Fotografia de José Medeiros / Acervo IMS

Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim

Tom Jobim já foi assunto muito explorado na mídia, mas alguns aspectos da sua personalidade que eu tenha percebido nunca foram comentados. Análise alguma irá revelar a genialidade dele ou de qualquer outro compositor do mesmo quilate.

 

Tanta coisa já se escreveu sobre Tom Jobim que eu nunca pensei em adicionar algo de útil ao que já foi dito. Mas, nunca se sabe, resolvi arriscar. E antes que alguém me diga à moda antiga “mas que petulância…”, eu vou logo esclarecendo que, primeiro, não teria a pretensão de ser um exegeta musical competente a ponto de dizer alguma coisa que outros não saibam, e segundo, que qualquer um tem o direito de expressar aquilo que sente, a respeito de qualquer assunto, tá certo?

Eu por acaso tenho um grande amigo, filho de família ligada à música, audiófilo, desenhista competente de circuitos de áudio e muitas outras virtudes, que frequentou a casa do Tom nos seus bons tempos, conhecia Os Cariocas, e os viu ensaiar as faixas do álbum antológico “A Grande Bossa Dos Cariocas”, gravado na Philips pelo Sylvio Rabello. Com esse amigo, eu conheci muito da vida e do jeito de ser do Tom.

Pois ultimamente tem aparecido na minha lista de “recomendações” do YouTube uma lista enorme de pessoas que se propõem a ensinar a tocar músicas do Tom e/ou fazer uma análise de teoria musical, tentando elucidar o que o nosso Tom estava maquinando quando escreveu suas músicas.

Eu vi incontáveis entrevistas do Tom (algumas eu as tenho em DVDs), que evidenciam que o maestro se deixava entrevistar, mas NUNCA respondia as perguntas inconvenientes que lhe eram feitas.

Nisso ele se junta a um grupo super seleto, que inclui John Ford, Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick. Eu acho que até já citei, mas não custa repetir, que quando John Ford foi entrevistado por jornalistas cinéfilos na Europa, os caras perguntaram como ele chegara a Hollywood, e ele respondeu na lata “de trem”.

Kubrick se negava sistematicamente a comentar sobre o final de seus filmes. Para “2001”, quando questionado, ele dizia que cada pessoa do público tinha liberdade de tirar suas conclusões, do jeito que achasse melhor.

Já o nosso Tom, eu o vi ser inquirido se ele podia ter imaginado ter feito tanto sucesso no exterior, e ele, com a maior calma, diz ao entrevistar algo desse tipo: “não, a gente fazia música para as garotas do bairro…”

Em sucessivas entrevistas para a TV Tom Jobim, quando questionado sobre algo que não queria responder, dava uma volta enorme, mudava sutilmente de assunto, e deixava quem lhe entrevistava atordoado, sem saber se devia cobrar a resposta de volta.

E com razão: a criação musical (ou de qualquer obra, como cinema, literatura, etc.) vem espontaneamente à mente do seu criador, aposto que nem ele sabia explicar como e por que.

Porque o que importa não é isso, mas sim a capacidade inata do artista de expressar a sua arte e o seu sentimento de forma genial, de tal forma que a sua obra fica na cabeça das pessoas por anos a fio, possivelmente para o resto da vida.

Ora, quando Tom e Vinícius fizeram a antológica Garota de Ipanema, o que mais nos importou foi a beleza da melodia, acompanhando os versos românticos e contemplativos de Vinicius de Moraes. A filha do poeta disse em tempos recentes que a música era deprimente, porque mencionava “solidão”, mas eu, com todo o respeito, discordo profundamente. E o que importa, afinal, a opinião das pessoas, se o que se quer de volta ao ouvir a música é a emoção e a sensibilidade daquele momento.

Garota de Ipanema, sem dúvida, é uma daquelas músicas que permanece na cabeça das pessoas, algumas delas que tentam descobrir as entranhas da sua arquitetura melódica. Veja o exemplo a seguir, postado no YouTube:

 

 

Depois de uma longa análise teórica de Garota de Ipanema o rapaz se confessa sem convicção se a análise inicial poderia estar correta. Como exercício teórico pode até ser muito bom, talvez apropriado para estudantes de música. Para o fã e até para o ouvinte ocasional, a análise não tem a mesma relevância. Eu assisti ao vídeo todo, e, apesar do esforço honesto do analista, achei engraçada essa busca da teoria inspiratória dos compositores, que me arrisco a dizer ser bem provável de nunca ter passado por ambas as cabeças quando a música tomou corpo.

Outra música do Tom frequentemente analisada, ou tentada ensinar para quem tiver interesse é “Wave”. E para que tentar obsessivamente descobrir os segredos da construção de uma obra prima, se nós podemos simplesmente ouvi-la e nos deixar impressionar por ela?

O lendário Henry Mancini disse em entrevista que Wave sobe e desce, parece que não funciona, mas, no entanto, é uma das composições mais lindas que ele ouviu. Isso vindo de um maestro e de criador de composições de trilhas igualmente lendárias, feitas para o cinema.

Então, é isso: se você ama a música, nota o que ela te acrescenta, mexe no teu sentimento, a teoria, mesmo que bem vinda, pode perfeitamente ser deixada somente para quem estuda música.

Novamente, eu me arrisco a dizer que mecânica alguma fará o estudante de música capturar o espírito musical do artista. E Tom, como ninguém de sua época, soube escrever música de maneira tão brilhante, misturando tristeza, sentimento, lirismo, poesia, encantamento, fascinação e contemplação em uma única composição.

Seus pares na América, músicos, compositores, cantores, arranjadores, perceberam isso na hora em que ele chegou lá. Quando Tom esteve em Nova York ele foi abordado por vários deles. Eu tinha um vídeo que infelizmente perdi, mas que está felizmente preservado no YouTube, que mostra o encontro entre o Tom e o igualmente brilhante músico, compositor e arranjador Gerry Mulligan:

 

 

O que este clipe mostra é que, indo para o final, Gerry Mulligan diz que o fraseado de “Samba De Uma Nota Só” é difícil, mas logo depois Tom diz a Mulligan que o Jazz é difícil de tocar, enquanto este, sorrindo, reage e agradece por ele Tom ter dito isso, porque obviamente a recíproca era a verdadeira!

Isso é verdade, porque a batida sincopada da Bossa Nova foi difícil de ser assimilada pelos músicos americanos. Gerry Mulligan diz isso naquele vídeo. Mas, depois de certo tempo, a batida lenta da Bossa Nova se tornou um ícone de lirismo e romance, em composições que frequentemente vazaram para as trilhas de cinema (e o fazem até hoje) inseridas no background de cenas românticas ou lúdicas.

Ao longo do tempo, atribuiu-se a “inspiração” do Tom a compositores eruditos. Os americanos, inclusive Clare Fischer, citam Chopin. Aqui, aquele meu amigo me citou Debussy, e outros citam até Ravel.

Quanto a mim, não citaria ninguém, porque acho que isso seria diminuir a genialidade do Tom como compositor. Ademais, qualquer artista pode perfeitamente sofrer a influência de seus antecessores, sem jamais perder o próprio brilho.

Nos dias de hoje, o que me resta como homem da terceira idade é sentir de novo a emoção do início da Bossa Nova, a inspiração musical que ela me deu, e de ter depois a felicidade de ver todos os grandes músicos de Jazz moderno assimilar o espírito criador e se inspirarem nele para continuar um movimento musical que nunca de fato se propôs a ser meramente comercial, mas sim a contrapartida da atmosfera do Rio de Janeiro daquela época, que fez muita gente feliz só por estar vivendo ali!  Outrolado_

 

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Resguardando “Chovendo na Roseira”

 

O que mudou na terra onde nasci

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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