faixas a Command recomendava observar a diferença de fasamento entre instrumentos de alta e baixa frequência, situados em canais opostos, na mixagem conhecida como “hard right” (totalmente à direita) e “hard left” (totalmente à esquerda), em cujo caso nada do instrumento poderá ser ouvido fora do canal correspondente.

Este critério foi usado para avaliações de capacidade de trilhagem de cápsulas e agulhas, além de ausência de crosstalk (vazamento de som de um canal para outro).

Sem o uso de toca-discos analógico ainda assim é possível usar hoje o conteúdo em CD para se observar a reprodução de transientes do amplificador em uso e/ou de resolução tonal de caixas acústicas.

Idealmente, aumentos de transientes ou de amplitude deveriam ser acompanhados da velocidade de alimentação dos circuitos de saída pela fonte de alimentação. Quando o conjunto é lento, a reprodução de transientes fica meio embaralhada, e sutilezas na reprodução do áudio obscuras. O que na prática significa que em sistema devidamente calibrado a reprodução do CD da Varése deverá ser auditivamente impecável.

Presença da Command no Brasil

Foi através do trabalho de Nilo Sergio, fundador do Estúdio Musidisc, localizado no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, que as gravações da Command Records foram trazidas ao Brasil, e lançadas com grande capricho!

 

 

Eu tive um vizinho, pai de um grande amigo, que trabalhava na indústria fonográfica, conhecia o Nilo Sergio e me falava sobre o cuidado que ele tinha com este material da Command. Ele mandava cortar o disco na Odeon, pedia uma prensagem prévia de teste, e quando não ficava satisfeito mandava cortar outra vez!

Foi assim que nós adolescentes nos habituamos a ouvir todos os discos da Musidisc. Quando na década de 1990 eu estava avidamente salvando em CD-R todos os elepês remanescentes eu visitei um amigo que havia guardado no fundo do baú um disco Command-Musidisc, que eu pedi emprestado e restaurei.

O disco estava literalmente enlameado, me obrigando a, antes de mais nada, fazer uma lavagem cuidadosa do vinil. Depois eu me lembrei que quem tocou aquele disco o fez com agulha cônica, que pouco penetra no sulco estereofônico em V. Eu usei agulha hiperbólica para restaurar, dando sorte de encontrar a parte mais em baixo do sulco com quase nenhum desgaste. O resultado está aí:

 

 

Eu tive mais recentemente esta gravação em vários formatos. Em um deles, feito em CD pela Sepia, com a ajuda de equipamentos modernos de restauração, os canais estão trocados, tornando a transcrição inútil, e sugerindo que no selo inglês ninguém ali conhece de fato a obra da Command.

O estúdio da Musidisc fechou, infelizmente, em 2013. Nilo Sergio faleceu em 1981, deixando seu legado para o seu filho homônimo Nilo Sergio, que assumiu o estúdio e chegou a lançar vários CDs dos álbuns antigos. Muito desse material está disponível no serviço de streaming Spotify.

O estúdio montado por Nilo Sergio era muito bem equipado. Um amigo meu acompanhou o Tom Jobim, que gravou parte de um disco por lá, e disse que viu uma câmara de eco instalada em um andar superior.

Essas câmaras são feitas em local separado, com o uso de um túnel, que no caso da Musidisc tinha sido feito com concreto, em uma das pontas era instalado um alto-falante e dentro do túnel um microfone com distância variável do alto-falante. Ele viu o microfone montado em um carrinho que deslizava por um trilho, sendo que o ajuste era feito por cabos.

O sucesso da Musidisc se deve em parte à inventividade de Nilo Sergio, que inventava nomes para músicos de talento, como Moacir Silva, que virou “Bob Fleming”. Criou uma orquestra com o nome de “Românticos de Cuba”, citada até por Rita Lee em suas músicas.

Pode-se creditar a Nilo Sergio e aos estúdios da Musidisc a presença de muitos músicos, intérpretes e arranjadores servidos por uma qualidade técnica invejável para um selo independente. Sua representação da Command Records deixou para minha geração uma chance ímpar de ter em casa bons elepês, dedicados ao audiófilo.  Outrolado_

. . .

A torre da Capitol Records

Atlantic Records

E o seu projeto?

 

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *