O desbalanceamento da amplitude do áudio e seus efeitos na reprodução multicanal

Um dos parâmetros mais importantes na calibração de um sistema multicanal é o nível de amplitude (volume) de cada canal.

 

Um dos parâmetros mais importantes na calibração de um sistema multicanal é o nível de amplitude (volume) de cada canal. Esta calibração deve ser feita para garantir o perfeito balanceamento do layout de caixas acústicas usadas, seja ele de 2 até 7 canais, e mais 2 ou 4, se for uma instalação Atmos/DTS:X/Auro-3D.

Para garantir que o ajuste seja o mais próximo possível do verdadeiro, o usuário deve usar um decibelímetro, lá fora chamado de “sound level meter” ou “sound pressure level meter”. Existem hoje aplicativos para celular Android com esta finalidade inclusive.

Na época em que eu calibrei o meu primeiro sistema, eu dei a sorte de ter um colega da universidade que foi ao Estados Unidos a trabalho, e comprou um desses medidores para mim. Este tipo de equipamento já era fácil de encontrar lá fora, porque todo mundo que monta um sistema de áudio e vídeo usava. Se fosse aqui, eu teria que tentar catar um em uma revenda de produtos de eletrônica, pelo menos foi assim na década de 1990.

A maioria desses medidores (e o meu não é exceção) tem um erro na faixa de sons de baixa frequência. Na Internet é possível se achar as correções das curvas de resposta, de acordo com o medidor usado, mas não é radicalmente necessário fazer este tipo de compensação em um ajuste de nível para home theater.

Para fazer uma medição, o A/V receiver ou pré A/V gera um ruído rosa (“pink noise”), de amplo espectro de emissão, e com igual nível de energia em todas as frequências geradas por ele.

Um medidor SPL convencional (veja na imagem abaixo) permite não só mostrar o nível capturado em um dado momento, como estabelecer a média entre os níveis capturados, em um dado intervalo de tempo.

 

 

Normalmente o medidor digital mostra uma oscilação de nível, às vezes considerável, dependendo da acústica da sala. Para fazer medidas com menos dor de cabeça, ajusta-se o medidor para medidas com resposta lenta (“slow”), e com peso (weighting) “C”, que é o mais indicado para medir picos de nível.

O usuário tem que ter paciência e repetir as medidas até achar um valor mais próximo do ideal. Depois disso feito, as chances de se ouvir uma trilha sonora multicanal com grande qualidade aumentam, embora outros ajustes no decodificador sejam ainda necessários.

No passado distante, quando surgiram os primeiros decodificadores Dolby Digital 5.1 canais ainda se falava em se fazer “ajustes de ouvido”, e isso ainda pode ser feito, mas os valores ajustados ficam sempre bem longe do ideal.

No estúdio de mixagem

O trabalho de mixagem, feito em estúdio montado para este fim, precede à codificação da trilha sonora para qualquer formato de áudio, que estará depois contido na mídia.

A carga de trabalho inclui o recebimento do vídeo e de vários elementos da trilha sonora, que alimentam a mesa de mixagem, onde o nível de cada canal e a distribuição do áudio segue um plano (roteiro) pré-estabelecido. Se houver dublagem, um software faz o ajuste para uma perfeita sincronização labial dos personagens.

Uma visita que fiz, anos atrás, ao estúdio Double Sound, me mostrou como tudo isso é feito a partir de uma montagem desenhada e aprovada pela THX. As caixas frontais emitem uma luz de LED vermelha, que permite ao operador identificar a correta posição do canal central.

 

 

Depois de tudo pronto, o estúdio manda a master pela Internet, a quem de direito. Lá fora, a matriz da mídia (cinema, DVD, Blu-Ray, etc.) é autorada, de acordo com o projeto, e enviada para prensagem no país de destino. Nada impede que a autoração seja realizada aqui. Muitos estúdios locais já fazem isso há vários anos.

O que pode dar errado apesar da mixagem ser bem feita

Existem várias etapas na autoração e na reprodução que podem resultar no desbalanceamento de nível entre os canais, notadamente no canal central, que por determinação do padrão Dolby Stereo, abriga a totalidade dos diálogos dos filmes modernos.

Não é incomum a trilha sonora abafar completamente o nível dos diálogos, obrigando o usuário final a compensar a diferença aumentando o volume master do equipamento. Ao fazer isso, o nível da trilha sonora pode chegar a valores elevados, assustando até o vizinho que mora do lado.

Aconteceu agora algo exatamente deste tipo, na reprodução da trilha Dolby Atmos do seriado de TV “Another Life” (aqui, “Outra Vida”). O problema durou até o sexto episódio, do sétimo até o fim o nível de diálogo estava correto, ou próximo do ideal.

O que tornou a reprodução inusitada foi o pulsar de sons de baixa frequência na trilha sonora, produzindo uma reverberação que parecia que iria derrubar as paredes do recinto!

Curiosamente, o site IMDb descreve esta trilha como “estéreo”, e quando eu quis corrigir, o sistema recusou. Apesar de o seriado ser recente, aparentemente alguém já havia tentado fazer esta retificação e ela foi negada, pelo menos é o que o site informa. Mas, na realidade se trata de um programa reproduzido em 4K, Dolby Vision e Dolby Atmos.

A propósito, nas páginas do IMDb as críticas sobre o conteúdo deste seriado são ultra pesadas, com os participantes perguntando quem foi o retardado que escreveu aquilo.

Katee Sackhoff, figura constante em programas de ficção científica, aparentemente não conseguiu agradar seus fãs. Do meu lado, sinceramente, a única queixa que eu tenho foi a ausência de desfecho da estória: no último episódio, a personagem diz que tem que retornar à terra para denunciar as más intenções dos alienígenas, mas fica por isso mesmo. Se não for feita uma segunda temporada, ninguém vai saber se ela retornou ou  não…

Quanto ao nível desbalanceado na reprodução da trilha sonora, ele também depende do veículo reprodutor, podendo o resultado variar de um equipamento para o outro. Como usuário eu só posso ter certeza de que o erro existe se eu tiver previamente balanceado o sistema de caixas do melhor modo possível.

Para sua referência, o equipamento usado com a constatação do erro foi um Apple TV 4k, última geração, conectado por HDMI a um A/V receiver Denon AVR-X7200WA, com um layout 7.1.4 Atmos.  Outrolado_

 

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Apego de usuários pela eletrônica convencional e antiga

 

Blu-Ray “Masterizado em 4K”

 

Trilha sonora moderna à moda antiga

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “O desbalanceamento da amplitude do áudio e seus efeitos na reprodução multicanal

  1. Olá Paulo que ótima pauta você escolheu. Realmente hoje com o advento e implementação dos sistemas multicanais, a importância de saber não só sobre os bons equipamentos de áudio, mas primordialmente em ter o conhecimento para saber usa-los de forma apropriada demanda não só uma matéria, mas vejo como um tema para uma série de reportagens, que poderiam desmembrar este assunto. Acho que poderia ser abordado em 1° lugar os locais ideais onde serão instalados esse sistema. 2° escolha das diversas marcas e modelos, que podem ser quipamentos montados de forma modular (isoladamente), ou daqueles mais simples vendidos em lojas de magazines. 3° Um tutorial para as pessoas que compram equipamentos multicanais, mas utilizam-se de ajustes pre-set, devido a falta de informação por parte da mídia, de como obter melhores resultados usando ajustes avançados, bem como a compra de equipamentos inapropriados para os locais em que serão utilizados. Ou seja é um assunto complexo que demanda ser mais detalhado. Eu mesmo fiz muitas besteiras e joguei dinheiro fora, comprando equipamentos inadequados; mas fica aí a sugestão. Um abraço.

    • Olá, Rogério,

      Obrigado novamente pela sua atenção e observações, sempre pertinentes. Eu agradeço as sugestões e prometo fazer um esforço para contemplá-las. Por enquanto, devido a problemas domésticos sem solução a curto prazo, e tendo que gastar um tempo enorme com isso, foi o que eu pude fazer. Eu acho que entendo os dilemas de quem quer montar um home theater de boa qualidade. Eu mesma já quebrei a cara várias vezes. Houve época em que as paredes da minha sala mais pareciam um queixo suíço, de tantos furos para reposicionar caixas acústicas. Só com o tempo e com a experiência adquirida se pode chegar a alguma conclusão, mas a pesquisa parece não ter fim, não é mesmo?

  2. Saudações dos Estados Unidos, de onde eu estou fazendo uma pesquisa sobre a música brasileira.
    Em um artigo que eu acredito que você escreveu “Música brasileira de qualidade… gravada lá fora!,” você mencionou Toninho Barbosa.
    Você sabe se o Sr. Barbosa ainda está vivo e, em caso afirmativo, você tem o endereço de e-mail dele?
    Muito obrigado do Daniel Donaghy, Vienna, Virginia, EUA.

    • Olá, Daniel,

      Aquele texto foi publicado no Webinsider há muito tempo. Eu não sei do paradeiro do pessoal daquela época faz muito tempo também, infelizmente, e por isso não sei se eles ainda estão por aí. E o que tenho do Toninho eu posso lhe passar:

      TBS Studio: o site era http://www.tbs.mus.br, mas verifiquei agora que está desativado.
      Endereço: Rua Pedro I 7, grupo 802, Centro, Rio de Janeiro, RJ, CEP 20061-000
      tel.: 2544-9064 e 99613-4428
      e-mail: toninho@tbs.mus.br

      Boa sorte na sua pesquisa!

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