50 anos depois de Woodstock

50 anos se passaram e o documentário “Woodstock” tornou-se a memória viva do que aconteceu no Festival de Woodstock. E nos leva a uma análise de como a sociedade em geral evoluiu, lá e em outros países.

 

Há exatos 50 anos atrás o Festival de Woodstock foi realizado em uma fazenda um pouco além de Woodstock, no estado de Nova York, com uma expectativa de umas 50 mil pessoas de público, mas no final com uma inesperada presença de aproximadamente 400 mil jovens, muitos dos quais hippies e/ou adeptos da contra cultura.

O Festival de Woodstock não foi o primeiro festival de música deste gênero, mas certamente o que ficou na memória, principalmente por conta da intensa publicidade subsequente. Documentaristas munidos de câmeras Éclair NPR de 16 mm rodaram incontáveis 8 horas capturadas naquele ambiente, e que depois foram reduzidas para próximo de 3 horas, para apresentação nos cinemas.

O filme teve o título de “Woodstock” (no Brasil “Woodstock: 3 dias de Paz, Amor e Música”). Os cineastas relataram que a previsão era de um filme de 7 horas, a Warner aceitava 3 horas, e debaixo de muita discussão e brigas, a duração nos cinemas ficou em 3:04 horas. As versões em home vídeo variam tremendamente em duração.

 

 

As tomadas de 16 mm foram montadas em um único enquadramento de 35 mm, no formato multiplano, e depois ampliadas para 70 mm. Aqui no Rio de Janeiro, o lançamento deste filme coincidiu com a instalação de aparelhagem Incol 70/35 no lamentavelmente demolido Cinema Rian, que ficava ali na Avenida Atlântica.

Orion Jardim de Faria recorda o fato no seu livro “Escalada Pela Existência”. Diz ele que a cópia prevista para o cinema era a de 70 mm (6 canais), mas a que chegou foi a de 35 mm (4 canais), e por causa disso ele e sua equipe tiveram que correr para recalibrar o equipamento, de maneira a evitar o adiamento da inauguração da aparelhagem. Ele passou a noite toda ajeitando tudo, e o filme abriu dentro do prazo previsto.

Eu estive lá como espectador, ainda adolescente, e fui testemunha de se tratar de algo nunca visto em montagem e composição de cinema. Nem na edição em Blu-Ray se pode dimensionar o que foi assistido no Rian, exceto pela trilha sonora, que foi depois remasterizada para 5.1 canais, na edição do diretor.

Um documentário recente, produzido pela TV pública norte-americana PBS, com o título idêntico “Woodstock”, mas com o subtítulo “3 Days That Defined a Generation”, foi apresentado nos cinemas de lá e na TV. Existe um streaming on-line, mas nós infelizmente não temos acesso.

 

 

O documentário original espelha um pouco a bagunça desorganizada que aconteceu na fazenda do município de Bethel, cedida pelos seus proprietários. O tempo não colaborou, mas percebe-se que ninguém deu bola; ao contrário, todo mundo que estava lá teve uma desculpa para se divertir na lama e tomar banho no rio próximo sem roupa alguma.

O filme mostra também a preocupação dos organizadores com a disseminação de drogas, particularmente o LSD (ácido lisérgico), que é um potente alucinógeno, devido à falta de assistência médica adequada naquele local. Rumores sobre LSD adulterado fizeram com que anúncios públicos colocassem em alerta quem estava consumindo e não sabia!

O Festival dentro do contexto da época

Uma parcela considerável da sociedade americana mais jovem iria se opor à convocação para lutar na guerra do Vietnam. O discurso de um alegado patriotismo e de “defesa da pátria” simplesmente não colava de jeito algum. Com isso, qualquer chance de protesto contra aquele tipo de intervenção era aproveitado de uma forma ou de outra.

Tal situação deu ainda respaldo ao festival, com ênfase na busca da paz sonhada pela juventude, apesar do evento em si ser basicamente para promover músicos e ganhar uma boa grana com isso.

Esta busca de paz foi a que, em última análise, levou milhares de jovens ao local do evento. Havia, creio eu, uma aspiração legítima de usar a música como alavanca para mudar a sociedade beligerante em alguma mais próxima do Nirvana.

Claro que nada disso aconteceu. O Festival de Woodstock claramente não mudou nada, mas se alguma coisa de positivo sobrou foi a troca da rebeldia roqueira pela busca da natureza.

De lá para cá, mudou o quê?

Infelizmente, o tempo passou, a sociedade política americana continuou procurando motivação bélica em outras guerras, e continua assim até hoje. O movimento hippie e seus congêneres morreram, aparentemente porque as pessoas mudam de vida com a idade, notadamente na chegada da idade mais avançada.

Na prática, significa que jovens daquela época podem e devem ter passado a uma vida mais sedentária e mais pausada, tornando-se, de certa forma, pessoas de comportamento conservador, digamos assim.

O que mais me impressiona, entretanto, é a manutenção do discurso de “patriotismo”, extensamente endossada na mídia (imprensa, seriados de TV, filmes, etc.), todas as vezes que os norte-americanos resolvem se envolver em conflitos com outros países.

Se olharmos com cuidado o que está acontecendo por lá neste particular, a impressão que passa é que todo aquele discurso de “paz e amor” pulverizou-se com o passar do tempo!

O filme como documentário

Woodstock é um filme esteticamente inovador, francamente calcado no documentarismo francês da Nouvelle Vague. A imagem multiplano e o sincronismo da trilha sonora funcionam muito bem. O som ficou ainda melhor na sua versão em 5.1 canais, aliás, pretendida na época pelos cineastas.

Musicalmente, é um produto para os fãs do gênero. Eu me arriscaria a dizer que se torna monótono e maçante para aqueles que não apreciam este tipo de música.

Neste sentido, fica evidente que 3 horas de duração é um tanto exagerado para um filme deste tipo, mas certamente cativante para quem se interessa pelo assunto.

Talvez o maior mérito de “Woodstock” tenha sido o registro daquele momento. Nota-se que não se escondeu nada do que aconteceu de errado, muito menos o consumo exagerado de tóxicos e as suas consequências para a organização do festival. Os cineastas procuraram mostrar que a intimidação pela presença de membros da sociedade hippie nunca passou de um folclore criado pela sociedade conservadora.

50 anos depois, parece que este documentário foi o que sobrou de uma geração que aspirou muito, mas não conseguiu nada. Tentou-se agora fazer um “revival” de 50 anos, mas o projeto parou no meio do caminho.

É uma pena, mas a sociedade evolui em saltos, nunca se sabe o que pode acontecer amanhã. A sociedade atual, aqui neste país, e em outros lugares, é muito mais violenta, corrupta e injusta. Cabe à sociedade mudar tudo isso, mas sem motivação não se vai mudar nada!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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