Stanley Donen, diretor de Cantando na Chuva.

Stanley Donen, quase desconhecido gênio do cinema

Além de Stanley Donen, dançarino, coreografo e diretor de musicais, Bruno Ganz, Albert Finney e Michel Legrand também desapareceram no início de 2019.

 

 

Quinta-feira, dia 21 de fevereiro de 2018, desaparece Stanley Donen, aos 94 anos de idade (é isso mesmo), vítima de insuficiência cardíaca. A morte foi confirmada por um dos filhos no sábado seguinte.

A sua presença nos sets de filmagem da M-G-M deixou uma marca indelével de alguém que aprendeu a fazer cinema de alta qualidade, mas nem sempre reconhecido pela academia de artes em Hollywood, como, aliás, outros cineastas do passado. E isto só foi retificado em 1997, quando ele recebeu um Oscar honorário pelo trabalho realizado:

 

 

Ao receber o prêmio Donen fez graça com a plateia, lembrando a todos do imenso legado dos filmes musicais do passado, dos quais ele foi artífice em toda a sua plenitude.

Ele também deixou alguns depoimentos em discos, onde conta como era árdua a tarefa de fazer bem feito um roteiro. Disse ele depois sobre o seu trabalho que “A chave para um filme bem sucedido era um bom script, boa música e bons atores. Quando você filma estrelas, você aparece no set, mas fica longe do caminho deles!”…

E eu acrescentaria: com a colaboração do estafe técnico da M-G-M também. A M-G-M primou pela excelência na gravação do áudio (ironicamente foi o último dos grandes estúdios a entrar na era do cinema falado), e pelo aprimoramento dos métodos de captura de imagem, o formato widescreen, Camera 65, CinemaScope, VistaVision, Cinerama, etc.

É o próprio Donen quem afirma que a adoção do som no cinema foi o que, em última análise, justificou a introdução e o sucesso do filme musical. Isto está inclusive registrado no roteiro de Cantando na Chuva.

Com o advento do som e a popularidade do filme musical a M-G-M fez contrato com a Altec/James B. Lansing (JBL) para o desenvolvimento de caixas acústicas capazes de reproduzir som de melhor qualidade nas salas de exibição. Nós aqui no Brasil pudemos testemunhar isso nas salas da cadeia Metro no Rio e São Paulo.

 

 

 

Grandes diretores de cinema sempre tiveram grande respeito com os atores e Donen não foi exceção. De fato, deixar o ator à vontade, com liberdade para criar ou improvisar sempre possibilitou a realização de grandes filmes.

Eis aí algumas de suas fotos mais recentes:

 

 

Stanley Donen começou cedo a sua vida como dançarino. Segundo ele, aos 9 anos de idade ele foi ao cinema e assistiu “Flying Down To Rio” (no Brasil, “Voando Para O Rio”), e isso mudou a sua vida. O fascínio pela dança naquele momento foi a sua visão de Fred Astaire e Ginger Rogers na tela, e a mestria coreográfica que eles exibiram nos filmes da RKO.

Em sua passagem pela M-G-M Donen iria dirigir o seu ídolo Fred Astaire no filme “Royal Wedding” (no Brasil, “Núpcias Reais”) em uma cena onde Astaire dança nas paredes e no teto de um quarto, brilhante truque fotográfico criado para o filme.

Logo cedo conheceu Gene Kelly, com quem fez amizade e dirigiu filmes em parceria. Não obstante, mais tarde ele se queixou do lado condescendente do amigo em depoimento, dizendo ser ele um homem difícil atrás das câmeras, o que, aliás, foi confirmado por outros atores em seus depoimentos. Mas, isto não impediu que a colaboração de Kelly não desse bons frutos, haja visto “Singin’ In The Rain” (“Cantando na Chuva”), um dos melhores filmes musicais de todos os tempos.

Se alguém quiser ver a capacidade de Stanley Donen como diretor deve assistir o musical da M-G-M “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, com a colaboração do excelente coreógrafo Michael Kidd. Basta ver que “Sete Noivas” foi rodado em duas versões, CinemaScope e Widescreen plano, e é fácil ver as diferenças de enquadramento e movimentação de câmera entre as duas versões.

Sinceramente, os diretores mais jovens que vem tentando fazer filmes musicais de qualidade deviam, a meu ver, estudar a filmografia de Stanley Donen.

Nomes que se foram embora, e mal o ano começou…

Todo mundo tem consciência que um dia alguém querido ou próximo da família se vai, e não há nada que se possa fazer para contornar isso. Quando eu estudei o metabolismo intermediário da célula cardíaca em processo de falência eu percebi que basta um intervalo pequeno de tempo sem a célula receber oxigênio adequado e ela estará pronta para entrar em processo de lesão irreversível.

É um fato biológico da vida que todas as células do corpo humano indistintamente são formadas e depois morrem, dando lugar a outras, em um processo de renovação contínuo. Eu costumava dizer aos alunos que todo ser humano se renova completamente a cada cinco anos aproximadamente.

Só que isso tem limite, e em algum momento da nossa existência este processo para de renovar células e vai entrar para o que se chama na ciência de “senescência”, ou seja, ficamos velhos, indo “ladeira abaixo”. Quanto tempo demorará para que tal fenômeno aconteça é muito difícil de prever. A gente só torce para não ficar dependente de ninguém ou senil.

Eis alguns memoráveis personagens da comunidade artística que perdemos em 2019, em suas respectivas faixas etárias:

 

 

Para mim, Michel Legrand foi um ícone da música de qualidade e das brilhantes trilhas de cinema em colaboração com Jacques Demy, na época da Nouvelle Vague. Eu soube por amigos que Legrand vinha ao Rio de Janeiro trazido por um baterista cujo nome eu não me lembro. Infelizmente, eu nunca tive a chance de vê-lo de perto.

Albert Finney ficou marcado como ator de vanguarda na fase progressista do cinema inglês, mesmo motivo para Bruno Ganz no cinema alemão da década de 1980, o qual ficou mais conhecido depois que ele interpretou Hitler no filme “Der Untergang”, bem mais recentemente.

Já Carol Channing fazia de tudo, sendo comediante de primeira linha no teatro e no cinema. É impressionante que ela tenha sobrevivido tanto!

Eu não me lembro de nenhum outro início de ano com tanta gente do meio artístico indo embora. A mim só me resta ser grato por tudo aquilo que estes artistas fizeram e deixaram como legado. Sem eles certamente a nossa vida teria sido um pouco mais pobre culturalmente.

Com o tempo artistas e celebridades ficam esquecidos, injustiças são cometidas, mas o que se há de fazer? Pelo menos no caso de Stanley Donen a justiça foi feita bem antes de ele desaparecer. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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