30 anos de word wide web - como estamos hoje?

30 anos da World Wide Web

A World Wide Web completa 30 anos como o maior avanço de comunicação mundial. Pena que vem junto um ambiente de intolerância e oportunismo. 

 

Eu abri conta para acesso à Internet no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ em 1994. Quem se inscrevia recebia um número de telefone para acesso remoto, via Renpac, um serviço da Embratel, e um livrinho de comandos, tais como Telnet, FTP, etc., com os quais a gente tentava se comunicar com o que houvesse de interessante.

Os meus filhos usaram por longo tempo uma plataforma de comunicação entre estudantes com o nome de Gopher, criado na Universidade de Minesota, e fizeram os primeiros amigos de Internet por lá!

O acesso por comandos foi útil até para fazer compras, mas só era possível conhecer sites interessantes através de publicações da área. Durante um longo período de tempo a Internet foi semelhante a redes acadêmicas anteriores.

O acesso remoto por telefone, no meu caso fora da UFRJ, compeliu a mim e conhecidos a instalar um modem analógico US Robotics ou similar, com a melhor velocidade possível, mas o serviço da Renpac era precário.

A ligação caía a todo o momento e às vezes era um suplício conseguir outra conexão. Isto levou a turma aqui de casa a se tornar os chamados “Internautas da Madrugada”, período do dia no qual as ligações eram bem mais estáveis.

Mesmo dentro da UFRJ a conexão por texto predominava e eu precisei quase suplicar de joelhos a um administrador do LNCC (Laboratório Nacional da Computação Científica) para conseguir uma conta que me permitisse acesso remoto para a World Wide Web. Estando naquela época localizado dentro do campus da Praia Vermelha e eu sendo professor da instituição, nem assim o pessoal do LNCC queria ceder, e fez corpo duro até o fim.

Vencida esta etapa, eu consegui uma cópia do navegador Netscape, desenvolvido pela Netscape Communications, e instalei na máquina. As primeiras imagens apareceram como se fosse um milagre, em uma página do Jornal do Brasil, o primeiro que se instalou na Web.

O que tornara tudo aquilo possível foi a criação da World Wide Web, ou simplesmente Web, pelo cientista inglês Tim Berners-Lee. Embora trabalhasse em projetos similares desde 1980, a proposta oficial para a criação da Web ocorreu em março de 1989, completando assim neste momento 30 anos de existência!

 

Tim Lee se queixou recentemente sobre o desvio de função da Web, argumentando, com toda a razão, que a rede vem sendo usada (e não é de hoje) para veiculação de malware, assédio, fins políticos (é o fim da picada, diga-se de passagem), roubo de dados, etc.

Eu acrescentaria: falta de educação e agressões covardes feitas por alguém que se esconde atrás de um teclado, com a desculpa esfarrapada do direito de uso da “liberdade de expressão”, o conhecido “free speech”, arduamente defendido por diversas entidades no mundo todo.

Navegadores

É até hoje incompreensível como e por que o magnata da informática Bill Gates deixou de acreditar no potencial de comunicação da Internet. Nesta fase inicial de comunicação pela rede não era possível navegar dentro do Windows, a não ser que um navegador fosse instalado.

O principal navegador, distribuído por revistas de informática na década de 1990, na forma de um disquete de 3 ½”, foi o Netscape, criado após o sucesso do seu antecessor Mosaic, que eu vi rodando mas não cheguei a usar.

Além de navegador, o Netscape Mail era oferecido como cliente de electronic-mail para o usuário, na forma de uma suíte. Todos os dois funcionavam muito bem, com boa renderização gráfica durante a navegação.

 

 

Posteriormente, Bill Gates e seus associados foram acusados pela justiça americana em uma ação anti-truste, por ocasião da introdução do navegador Internet Explorer, que passou a acompanhar o pacote programas do Windows e com instalação compulsória.

Enquanto isso, e apesar da concorrência desleal, antigos membros da Netscape Corporation formaram a Mozilla, empresa de software livre, e com ela criaram o Mozilla Firefox e o Mozilla Thunderbird, navegação e cliente de e-mail, respectivamente, programas que eu uso e recomendo até hoje.

Uso da Web em pesquisa

A pesquisa bibliográfica no meu início de carreira, circa 1973, era toda feita em revistas e periódicos dentro das bibliotecas, e era muito penosa operacionalmente. Lá pela década de 1990 os livros para pesquisa do tipo Index Medicus e similares passaram a ser distribuídos em CD-ROM, um para cada ano. Já foi um grande avanço.

A criação da Web, com servidores de grande porte, facilitou a formulação de gigantescos bancos de dados, e com isso a pesquisa bibliográfica per se se tornou imensamente facilitada.

Na área comercial, ainda em servidores de texto, os bancos de dados das lojas já permitiam vasculhar catálogos de qualquer produto, e tudo isso ficou muito mais fácil quando se passou a poder “ver” as imagens dos produtos.

Durante algum tempo, servidores para terminais de texto e de imagem funcionavam concomitantemente, para facilitar o acesso a vários sites. A migração de um formato para outro foi eventualmente assimilada pelos internautas.

No meu ambiente de trabalho, durante boa parte da década de 1990, a partir mais especificamente de 1994, eu me lancei em uma cruzada para arregimentar colegas e alunos para aderir à Web. Fiz de tudo: dei palestras, ensinei a escrever e-mail e acessar sites. Notei, naquela época, a resistência de alguns poucos colegas para usar e-mail; um deles chegou a me dizer que nunca iria usar aquilo, mas a Reitoria da UFRJ obrigou todo mundo a ter um endereço de e-mail — quando então eu fui abordado, pego pelo braço no corredor, para explicar tudo outra vez…

Dentro do Hospital Universitário havia sido montado um servidor da IBM, e formado um Centro de Processamento de Dados. Eu conhecia, por sorte, o diretor, e fiz a cabeça do homem, discursando sobre a importância de uma rede local e a distribuição de sinal da Internet, facilitada naquela ocasião porque a UFRJ já tinha estendido uma rede de fibra ótica em todo o campus.

Não foi fácil assim mesmo, e não somente pelos problemas crônicos de verba. Mas, uma vez o diretor convencido a rede começou a ser montada. O nosso laboratório, situado no subsolo do Hospital, tornou-se o primeiro laboratório de pesquisa com acesso à Internet.

Foi neste momento que eu levei alunos e técnicos para abrirem conta de e-mail no servidor do Hospital. Tinha gente ali, no meio daquele grupo, que nunca havia feito uso de um computador, assim barreiras tiveram que ser quebradas!

No nosso trabalho tudo ficou bem mais fácil. Certa feita, nós recebemos um equipamento de análise sem o software de comunicação. Um colega me pediu socorro, eu escrevi uma mensagem de e-mail para contato com o fabricante, e este imediatamente mandou um software (rodava em DOS) “atachado” na resposta.

Com ele eu montei um disquete para uso de todos. Era preciso dar partida no computador com este programa, assim eu escrevi um batch que resolvia isso sem ninguém precisar digitar comando algum. Resolvido o problema com apenas uma mensagem de e-mail.

Pois eu aprendi, anos antes, que o e-mail fora criado para facilitar o contato e troca de informações, entre departamentos de uma instituição e/ou entre instituições. Quando eu ouço hoje alguém me perguntando se eu ainda uso e-mail, eu respondo que sou antigo, ou arcaico, ou ambas as coisas! Eu gosto, me foi muito útil, vou fazer o quê?

Fora da rede acadêmica

Eu me lembro claramente do momento em que o governo brasileiro resolveu privatizar a Internet. Eu estava em um seminário no campus da UFRJ, para discutir, entre outras coisas, a reestruturação do backbone de rede, que era muito deficiente para acesso de mais usuários e outros tantos problemas.

Foi neste seminário que entrou um grupo de funcionários da Embratel, com o objetivo de encaminhar um protesto contra a privatização. Mas, não adiantou nada. Em 1998, a Embratel foi vendida, a meu ver uma iniciativa estúpida do governo Fernando Henrique.

A Embratel havia sido a entidade que, junto com a RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa), disseminou a Internet no Brasil a partir, se não me engano, de 1994. As comunicações acadêmicas via Internet começaram mais ou menos neste ano, e foi aí que eu me inscrevi no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ.

A pressão da iniciativa privada não tardou a surgir, e esta queda de braço acabou matando o privilégio de acesso da Embratel.

Uma das iniciativas maldosas desta privatização foi a cobrança ao usuário doméstico de uma assinatura extorsiva, por parte dos provedores. Para fazer logon na rede era preciso pagar uma taxa, o que era um verdadeiro absurdo, e este cenário só foi mudar depois de muita pressão por parte dos órgãos de defesa do consumidor.

Hoje em dia, com a dominância das empresas de telefonia, o acesso continua pago, mas pelo menos com uma banda mais ampla de comunicação. Devia ser bem mais barato, mas por enquanto não é e parece que não vai ser tão cedo.

Assim como no passado, quando muito pouca gente tinha uma linha telefônica, que demorava horas para se fazer uma ligação interurbana, a modernização da rede da Embratel foi pioneira na conexão por torres e satélites, unificando o país com rapidez. Mas, a evolução para a banda larga e a diminuição de custos no mercado foi o que, em última análise, propiciou o acesso que se tem hoje.

Para mim, eu entendo que o grande sucesso da World Wide Web foi o resultado do desenvolvimento da linguagem HTML e da implementação do hyperlink, criação de Tim Berners-Lee para comunicação a distância.

Eu que me envolvi com programação na época dos micros de 8 bits, resolvi que não iria aprender a escrever rotinas em HTML. Eu sei que é útil, mas não é preciso. Os links podem ser inseridos quando se escreve no processador de texto de sempre e têm uma tradução automática no editor de textos do site, onde a edição final é feita.

Na elaboração de textos científicos complexos a bibliografia sempre foi obrigatoriamente formatada de acordo com a revista que publica este tipo de texto. Com os links a formatação é padrão e automática. Para quem já passou por isso a vida toda, é um alívio sem precedentes!

A propósito: o LNCC foi a primeira entidade do país que conseguiu comunicação de rede pela Bitnet, isso em meados de 1988, e esteve sempre na vanguarda da comunicação por rede. A UFRJ só iria entrar na rede Bitnet no ano seguinte. Esses foram passos precursores para a implantação da Internet.

Eu tive acesso à Bitnet pela UWCC (hoje Cardiff University) em 1990 e tinha até endereço de “electronic-mail”, mas nunca usei. Os brasileiros que eu conheci por lá faziam o contrário, mas era tudo dentro do campus. O nosso prédio foi cabeado e vários terminais de rede instalados nos laboratórios, sem que ninguém precisasse pedir nada! Todos os estudantes de pós-graduação foram instruídos como usar a rede!

Colegas que completaram os seus estudos no exterior foram alvo deste tipo de benefício, sem precisar pedir nada a ninguém. Aqui foi preciso suplicar de joelhos para conseguir algum!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “30 anos da World Wide Web

  1. Paulo é uma enorme satisfação ler esta importante matéria, que me remete a muitas lembranças e reflexões. Você citou seu 1º acesso a WEB via Renpac. O meu acesso era por um provedor da minha cidade, que fornecia um disquete de 1.44 para configurar a conexão por linha discada no Windows 95 !!! Eu usava o famoso modem Us Robotics Sportster 33.6 kbps. Montei meu 1º PC (sem o famoso kit multimídia) usando um chip AMD chamado de AM 5×86 (uma cópia inferior ao Intel 486 dx4). Naquela época o som da conexão Dial-up era uma emoção, por poder ouvir o som do string de sincronização em linguagem de máquina em analógico (o que nos dias atuais não é mais possível). Mas voltando ao assunto da sua ótima matéria sobre a WWW eu teria muito a comentar, mas não vale a pena pois a internet se transformou em “um tipo de mídia sem nenhum controle e nenhuma segurança”. Um território sem cerca, sem limites, com objetivos escusos, um lugar que no início teria uma aplicação nobre, que era a comunicação entre Universidades nos E.U.A mas a coisa foi perdendo o rumo. Hoje quem entra na internet tem que se policiar, pois até em sites de relevância e com conteúdo, somos invadidos por propagandas de todos os tipos, a não ser que instalemos bloqueadores para propagandas ou extensões maliciosas, ou seja para navegarmos agora na web, precisamos colocar “trancas no browser”, como instalamos grades em nossas casas para nos proteger. Agora entendo o porque dos estudos sobre as mudanças que pretendem implantar, para incrementar a segurança na WEB, mas aí fica uma importante ponderação; a internet atual toda “contaminada” não poderá ser desligada, e será usada pelo submundo como um rede clandestina, e sem nenhum controle e segurança. Você vê alguma semelhança dessa situação ao filme Matrix ? Que situação nossa WEB chegou hein Paulo ?

    • Olá, Rogério, imenso prazer em ler seus detalhados e esclarecidos comentários.

      Eu acho que, sob muitos aspectos, a situação da Web é tenebrosa, e o futuro incerto. Eu uso bloqueador de anúncios (Adblock Plus), embora perceba que existem formas de contornar isso, sem falar que vários sites impedem o acesso caso o usuário não tire o bloqueio.

      Existem razões pelas quais a situação chegou ao ponto de sermos usuários o tempo todo atentos para não termos os nossos computadores infectados por vírus, malware, etc. E eu poderia talvez ficar aqui escrevendo sobre isso sem ter certeza onde iria parar. Basta dizer que eu não descartaria coisas como ganância, prepotência, gente que tem prazer em invadir o computador de alguém e tirá-lo do ar, e neste ponto se chega ao campo da psicopatologia com imensa facilidade.

      Sim, em Matrix o objetivo é mostrar como se pode inventar uma realidade virtual e dominar toda a raça humana sem chance de reação. Não chega a ser um paralelo no que está acontecendo na Web, mas fica próximo.

      Por outro lado, Rogério, eu vejo cada vez mais com clareza porque as pessoas estão caminhando para o total abandono dos desktops e notebooks. O suporte aos desktops, e aí me refiro a peças de reposição inclusive, sempre foram ruins na época do contrabando, e agora se tornaram deploráveis com a presença dos representantes dos fabricantes no país, salvo algumas poucas exceções. Portanto, eu entendo porque muito pouca gente hoje em dia se incomoda com isso.

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