A tortura financeira das orquestras sinfônicas

As orquestras sinfônicas estão à míngua e em luta perene para sobreviver. Ver a Orquestra Sinfônica Brasileira desaparecer seria um trauma de proporções catastróficas.

 

As grandes orquestras sinfônicas têm um custo financeiro elevado. A gente pensa que em países ricos a situação é diferente da nossa, mas não é o caso. Na América do Norte, por exemplo, grandes orquestras americanas sofrem com a parte financeira há muitos anos,

Em 2001, um artigo da revista Time questionou se as orquestras sinfônicas estavam morrendo. Em 2010, a situação não havia quase mudado, com o anúncio do quase fechamento da Sinfônica da Filadélfia. Em 2019, pasmem, as mesmas notícias continuavam a prever um apocalipse musical indescritível.

E os motivos poderiam ser vários, como, por exemplo, a queda de bilheteria ou a falta de diversidade no repertório apresentado, ambos exigindo a renovação do público e o ingresso sistemático de pessoas mais jovens.

A situação brasileira, infelizmente, não é diferente! Em ocasião recente eu tive a chance de ver a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) dar um belíssimo concerto com as partituras de John Williams, e eu inclusive escrevi e publiquei um texto sobre este evento.

Dias atrás, eu fui convidado de novo pelo meu filho para um evento similar, mostrando trechos conhecidos de peças clássicas usadas até mesmo em desenhos animados. O Maestro Tobias Volkmann me encantou com o seu conhecimento sobre cinema e como a música clássica foi frequentemente usada como trilha sonora de filmes. Citou a obra de Rossini “La Gazza Ladra”, usada por Stanley Kubrick no filme “A Laranja Mecânica”, que é muito conhecida pelo grande público, e popularizada no cinema diversas vezes.

Mas, o que me deixou surpreso foi a presença no palco da Diretora Artística e Executiva da OSB, Ana Flávia Leite, antes de o espetáculo começar. Como eu nunca a vi na minha frente antes, eu fui depois saber do que se tratava.

Ana Flávia começa fazendo um histórico das suas lutas frente à Fundação da OSB, e no final se vira de frente para os músicos com elogios de tudo quanto é tipo, os parabenizando pela sobrevivência da orquestra.

Eu então quis saber o porquê de tanta cerimônia. E me lembrei de uma crise recente da OSB, com os músicos indo ao público para expor a situação de abandono da orquestra. Isto aconteceu por volta de 2016, se a memória não me trai, no imbróglio envolvendo o então um diretor da OSB, o maestro Roberto Minczuk, com o qual os músicos bateram de frente.

Da acima citada Ana Flávia para frente tudo faz crer que a crise continua. Ela própria publicou uma carta aberta ao público, queixando-se das portas fechadas aos apelos de sobrevivência financeira da OSB. Porém, a crise continua e em uma das páginas do site da OSB aparece uma proposta de participação do público em um programa financeiro, para pessoas físicas e empresas.

O dilema é definir cultura

Seria, salvo melhor juízo, inimaginável ver a OSB encerrar as suas atividades. Desde a sua fundação no século passado, ela passou a integrar um patrimônio cultural sem precedentes. No seu histórico a OSB teve à sua frente um número incontável de grandes maestros, nacionais e estrangeiros.

Atualmente, ela faz um esforço participativo de grandes proporções, e a gente vê isso, com espetáculos que mostram ao público que a música erudita já foi um dia popular! E que ninguém precisa ser intelectual para gostar de música de boa qualidade!

Se alguém tem chance de receber uma boa educação de base, em casa e/ou na escola, e ainda ser exposto à música de bom nível, torna-se menos provável de que esta pessoa possa ter preconceito contra a música melhor elaborada ou sofisticada.

E a recíproca é perfeitamente verdadeira. Na minha adolescência, passou-se comigo uma situação inusitada: eu tinha hábito de receber em casa colegas da faculdade, muitas vezes só para ouvir música, e se ouvia de tudo, um pouco do que cada um gostava. Certa feita, meu irmão e minha cunhada trazem uns amigos de São Paulo aqui em casa para almoçar.

Eu toquei o álbum “Switched on Bach”, primeiro disco de música eletrônica que eu tive. Terminado o lado A, um desses amigos me fala “agora chega de curtura, e coloca música aí para a gente ouvir”… O comentário foi feito na base do deboche, mas o suficiente para eu entender que o conceito de “curtura” varia de indivíduo para indivíduo.

Como cultura se compreende o acúmulo de conhecimento e de experiências de vida, entre outros significados. A palavra “cultura” nem sempre é sinônimo de bom gosto. Musicalmente falando, ela pode ser interpretada como música popular chula, promovida nos palcos por mulheres seminuas exibindo as bundas, homens agressivamente pintados tocando rock e outras atrocidades que não têm absolutamente nada a ver com música. Mas o público se identifica com isso, e, portanto, o eventual lixo fica incorporado à cultura.

O preconceito contra a música erudita é fruto da total ignorância do que se está ouvindo. Muita gente por aí, eu aposto, já ouviu música erudita, gostou e não sabe!

A música erudita está presente nas trilhas sonoras dos filmes, direta ou indiretamente. Basta ouvir a trilha de Guerra Nas Estrelas, composta por John Williams, e se tem a sensação de estar ouvindo trechos de Os Planetas, composta pelo compositor inglês Gustav Holst. E não há nada de errado em fazer citações de músicas conhecidas, na verdade não deixa de ser um tributo aos grandes compositores do passado, ou uma forma de divulgar suas obras.

Apresentações da OSB no Teatro Riachuelo

A orquestra se vira para apresentar espetáculos fora do Theatro Municipal, como na Sala Cecília Meireles, na Cidade das Artes e no Teatro Riachuelo. Foi neste último que eu assisti ao último concerto sobre a influência da música clássica popular nos filmes.

Entrando naquele recinto eu tive a sensação de estar presente em um local onde eu frequentei anos a fio, em momentos historicamente importantes para mim. Ali se deu a primeira projeção em CinemaScope no Rio de Janeiro, com o filme O Manto Sagrado.

 

 

Foi também para mim uma mistura de sentimentos: se por um lado eu senti um alívio de ver a construção original preservada, dentro e fora do antigo cinema, por outro perdura uma sensação de traição de um prédio tombado, mas nunca preservado como patrimônio cinematográfico da cidade.

Na atual instalação, os balcões foram reconstruídos (o cinema havia se dividido em dois), a cabine de projeção aparentemente reconstruída com modificações. Na área do antigo proscênio, este mantido sem retoques, a parte traseira do palco foi aberta para abrigar um espetáculo teatral, neste caso a OSB. A acústica é razoável, mas notoriamente inadequada, se comparada com uma sala de concertos convencional.

A entrada da OSB no Teatro Riachuelo não deixa de estabelecer uma correlação sadia entre a música clássica e o cinema. Quem quiser comprovar isso, é só ler sobre a temporada de novos espetáculos naquele local, que ainda vem por aí. Em última análise, estar lá presente não deixa de ser uma maneira de ajudar a preservar a OSB. No concerto que eu fui, a plateia estava lotada! Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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