A Mula, filme de Clint Eastwood

Silêncio no set de filmagens… Clint no filme A Mula

Novamente, aos 88 anos, Clint Eastwood mostra exuberante a sua capacidade como cineasta, no filme “A Mula”, que engloba com detalhes a situação de vida de um homem idoso, desamparado e com sobrevivência incerta. O filme não aponta soluções, mas mostra claramente que é preciso existir uma!

 

Tradicionalmente, no momento em que as tomadas de cenas são feitas e antes que o diretor fale “Ação” as pessoas que estão no set fazem silêncio, ou então alguém grita para que elas assim o façam. No passado, em sets muito grandes um técnico acionava uma campainha, com o mesmo objetivo.

Nos sets de filmagem de Clint Eastwood o silêncio prevalece o tempo todo. Quando os atores se posicionam na cena, o diretor fala com voz baixa algo do tipo: “Ok, comecem…”, e quando a cena termina também algo parecido como “Tá bom, chega”.

Em depoimento ao IMDb, e em referência ao filme “A Mula”, o ator Michael Peña relata que ficou impressionado com o silêncio ao redor, e ele considera isso um sinal claro de respeito ao trabalho do ator.

Neste mesmo depoimento, Alison Eastwood (a filha mais velha do diretor) e Taissa Farmiga se divertem contando que Clint não ensaia, e muitas vezes quando elas pensavam que estavam ensaiando a cena na realidade o diretor estava filmando e pronto para partir para a próxima. Ele é rápido, dizem os atores, é bom você estar preparado.

Mas, Clint não se resume a isso, ele encoraja os atores a improvisarem em cena, esquecendo momentaneamente as falas do roteiro, se existentes. Andy Garcia nos diz que ele e Clint saíram improvisando em uma cena da festa e a câmera os acompanhando no trajeto todo. Dianne Wiest disse o mesmo, em diálogo improvisado em mais de uma cena.

Clint Eastwood nunca foi o primeiro diretor a fazer isso. Anos atrás, eu publiquei no Webinsider um texto sobre o diretor, onde menciono a influência que ele teve dos métodos de filmagem do diretor John Ford, e não foi o único, pois Orson Welles cansou de dizer que teve a influência do velho mestre, que marcou a sua vida no cinema.

Quando questionado sobre isso, Clint diz que prefere não falar nada, porque ele confia implicitamente na qualidade do ator e a sua capacidade criativa!

 

 

O filme A Mula

Baseado em uma estória real, o roteirista Nick Schenk (que escreveu Gran Torino) faz uma dramatização com toques de ironia, sobre a vida de um homem de idade avançada, que ficou sozinho para se virar em uma vida depauperada, e que acha no transporte contratado uma forma de se ressarcir financeiramente. E este homem velho, que serve de capacho aos contratantes, acaba descobrindo que a carga era cocaína, mas continua a fazer o transporte assim mesmo.

Os traficantes se aproveitam disso, porque aquele homem idoso é insuspeito nos trajetos, mas no final tudo dá errado, como, aliás, a estória verdadeira já havia contado a quem escreveu o primeiro manuscrito sobre o assunto.

Já no trailer é possível notar que se trata de uma peça de cinema que mostra a real situação do idoso desamparado pelo estado e pela família. O resto do roteiro, traficantes, FBI, DEA, membros da família, etc., mostra que todos são panos de fundo para a situação inglória vivida por aquele homem, sendo assim o filme corretamente intitulado “A Mula”!

 

 

Em nenhum momento nem o roteirista nem o diretor se propõem a analisar os cartéis e os traficantes de droga, mas se aproveitam dos personagens para mostrar inequivocamente que todo o esforço na sustentação de uma pessoa exclusivamente pelo trabalho fica irrelevante diante da fácil percepção financeira do tráfego, pouco importa as consequências ao conjunto da sociedade.

E neste particular uma das falas (talvez improvisada) entre Earl Stone (a mula) e Laton (manda chuva do cartel), quando Earl pergunta “Quem eu tenho que matar para conseguir isso (se referindo à casa de luxo)”, Laton responde “Muita gente”…

A crítica aos críticos

Eu aprendi em tenra idade que a elaboração de uma crítica de cinema tem uma metodologia sistemática, onde se aprecia e se descobre as chamadas mensagens principais ou diretas e em cada uma delas as mensagens subjacentes. Com isto, passa a ser possível entender a visão do diretor. O filme, meus professores (que eram jornalistas experientes) diziam ser o resultado da visão do diretor e/ou da forma como o diretor quer que a plateia veja seu filme.

Eu fui assistir A Mula na primeira sessão do primeiro dia de exibição (14/02), mas me dei ao trabalho de ler com atenção a muito bem escrita crítica de Mario Abbade para O Globo. Fiquei, aliás, surpreso de ver críticas aparecerem por aqui em outras mídias assim tão rápido, já que o filme no Brasil foi lançado agora.

Mas, lá pelas tantas o crítico do Globo afirma que “Eastwood apresenta mais um western urbano, mas com um lado sombrio pouco visto em sua obra” (sic), e aí o nobre crítico se engana.

Clint como diretor já havia incorporado um lado sombrio desde que ele começou a filmar “Play Misty For Me”, seu primeiro filme como diretor, e mais recentemente com o uso pleno de chiaroscuro na maioria das cenas. Isto pode ser visto inclusive em filmes recentes como Unforgiven, Million Dollar Baby, e muitos outros.

Em uma crítica falada e publicada no YouTube o rapaz se queixa (e dá nota baixa por isso) que o diretor mostra pouca ênfase em cenas de ação, estando assim muito abaixo dos filmes que versam sobre drogas e cartéis. E no final, ainda reclama que o final do filme é “decepcionante”, porque o personagem acaba na cadeia. Mas, a estória real não é essa?

Isso por si só mostra a falta de visão e a falta de percepção sobre o desenvolvimento da estória e quando, em sua fala, ele diz que o elenco de suporte pouco aparece, aí então que se percebe que ele não entendeu nada do filme.

E a culpa então é do diretor? Claro que não. Ele, como autor, expõe a sua visão da estória. Isso me lembra o meu último professor de Português, quando ensinava poesia na sala de aula: ele dizia, de forma agressiva aos alunos, que “o poeta não escreve para gente burra”. O que ele queria era apenas incentivar todos, ao jeito dele, a se esforçarem para evoluir culturalmente e principalmente aguçar a sensibilidade para capturar a mensagem exposta pela poesia.

Grandes diretores de cinema tradicionalmente nunca explicaram intenções de roteiro ou cenas de seus filmes, e com Clint Eastwood isso não é diferente. Você nunca irá vê-lo ou ouvi-lo comentando as suas reais intenções ao fazer o filme. No máximo, ele irá dizer alguma coisa sobre personagens ou sobre a estória. Portanto, cabe a você, como parte da plateia, ter a sensibilidade necessária para capturar as mensagens que a visão do diretor trouxe à tela.

É preciso não confundir “crítica” com “opinião”. Opinião cada um tem a sua, mas crítica é algo formal que poucos sabem fazer!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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