As falhas notórias das super caras placas-mãe de hoje

Comprar peças de computador é uma aventura. Não sabemos se a garantia será honrada, se o suporte vai resolver e se vamos escapar dos defeitos de projeto.

 

Foi mais ou menos pelo meio da década de 1990 que eu tive a ideia de montar eu mesmo o meu computador pessoal, na plataforma IBM.

É hoje um fato histórico que, ao decidir partir para a fabricação do chamado IBM-PC ou simplesmente “PC”, a IBM não teve alternativa a não ser recorrer a peças (componentes) disponíveis no mercado. Inicialmente esses microcomputadores trabalharam com software proprietário, o que os tornava únicos no mercado, mas este foi oportunamente alvo de engenharia reversa, feita pelos concorrentes.

Por causa disso, ficou bem mais fácil “clonar” um computador desta plataforma, e eventualmente a própria IBM resolveu abrir a arquitetura completamente, ao contrário da Apple, que a manteve fechada, e o faz até hoje, para evitar clones.

Esta abertura foi um avanço para o usuário hobbyista, mas careceu da concorrência entre os fabricantes de peças, sem o quê os preços de componentes não iriam cair tão cedo. Isto foi particularmente verdadeiro para módulos de memória e coprocessadores aritméticos. Um microcomputador IBM-PC dotado, digamos, de 256 KB de RAM, custava uma pequena fortuna, impagável por aqui com o bolso de nós mortais.

No Rio de Janeiro, e imagino que em outros recantos do país, o preço de componentes caiu bastante por culpa da importação clandestina de peças. Lá no centro da cidade, o edifício Avenida Central perdeu as suas características de pequeno comércio, para se tornar o local onde a venda clandestina de peças imperava, com lojas, quiosques (stands) e galerias. Eu cansei de ver vendedores com sacolas pretas, cheia de peças, vendendo tudo em dólar para os donos dos stands, na frente de todo mundo.

Quando o dólar balançava acontecia uma quebradeira ocasional de lojas ou stands. Independente disso, o importador legítimo começou a perder receita, eventualmente fechando as portas. Eu frequentei um deles, que um dia se queixou comigo de que os módulos de memória “importabandeados” do Paraguai eram de péssima qualidade, prejudicando o comércio e seus consumidores, e vendidos a preço vil na praça!

No início, só para quem sabia o que estava fazendo

O comércio de peças era frequentado por pessoas que iriam montar máquinas para vender ou pelos entusiastas que enxergavam nos computadores uma ferramenta plural das mais versáteis.

A história da evolução dos computadores nos mostra que foi no meio acadêmico que esta tecnologia saiu dos laboratórios universitários para as empresas. O que inicialmente era pretendido apenas para aliviar cálculos, o computador se tornou uma máquina capaz de muitas outras tarefas, como idealizou o matemático inglês Alan Turing, pai filosófico e teórico da inteligência artificial.

Era de esperar que no ambiente acadêmico a aceitação do uso de microcomputadores nos laboratórios fosse imediata, mas não foi bem isso que aconteceu. Eu testemunhei a adesão de poucos professores, muitos dos quais desistiam no meio do caminho.

Naqueles tempos muita gente dos setores de compra de computadores ou peças da UFRJ não entendia nada desse assunto ou se achava no direito de só comprar o que quisessem.

Como tudo avança, houve um momento em que os programas passaram a ser distribuídos em mídia ótica, geralmente em um CD-ROM, e com isso a instalação dos drives deste tipo nos computadores pessoais passou a ser uma necessidade.

No nosso laboratório, por exemplo, localizado no HUCFF, nós só tínhamos micros com floppy drives. Eu pedi ao diretor do Hospital a compra de um drive para CD-ROM. O diretor encaminhou o pedido a um médico, solicitando assessoria a ele, porque ele era chefe do CPD, e este recomendou no processo que o drive não fosse comprado, porque “não era apropriado para o local de trabalho”, ou algo desse tipo. Diante da negativa, eu fui falar com ele, mas não adiantou nada! O homem me diz que o drive poderia ser usado para alguém ouvir música… Ou seja, ficamos sem drive.

Eventualmente, um colega nosso conseguiu verba para comprar um computador com um drive para CD-ROM, que eu coloquei na rede local, e foi com ele que nós atualizamos todos os outros computadores que não tinham drive. Como sempre, essas coisas mudam, e com a disseminação de programas em mídia ótica, a opinião do chefe do CPD esvaziou-se por si própria.

Eu, meu irmão e vários dos nossos amigos nos esforçamos para ter independência de processamento de dados em casa, e foi assim que nós começamos a montar computadores e trocarmos a nossa experiência nisso.

As montagens eram bem mais seguras

Olhando esta época em retrospectiva eu posso afirmar que era muito mais fácil escolher componentes, montar tudo e ficar tranquilo que nada iria dar errado! E notem que a garantia dos fabricantes não existia! Nós inventamos na época uma anedota que demonstrava a atitude das revendas: “la garantia soy yo”. E os caras honravam de verdade, se a peça viesse com defeito ninguém se opunha à troca. Alguns mandavam testar, outros ameaçavam criar caso, mas no final se rendiam às evidências e trocavam s peça com problema ou às vezes até devolviam o dinheiro. E notem que o Procon ainda não existia.

A grande ironia do suporte das empresas com representação no país

Com o florescer deste tipo de comércio várias empresas de fora instalaram as suas representações diante do mercado consumidor, o que poderia ser uma garantia de comércio legítimo para o usuário final.

Mas, algumas mudanças aconteceram: uma delas foi o aumento imediato do preço no varejo e a outra foi a política de troca de peças avulsas. E neste particular se viu de cara dois tipos de atitude: a primeira, que foi a receptividade empática da chamado RMA (Return Merchandise Authorization), onde o produto volta à fábrica e se constatado o problema ele é automaticamente trocado.

A segunda, infelizmente, foi observar que honrar a garantia neste país tem meandros obscuros. Enquanto alguns representantes dos fabricantes trocam sem questionar, outros colocam a culpa do defeito nas costas do consumidor, e isso acontece até os dias de hoje. Muitos não apresentam rede de assistência ou oficina técnica autorizada para o consumidor, ficando este a ver navios.

Até onde eu tenho conhecimento, qualquer produto adquirido no comércio tem que ter a garantia honrada por quem de direito, mas isso não é respeitado em um número enorme de casos, enchendo os órgãos de defesa do consumidor de processos.

A qualidade das placas de hoje é uma incógnita

Para piorar tudo isso, o que se nota é que quando se compra um componente dois questionamentos entram em jogo: um deles se refere à qualidade do projeto e do controle de qualidade na fábrica, e o outro é não saber de antemão se o consumidor vai ter a garantia honrada pela revenda ou pelo fabricante, quando a compra é feita no Brasil.

Nos últimos anos eu consegui perder nada menos do que três placas-mãe, uma placa de vídeo, e dois discos rígidos. Só que para a placa de vídeo a RMA foi feito diretamente na América e lá a situação muda radicalmente. A placa foi trocada por outra, apesar de adquirida aqui, por conta de um erro de projeto que o fabricante admitiu publicamente! E para os drives o representante brasileiro (Kingston) honrou a garantia sem questionar nada.

Não tive a mesma sorte com as placas-mãe, todas, por coincidência, da Asus. A garantia dessas placas desde o início é reduzida pelo representante no Brasil da Asus de 5 anos para 1 ano, e isso somente se a distribuição tiver sido feita por empresa credenciada, o que por si só representa um retrocesso, nos lembrando que o mesmo já foi feito por fabricantes brasileiros de uma marca de algum produto comprado no exterior, quer dizer, o usuário viajava, comprava um equipamento muito mais barato lá fora, mas quando chegava aqui ele perdia a garantia, inclusive com a recusa de manutenção pelo representante brasileiro!

Sobre este aspecto, nada disso mudou. Se o leitor prestar atenção verá que proliferam agora um monte de oficinas, várias delas com canal no YouTube, que se propõem a consertar equipamentos para os quais o representante brasileiro virou as costas para o consumidor, pouco importa (e isso é muito grave) se a peça comprada no comércio local custou uma fortuna.

Se isso não bastasse, a fragilidade de certos componentes é estarrecedora. Eu constatei isso aqui em casa, quando atualizei o firmware (bios) de uma placa-mãe, vendo ela parar de dar partida, para só depois constatar que aquele firmware tinha sido retirado do site da Asus e substituído por outro. Entretanto, a Asus norte-americana deu solução a quem passou por isso.

Se eu tivesse uma representação honesta da empresa neste país, seria o caso de me informarem se e como eu poderia me recuperar de algo para o qual a culpa é do fabricante e não minha. Ao invés disso, me indicaram oficinas de terceiros. Pode isso? Parece até aquele velho ditado inglês “You broke, you fix it” (“Você quebrou, você conserta”). Não há um pingo de solidariedade por parte do representante, a coisa toda fica nas palavras que demonstram a escusa de se não se envolverem com o problema.

Em outro caso, a Asus brasileira decidiu aceitar a remessa de uma placa novinha, que havia parado de funcionar. Quando ela voltou, sem conserto, eu li um relatório dizendo que existiam pontos de oxidação na placa, que impediam o seu funcionamento, e citam como suposta causa a exposição da placa a ambiente úmido, ou seja, a culpa foi minha e a garantia perdida:

 

 

Nem eu havia notado aquilo. A placa saiu de um gabinete e passou para outro, quando então parou de funcionar. Eu retirei todos os componentes e instalei outra placa, idêntica, mostrando assim que a placa nova estava com defeito. Escrevi uma carta para os técnicos, que aparentemente nem foi lida. A perda, neste caso, foi total, nem a revenda se mexeu para resolver isso!

A empresa credenciada pela Asus para inspecionar a minha placa-mãe bem que poderia entrar em contato (eu deixei telefones e e-mail), me questionar sobre aqueles pontos de oxidação, mas isso nunca foi feito. Empurraram o abacaxi para mim, e por aí se nota que as oficinas paralelas são a única saída, quando possível, para tirar o usuário do sufoco, e com um custo do conserto sem previsão alguma.

Eu tenho ouvido de amigos que eles não querem mais se envolver com montagem, e eu digo a eles que eu me sinto anacrônico, por insistir neste tipo de empreendimento.

O progresso da informática estimularia a nós que ainda montamos correr atrás de aperfeiçoamento de performance e de sistemas operacionais condizentes. Quando eu ouço um amigo dizer para mim “chega!”, eu entendo perfeitamente.  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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