Irmão Lumiere, os inventores do cinema

Irmãos Lumière, os inventores do cinema

Os irmãos Lumière inventaram o Cinematógrafo e rodaram mais de 1400 filmes. Estabeleceram os princípios da linguagem cinematográfica, base do cinema moderno. Foram os verdadeiros pais do cinema e sem dúvida alguma os primeiros cineastas.

 

Curiosamente, “Lumière”, uma vez traduzido do francês, significa “Luz”, ou no sentido figurativo, “Esclarecimento, ou esclarecer, tornar claro”.

O cinema, como o conhecemos, foi inventado pelos irmãos Louis e Auguste Lumière, no final do século 19.

Detratores historicamente vêm negando este fato mas, como se diz popularmente, uma imagem vale mais do que mil palavras, e neste caso basta assistir os filmes feitos pelos irmãos Lumière para se ter certeza de que forma eles se tornaram os reais inventores do que se chamou depois de “cinéma”. A palavra vem do grego kinema, significando movimento, no caso “imagens em movimento”. O termo francês “cinéma” é uma abreviação do aparelho de filmagem e projeção chamado de “cinématographe, ou Cinematógrafo.

Os norte-americanos preferem atribuir ao infame Thomas Edison a invenção do cinema. Na realidade, Edison e seus assistentes desenvolveram uma máquina que permitia capturar imagens em filmes, batizada de Kinetograph (Cinetógrafo), depois as imagens inseridas em outra máquina, o Cinetoscópio, ou Kinetoscope, uma caixa onde uma só pessoa acionava uma manivela para então assistir o que tinha sido filmado.

 

 

Antoine Lumière, fabricante de placas fotográficas, foi aos Estados Unidos, viu o Kinetoscope, achou a ideia interessante, mas primitiva. Contou a seus filhos Louis e Auguste e os estimulou a desenvolver um sistema capaz de capturar imagens em movimento e depois projetá-las em uma tela.

O resultado do trabalho dos irmãos Lumière é o Cinématographe, ou Cinematógrafo, um aparelho capaz de registrar imagens em fotogramas de um filme 35 mm. A inclusão de um sistema de tração do filme na frente do obturador é o que garante a qualidade da captura do movimento.

 

O sistema tem dois pinos (ou garras) que arrastam o fotograma até a objetiva, deixando-o momentaneamente estático. O obturador, na forma de uma roda com aberturas sincronizadas, deixa passar a luz vinda da lente, mas depois fecha esta passagem de luz, permitindo que as garras avancem o próximo fotograma.

Com isso se estabelece o que se conhece em cinema como cadência, que é a velocidade de exposição de um número de quadros por segundo. No Cinematógrafo esta cadência é de 16 quadros por segundo, que viria a se tornar o padrão mundial dos filmes mudos.

O sistema de garras mais obturador funciona da mesma forma na projeção do filme anteriormente capturado. Com a fixação e depois substituição da imagem na tela por outra, em sucessão na cadência estabelecida, a persistência de visão dá ao espectador a ilusão correta do movimento. Na máquina de Edison não existe tal obturador, e sim movimento contínuo do filme, tornado a imagem em movimento muito menos precisa. Não só isso  — para diminuir o erro de exposição o filme roda na câmera a 48 quadros por segundo, significando enorme desperdício de filme.

 

 

Um vídeo com animação criado pelo Museu Del Cinema mostra como o Cinematógrafo funciona:

 

 

Um documentário sobre os irmãos Lumière, com o título “Lumière! A Aventura Começa”, resgata cerca de 144 curtas, de um catálogo que passa de mais de 1400 títulos documentados, no período de 1895 a 1905.

 

A restauração das imagens evidencia a fidelidade no processo de captura do Cinematógrafo. Por conta de um magazine de filme pequeno, os irmãos Lumière conseguem apenas 55 segundos de captura de imagens.

Ironicamente, e por causa desta limitação de tempo, eles fizeram um planejamento que transcendeu a mera captura de uma cena. Todos os conceitos que tornaram o cinema uma arte estão ali: posição da câmera, enquadramento, composição da cena, profundidade de campo, além de, em alguns casos, travelling da câmera, com a ajuda de algum tipo de veículo, como barcos, trens, bondes, etc.

Um aspecto para mim impressionante é a capacidade de síntese na narrativa visual. Uma sequência deve ter, em princípio, início, meio e fim. Conseguir isso em apenas 50 segundos, com uma câmera estática e em um único plano (única tomada), é uma proeza. Em tempos modernos se vê até hoje a indústria da propaganda fazer isso a todo o momento, só que com diversos planos. Cineastas modernos, rodando planos que duram de 1 a 3 segundos cada um, parece que perderam a capacidade de síntese, como mostrada no século passado!

Logo nos primeiros filmes nota-se que estão ali os elementos básicos da linguagem cinematográfica, posteriormente explorados por cineastas do mundo todo, que inauguraram uma forma estética de rara beleza visual, estampada em uma tela de cinema!

A evolução desta narrativa foi feita principalmente pela colagem de tomadas (ou planos), processo este chamado de “montagem”, feito de maneira a se poder contar uma estória a quem assiste, ou seja, a mesma ideia da lanterna mágica, porém com movimento e cenas reais, um verdadeiro milagre, que emocionou plateias no mundo todo.

Os irmãos Lumière inicialmente trabalhavam sozinhos, Auguste na frente da câmera e Louis rodando a manivela do Cinematógrafo. Depois formaram uma equipe de técnicos Cinematógrafos, que rodaram o mundo com suas câmeras. Poderiam facilmente ser considerados os primeiros cineastas do mundo.

Estes promissores cineastas viajaram para vários países, mostrando inclusive que o Cinematógrafo funcionava como projetor. Em Nova York, isso teria irritado Thomas Edison, que pediria a extradição do grupo francês dos Lumière.

Historicamente, cineastas americanos fizeram de tudo para se livrarem de Edison, e com material importado, filmes e câmeras, vieram depois se estabelecer na Califórnia, em um lugar chamado de Hollywoodland, que veio a ser a capital do cinema.

Na América, o cinema foi mais uma maneira de ganhar dinheiro com a diversão popular, e é assim até hoje! Mas, na Europa, Lumière e outros exploraram o cinema como meio de documentação da época, costumes e hábitos de então, ou ainda como forma de expressão visual. Isto se pode ver claramente nos filmes de Georges Méliès e no expressionismo alemão, anos mais tarde. Méliès foi tratado com justiça como pioneiro na arte de fazer cinema, no filme “Hugo”, dirigido por Martin Scorsese, que, aliás, colabora no documentário sobre os irmãos Lumière, acima citado.

Os irmãos Lumière nos mostraram que não basta só inventar a máquina, mas saber o que fazer com ela. Todos os seus ultra curtos filmes deixaram um legado que foi depois explorado mundialmente. E, portanto, nós devemos a eles e ao Cinematógrafo tudo de bom em cinema como nós temos até hoje! Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Irmãos Lumière, os inventores do cinema

  1. Nossa Paulo essa matéria é para ser impressa e colocada em um quadro. Uma verdadeira “primazia”. Todo seu contexto, a sua narrativa e seu enredo bem elaborado… Você Paulo tem na sua essência aquele componente que domina os Cinéfilos que é a paixão pela 7ª arte. Graças a esses verdadeiros inventores (Os irmãos-Lumiere) que hoje viajamos por lugares desconhecidos, assistimos a obras de Ficção que nos submetem a várias teorias, que de uma forma ou de outra se tornam realidade, como 2001 Uma odisseia no espaço. Sem contar que (ao meu ver) é a única forma de espetáculo que mexe profundamente com nossas emoções. Eu gostaria para contextualizar esta brilhante matéria, citar um filme que corrobora com o seu enredo Paulo, que tem na sua narrativa uma estória que me propiciou mergulhar numa obra cinematográfica. Trata-se do filme Hugo (A Invenção de Hugo Cabret) dirigido pelo grande cineasta Martin Scorsese. Creio que já tenha visto. Mas ao meu ver neste mundo muitas coisas acabam ou se modificam, mas o cinema sempre se atualizará. Forte abraço e Parabéns.

    • Olá, Rogério,

      Às vezes eu me surpreendo quando alguém lê um texto que eu fiz e faz elogios como o seu, os quais eu espero sempre ter sido merecedor.

      Mas é a pura verdade, quando colunas como essa revelam a minha paixão pelo cinema, e até, neste caso, justiça para dar crédito a quem merece!

      Sobre “Hugo”, eu faço uma menção por causa de Méliès, lá pelo fim do texto.

      E se você assim o desejar, por favor fique à vontade para divulgar o texto para seus amigos, entre aqueles que também amam cinema.

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