A História de Eddy Duchin é puro cinema no formato de 1950

Melodia Imortal, melodrama lacrimogênico lançado em CinemaScope na década de 1950 sobre a vida do pianista Eddy Duchin, tem uma trilha sonora exemplar, com direito a ouvir Aquarela do Brasil com arranjo excelente e som estereofônico.

 

Há certo tempo atrás o selo independente Twilight Time licenciou a edição do filme da Columbia “The Eddy Duchin Story”, dirigido pelo já veterano, ex-MGM, George Sidney. O filme teve o título em português modificado para “Melodia Imortal”.

Eu ainda era muito menino, quando o meu irmão me levou para assistir uma das reprises no Cinema Rex, que ficava (não sei se ainda está lá) na Rua Álvaro Alvim, próximo da antiga Cinelândia. O Rex fazia parte da cadeia de Severiano Ribeiro, mas com o tempo entrou em um processo de decadência lastimável.

O filme saiu em DVD, mas que eu tenha visto, somente na América. Idem para a edição em Blu-Ray, sendo que a Twilight Time limitou a prensagem a 3000 discos. Ainda é possível se conseguir uma cópia pela Internet, mas no site oficial do selo (Screen Archives) o disco se esgotou.

 

 

A edição em alta definição é, eu diria, razoável, embora a autoração seja um tanto ou quanto comodista, porque a trilha sonora no processo CinemaScope, de 4 canais (3 na tela), pode perfeitamente ser transferida para 3.0, 4.0 ou até 5.1, mesmo sabendo que é uma trilha totalmente frontal, ou seja, o surround é praticamente inexistente. No entanto, o disco é lançado em DTS HD MA 2.0.

Na época em que o filme foi lançado (1956) a Fox já havia liberado o uso do formato de tela larga conhecido como CinemaScope, com lentes anamórficas primeiro trazidas da França e depois fabricadas pela Bausch & Lomb. A história de Eddy Duchin foi filmada com a relação de aspecto original do formato, em 2.55:1.

A história de Eddy, à moda de Hollywood

Na vida real, Eddy Duchin era um pianista de música popular, como mostra o filme, e não pianista de Jazz, como indica o Wikipedia. Seus discos ainda rodam por aí, caso haja alguém interessado. Morreu de leucemia grave aos 41 anos de idade.

Peter Duchin, citado no filme, também é músico e está ativo até hoje. Ele nasceu cerca de seis dias antes da morte da mãe, a socialite nova-iorquina Marjorie Oelrichs, que faleceu com 29 anos, por complicações no período posterior ao parto.

A belíssima Kim Novak interpreta Marjorie. Na época em que vi o filme pela primeira vez, ainda menino, eu achava Kim “uma das mulheres mais bonitas do mundo”, mas, justiça seja feita, ela está muito mais fotograficamente exuberante, desta vez em VistaVision, no esplêndido “Um Corpo Que Cai” (“Vertigo”), obra-prima de Alfred Hitchcock, de 1958.

Na história filmada de Duchin, Novak se mostra ora segura de si e determinada, ora vulnerável. Seu olhar lindíssimo mostra a expressão da mulher apaixonada, e a sua vulnerabilidade o prelúdio da sua eventual morte na história.

O interessante, creio eu, é que sobre todos os aspectos, aos olhos de um menino da década de 50 e adolescente na década seguinte, algumas das atrizes americanas de peso transmitiram um encantamento místico de beleza pura e de intensa paixão.

Na minha época de adolescente eu ainda iria ter um sentimento semelhante, ao me deparar na tela com atrizes como Lee Remick ou Jean Seberg (inclusive na sua fase francesa da Nouvelle Vague). São padrões que ficam por causa da exposição na época.

 

 

Melodia Imortal, no seu conjunto, é um tremendo dramalhão lacrimogênico. Trata-se, evidentemente, de Hollywood praticando a sua tradicional manipulação, difícil de aturar, mesmo naquela época. Mas, se a plateia não se incomodar com isso, o que aparentemente aconteceu no lançamento do filme, a emoção é garantida até o fim do filme, porque o que não falta ali é melodrama!

Entretanto, algumas cenas têm, até hoje, lugar de destaque no filme:

1.  Logo no início, o prefeito de Nova York, Jimmy Walker, entra no Casino aonde a nata da sociedade local vai para jantar e dançar, e todo mundo para, tamanho o deslumbre com aquela “imponente” figura. Olhando uma cena dessas hoje a gente inevitavelmente acha engraçada.

2.  Mais ou menos no meio do filme o roteiro dá uma pausa e Eddy Duchin se senta ao piano para tocar o clássico de Ary Barroso “Aquarela do Brasil”, com arranjo esplêndido, um dos melhores que eu ouvi desta magnífica peça. O arranjo, principalmente o das cordas, traduz com autenticidade e fidedignidade o tom de samba exaltação pretendido pelo compositor.

3. A abertura do filme com os créditos se dá com a orquestra tocando de relance “Manhattan”, composta por Richard Rodgers e Lorenz Hart, o que impressiona muito a quem assiste.

4. O filme tem uma das belas sequências filmadas e orquestradas no seu encerramento. São poucos os filmes que eu vi com um final deste quilate. A plateia sabe que Duchin vai morrer, mas ela nunca irá assistir este desfecho, porque a câmera se afasta dos pianos e Eddy não está mais lá. É lindo de se ver e ainda por cima com uma orquestração espetacular!

O ator Tyrone Power (Eddy Duchin) personifica com destreza o pianista de seu personagem, que na trilha sonora foi substituído por Carmen Cavallaro, cujo nome é destacado, com justiça, nos créditos.

 

 

A produção aproveita as virtudes dos projetos em CinemaScope, apresentando uma trilha sonora de alta qualidade, com som estereofônico frontal irretocável.

Nem a morte de Duchin ou de Marjorie são explicadas no filme, e é difícil entender porque o roteiro, sendo um melodrama, se livra delas.

Filmes da década de 1950, em tela panorâmica, tem aproximadamente a mesma estrutura estética, procurando explorar espaço no enquadramento e espetáculo. Afinal, as telas de outrora, associadas aos palácios de cinema, permitiam isso. Para nós hoje é pura nostalgia, bem aproveitada, apesar do tamanho reduzido das telas de TV, mas pelo menos com um som tão bom ou melhor do que aquele que foi apresentado nos cinemas.

Infelizmente, tanta fantasia só mesmo no cinema, e nós que crescemos com esta noção de amor apaixonado e incondicional da mulher amada, tivemos, ao longo do tempo, todos os motivos para ficarmos decepcionados!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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