Ed Lincoln e a sua fase na Musidisc

Ed Lincoln ficou famoso por criar o Sambalanço. Foi o Rei dos Bailes e produziu uma significativa coletânea de discos muito bem gravados pela Musidisc.

 

Teria sido inevitável. Na minha época de menino, a maioria dos vizinhos morava em casas ou em prédios de poucos apartamentos, como o nosso, e assim eventualmente o meu irmão mais velho se juntou com os rapazes e moças, constantemente na casa de alguém, para colocar discos nas vitrolas e dançar. Época boa!

Lá em casa, o meu pai havia comprado uma vitrola Telefunken modelo Dominante, mono, que foi instalada por técnicos da própria Telefunken. Tratava-se de um aparelho de “alta fidelidade”, e que serviu ao meu irmão e seus amigos para dançar na música da época.

Ouvi os discos de Ed Lincoln na minha Telefunken DominanteTudo isso era, na realidade, repetição do que acontecia nos clubes do bairro ou nas casas noturnas, chamadas na época de “boites” (termo em francês referente a um tipo qualquer de estabelecimento, aportuguesado como boate).

Ainda na década de 1950, Ed Lincoln trabalhou com Luiz Eça e Dick Farney e fez parte de conjuntos de casas noturnas. Seu disco de estreia, em 1955, foi “Uma noite no Plaza”, trio com Luiz Eça (piano) e Paulo Ney (guitarra). Como Eça era pianista também, Lincoln passou a tocar contrabaixo.

Na década de 1960, gravou LPs pela Musidisc, gravadora da qual foi diretor musical e arranjador, e fundou seu próprio selo, o DeSavoya. Gravou discos como “Ao teu ouvido” (pela etiqueta Helium) e “Ed Lincoln boate”, alguns assinando com nome de conjuntos fictícios, como The Lovers e 4 Cadillacs.

A união de Ed Lincoln com Nilo Sergio (músico dono da Musidisc) provou mais tarde ser incrivelmente frutífera: os discos eram gravados com absoluta fidelidade e mixagem impecável. O som do órgão Hammond, muito bem dominado por Lincoln, tem um realismo maior do que discos similares norte-americanos. Tocando estas gravações atualmente com um par de JBL ES-90, alimentada por um amplificador Marantz MM7025, a sensação que eu tive era de um Hammond tocando aqui em casa.

Ed Lincoln foi creditado por ter sido o músico que introduziu a “música eletrônica” no samba. A afirmação foi feita pelo também músico e eminente compositor da Bossa Nova Durval Ferreira, quando entrevistado por Tarik de Souza para o livro “Sambalanço, a Bossa Que Dança – Um Mosaico”.

Sambalanço” foi um estilo de música criado por Ed Lincoln e seus associados, uma espécie de meio termo entre a Bossa Nova e o Samba. Junto com eles, inúmeros músicos da época popularizaram este tipo de música nos rituais de dança dos clubes e casas de família.

O número de músicos organistas que fizeram Samba ou Sambalanço também foi significativo nesta época, como Djalma Ferreira, Walter Wanderley. Eumir Deodato (em discos para a gravadora Equipe), e muitos outros.

Ed Lincoln não se tornou organista de imediato. Ela era pianista por formação, depois tocou contrabaixo e acabou como organista improvisado, para poder substituir Djalma Ferreira na boate Drink.

Ele mesmo contou isso em depoimento para um amigo meu já falecido Sólon do Valle e para a sua filha Ligia, publicado pela sua revista Áudio, Música & Tecnologia, em 24 de fevereiro de 2015.

Ed Lincoln tocou com um número enorme de outros grandes músicos, a maioria dos quais viveu de bailes e de gravações deste estilo, feitas primariamente para dançar.

Foi na Musidisc que o seu trabalho ganhou a maior expressão, em boa parte por causa de Nilo Sérgio, que com ele produzia discos da maior qualidade técnica.

Enquanto outros estúdios importantes, como Philips, CBS e Odeon tinham equipamento para apenas dois canais, o estúdio da Musidisc introduziu o gravador de 4 canais e montou uma câmara de eco exemplar, e que pode inclusive ser ouvida em vários desses discos. A série chamada de Masterpiece mostra bem o esmero das gravações.

Entre os músicos que passaram por lá estavam Bebeto Castilho (Tamba Trio, tocando flauta), Wilson das Neves (bateria), Pedrinho Rodrigues, Orlandivo, entre outros (nos vocais), Rubens Bassini (percussionista) e também Humberto Garin, que tocava um instrumento latino de percussão que leva o nome de Guiro.

A mesma estrutura instrumental encontra-se no Brasil com o nome de Reco-reco. Garin fez parte também de Os Catedráticos, grupo de Eumir Deodato, nos discos da Equipe, e se não me engano foi também produtor musical destes mesmos discos.

 

Coisas da minha vizinhança

O “Seu” Hélio (Hélio Soares), era pai de um dos meus melhores amigos da infância, o Humberto, rapaz inteligentíssimo, se formou como engenheiro, mas infelizmente teve morte prematura, com pouco mais de quarenta anos de idade. O Hélio era profissional da indústria de discos, reformou todas as prensas da Companhia Industrial de Discos (CID), quando a empresa fabricava discos para a CBS.

O Seu Hélio e a família moravam aqui no prédio e um dia ele me levou, ainda menino, para ver como os elepês eram prensados na CID. Depois, ele trabalhou para a Tapecar e nos levou novamente, eu e o Humberto, para ver como as fitas pré-gravadas (cartucho e cassete) eram duplicadas.

O Hélio tinha confessa admiração pelo Nilo Sérgio, me falava como ele tratava bem dos discos da Command, que a Musidisc representava.

E chegou a gravar um disco com Ed Lincoln, se a memória não me trai, em uma aventura de curta duração, na criação da etiqueta Helium. O disco chamou-se Ao Teu Ouvido. Eu me lembro bem da capa, quando o disco chegou aqui em casa.

A explicação do Sambalanço

Também rotulado como “Samba Rock” (não sei por que) o Sambalanço teve forte impacto público e impulsionou as vendas dos discos de Ed Lincoln.

Segundo Durval Ferreira, a Bossa Nova não era propícia para dançar (eu não concordo, mas enfim…) e por isso o Sambalanço teria conseguido superar as dificuldades harmônicas para o público alvo dos salões de baile da época, na realidade para os músicos que viviam disso.

 

 

Em entrevista para um programa da TV Cultura, o jornalista Tarik de Souza tenta explicar tudo isso, ao falar sobre o seu livro:

 

 

Nesta entrevista foi feita uma menção sobre o documentário feito por Marcelo Almeida em 2010 sobre Ed Lincoln, com o título “Ed Lincoln – O Rei Do Sambalanço”. Lamentavelmente eu procurei e não achei quando e onde este documentário foi apresentado, portanto mais uma vítima da falta de memória que assola este país. Aparentemente, só sobrou o trailer:

 

As reedições

O selo Discobertas licenciou a reedição dos principais discos de Ed Lincoln para a Musidisc, em uma caixa com o nome “O Rei Dos Bailes”. Atualmente a caixa está descontinuada:

 

 

A pirataria desenfreada de fonogramas tem desviado a própria Musidisc no relançamento do seu inestimável catálogo, e quem irá culpa-los?

Nilo Sergio, o pai, faleceu em 2012, com 80 anos, por insuficiência cardiorrespiratória e eu obviamente estou no grupo daqueles que nunca tiveram a chance de visitar a Musidisc, quando meu vizinho ainda era vivo, e principalmente de nunca ter tido a chance de conhecer e conversar pessoalmente com ele.

Eu sei que existe um projeto de um livro, escrito por seu filho, e se assim o for eu torço para que ele seja levado a efeito e tenha todo o sucesso que merece!  Outrolado_

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O nascimento, vida e morte da fita cassete

 

60 anos da Bossa Nova

 

Silêncio no set de filmagens… Clint no filme A Mula

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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