Formato HDR

O formato HDR ainda sem definição de padrão

A imagem HDR vem de múltiplos formatos e há poucos equipamentos prontos para reproduzir todos eles — a guerra de formatos não beneficia ninguém.

 

A história nos traz fortes evidências de que guerras de formatos acabam sempre com perdas, de um dos lados ou do lado de todos. E exemplos foram vistos no passado, que terminaram por confundir o consumidor, com gasto de dinheiro perdido e outras consequências nada agradáveis, como, por exemplo, falta de suporte.

Alguém ainda se lembra da guerra entre VHS versus Betamax? E que tal Blu-Ray x HD-DVD, ou SACD x DVD-Audio (DSD x PCM), ou ainda Laserdisc x CED? Chega? Tem mais, mas não pretendo citar mais nada, para não perder tempo.

Infelizmente, a indústria e as entidades que estabelecem padrões parece que não aprendem com esses exemplos, e continuam fazendo das suas. No momento, o desastre iminente é o foco no formato HDR.

O HDR passou a ser um recurso importante nos aparelhos de TV e serviços de streaming. O objetivo é aprimorar a qualidade da imagem, tornando-a mais realista. Os aparelhos com HDR são desenhados de modo a contornar as limitações de luminância e contraste de aparelhos convencionais (SDR), além de exibir uma palheta de cores mais abrangente.

Até este ano, os formatos HDR prevalentes têm sido o HDR10 e o Dolby Vision, sendo que este último apenas em alguns modelos de TV. Estes dois formatos foram de tabela incluídos no Blu-Ray UHD (4K). O Dolby Vision, apesar de um pouco mais escasso nesta mídia, vem sendo usado mais frequentemente por serviços de streaming.

A diferença básica entre HDR10 e Dolby Vision está no uso dos metadados dos codecs: o primeiro usa informações fixas, uma formatação estática para todo o programa, enquanto que o segundo muda essas informações de acordo com o segmento em exibição, por isso chamado de formato com metadados dinâmicos.

Até aí, a gente entende e aceita, até porque os televisores capazes de reproduzir HDR10 já bastariam para assistir a maior parte dos programas com HDR. Entretanto, formatos mudam, no caso do HDR10, que mudou para HDR10+, com metadados dinâmicos.

Tudo isso tem um preço, e não me refiro apenas aos custos para o consumidor. O formato HDR, por exemplo, foi estabelecido sem custos para os seus provedores, e por isso radicalmente adotado por empresas que não querem pagar o direito de uso imposto pela Dolby ao Dolby Vision. Mais recentemente, essas empresas se uniram, para formar um consórcio, chamado de HDR10+ Alliance.

 

 

Dois gigantes, Samsung e Panasonic, se propuseram a dar apoio ao HDR10+, excluindo o Dolby Vision das suas linhas de TV, mas no caso específico do serviço de streaming Amazon Prime Video, o serviço admite que o formato da Dolby esteja incluído.

O Amazon Prime Video oferece HDR 10+, mas o HDR 10 base convencional está incluído junto, garantindo assim a compatibilidade de sinal nos aparelhos sem a decodificação para HDR10+.

Em outras situações, tudo muda. Por exemplo, o seriado Bosch, do Amazon Prime Video, está divulgado como transmissão em Dolby Vision, a partir da segunda temporada. No meu sistema, o sinal na TV aparece como HDR10. Reproduzindo pelo Apple TV, que transmite Dolby Vision corretamente, o sinal continua HDR10. É possível que os respectivos aplicativos não tenham sido modificados ou então o serviço da Amazon tenha desistido de usar Dolby Vision e não falou nada para ninguém.

O seriado Jack Ryan, da mesma Amazon, com o logo Dolby Vision na descrição do aplicativo da minha TV, o formato que é exibido é, novamente, HDR10. Entretanto, o seriado começa com áudio 5.1 convencional, mas a partir de um dado episódio o som passa a ser Dolby Atmos, cujo logo nunca aparece nos créditos do aplicativo. Assistindo esses episódios novos via Apple TV se consegue HDR10 + Dolby Atmos. Direto pelo aplicativo da TV, esses últimos episódios são identificados como Dolby Vision e Dolby Atmos. Conclui-se que o Prime Video, que aparece na mídia como um serviço que adotou HDR10+ radicalmente, endossa Dolby Vision em alguns programas.

O fiasco da Technicolor

Creio que não existe empresa que tenha maior know-how em cores do que a Technicolor. Seus algoritmos de HDR parecem ser de ponta, mas na “ponta” do usuário final eles nunca aparecem.

No ano passado, eu escrevi um texto sobre a falta de disponibilidade do codec avançado de HDR prometido para minha TV LG, e que nunca chegou.

A Technicolor continua ativa neste projeto, por incrível que pareça, e prometendo mudanças a partir de 2019.

Atualmente se sabe que o avanço da Technicolor dividiu-se em três formatos, a serem implementados em algum ponto do futuro, ou não.

  • Single-Layer HDR1 (SL-HDR1): destinado ao broadcast, o sinal é codificado como SDR com metadados somente identificado por aparelhos de recepção compatíveis.
  • Single-Layer HDR2 (SL-HDR2): o codec é implementado tendo como base o HDR10, com metadados dinâmicos, porém, segundo dados divulgados, incompatível com displays SDR, ou seja, se a TV não dispuser de decodificador HDR10 não vai “enxergar” nada.
  • Single-Layer HDR3 (SL-HDR3): usa como base o HLG HDR, com metadados dinâmicos, mas as últimas informações que eu li davam conta de estar em processo de adaptação e evolução.

Uma confusão desnecessária

Eu aprendi, a duras penas, que quando se manda um trabalho científico para publicação, deve-se antes fazer um esforço para não enviar dados errados ou conclusões equivocadas, sob pena de receber críticas pesadas. E mesmo tendo certeza de que os dados estão corretos, no momento de se tecer uma conclusão razoável a respeito, usa-se termos que não indiquem serem aqueles dados a expressão da verdade, ou seja, deixa-se uma margem para a dúvida do leitor. Se os dados evidenciam uma verdade, outras publicações irão comprová-las da mesma maneira, e vice-versa.

A situação não deveria ser diferente nas publicações on-line, de sites de analistas profissionais, a respeito de áudio ou vídeo.

Em vários desses sites eu li a informação colocada de forma taxativa de que aparelhos OLED da linha LG não são capazes de reproduzir fontes de vídeo codificadas com HLG HDR.

Eu baixei um arquivo tipo “ts”, disponível on-line com o título “TravelXP 4K HDR HLG Demo” e fiz o download para um drive USB. De fato, ao inserir o drive direto na minha TV OLED da LG, o player interno identifica o arquivo como SDR. Mas, ao inserir o drive em um Oppo UDP-203, e mandar reproduzir o mesmo arquivo, a TV indica na parte superior direita tratar-se de fonte HLG HDR, como é mostrado na captura abaixo:

 

 

Se eu tivesse feito este teste somente na TV iria concluir que ela não é capaz de reproduzir HLG HDR. O que mudou então? O player incluído nos aparelhos é o responsável por ler o header dos arquivos, para saber que codec será usado na reprodução.

Na minha experiência com isso, eu noto que a capacidade desses players varia enormemente, e aqui se vê que o sinal HLG HDR é prontamente identificado no player do Oppo e enviado como tal para a TV. Se a TV não dispusesse de decodificador adequado, o logo da tela não iria aparecer. Portanto, ao contrário do que afirmam os analistas, a TV LG OLED é sim capaz de decodificar HLG HDR. A minha TV saiu em meados do fim de 2017, sendo pouco provável que o codec não tenha sido incluído em modelos posteriores!

Se o formato HDR varia segundo o serviço de streaming, não adianta fazer contato com o provedor, porque a reprodução de cada codec dependerá do aplicativo usado no sistema, e neste caso somente o fabricante de cada aparelho será responsável pelas funções nele incluídas.

Alguns serviços com sinal HDR poderão nunca estar disponíveis em países para os quais ele não foi destinado. O HLG HDR, patrocinado pela BBC, é um provável candidato a nunca ser incluído no broadcast de outros países. O leitor deve lembrar a enorme competição entre os sistemas de HDTV americano e japonês, tendo vencido este último para uso no Brasil. Na prática se nota que existe uma tendência à exclusividade de recursos nestes sistemas.

Eu já observei que quando se trata de qualidade de vídeo, cada pessoa impõe a si própria o gosto pelo aprimoramento da imagem ou não. A confusão com os formatos HDR e a sua expansão que dependerá do hardware e principalmente do software irá afetar, creio eu, aqueles que de fato apreciam vídeo de boa qualidade, os outros provavelmente irão passar batidos. Outrolado_

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Processamento HDR em fotogramas de filmes de catálogo

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “O formato HDR ainda sem definição de padrão

  1. Olá Paulo
    Pois bem seu questionamento quanto ao HDR é totalmente plausível. Tenho a mesma posição, pois recentemente adquiri uma TV da Panasonic com suporte ao propalado HDR, mas vem uma ressalva no manual que diz:
    – Para modelos Full HD e HD: A capacidade de enviar um sinal HDR não 4K via HDMI depende totalmente do dispositivo de reprodução. A maioria dos discos Blu-ray 4K requer HDCP2.2 na TV para reproduzir HDR, enquanto a entrada HDMI nesta TV suporta apenas HDCP1.4; consequentemente, nem todos os conteúdos HDR são garantidos para serem desfrutados na TV.
    Então como dizem… Nem tudo são flores.
    A falta de padronização é um problema que afeta todas empresas fabricantes de TV’s e seus respectivos players, ou seja se desejar ter uma compatibilidade total do HDR entre os equipamentos conectados, tem que adquirir todos de uma marca só, caso contrário as empresas tiram o corpo fora, e não garantem o pleno funcionamento deste formato.

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