John Wick Parabellum… o cinema está doente!

O personagem John Wick leva facadas, tiros à queima roupa, é atropelado, cai de um prédio, mas continua vivo, matando dezenas de inimigos. Em certo ponto, se junta a outros, matando mais ainda. Que tipo de cinema é este?

 

Eu assisti aos dois primeiros filmes da franquia John Wick, estrelada por Keanu Reeves e Ian McShane, entre outros. Por pura intuição, não fui ao cinema, assisti tudo no serviço de streaming. O primeiro filme é apenas razoável, pelo menos tem enredo, o segundo terrível, mas se isso não bastasse os cineastas resolveram lançar no ano passado “John Wick: Capítulo 3 – Parabellum”, uma verdadeira catástrofe. O filme me foi oferecido como parte do serviço Amazon Prime e eu resolvi ver do que se tratava.

O real significado do título críptico “Parabellum” é explicado lá pelo fim do filme. Trata-se de um provérbio latino, que diz que “se você quer paz, prepare-se para a guerra”. Parabellum, segundo o dicionário se refere ao belicismo, que é exatamente o que predomina neste filme.

Ora, o cinema como tal, da maneira como eu conheci e estudei ainda adolescente, é composto rotineiramente de um roteiro, no qual estão incluídos a estória, a trama e os diálogos. Escreve-se às vezes um tratamento, fazendo um resumo como estas peças se encaixam. Cineastas muitas vezes rodam o filme sem roteiro, apenas seguindo uma ideia, mas todos aqueles elementos estão lá. Admite-se que em filmes experimentais alguma coisa possa ser modificada, mas essencialmente a retórica ou linguagem do cinema é a mesma, contando com a força da imagem para a visualização de uma experiência.

É difícil justificar tanta violência!

Se a pessoa que assiste um filme desses é adepta de vídeo games violentos ela vai estar em casa, totalmente confortável, com a ultra violência e a matança generalizada que é mostrada na tela.

Entretanto, quando roteiristas (no caso, um monte deles!) simplesmente ignoram a necessidade da inserção de uma trama para explicar o desenvolvimento da estória, o filme como um todo perde o sentido. Ele se resume à matança indiscriminada do inimigo, sem qualquer tipo de justificativa convincente. Nas cenas em que Keanu Reeves se reúne com Halle Berry, chega-se ao extremo de atirar e matar qualquer um que entre na cena, dezenas assassinados com tiros na cabeça, explodindo sangue na tela.

Falhas gritantes de script

John Wick é invencível, mas isso é uma das premissas deste tipo de herói. Só que neste filme o personagem é esfaqueado, atropelado e recebe tiros à queima roupa, sem colete à prova de bala, mas a seguir ele se levanta, incólume, e continua atirando e matando quem estiver no seu caminho. Como é que pode? No final do filme, ele ainda cai de um andar superior, assume-se que tenha morrido pela queda, mas não, afinal é uma franquia, se o personagem morre ela acaba, e isso não pode acontecer.

É óbvio que se o espectador tiver tido a chance antes de ver como rodam os games para computador (o YouTube está cheio deles), ele imediatamente notará que as cenas e enquadramentos são similares, a única diferença sendo que é John Wick quem atira e não o jogador.

Na minha visão de antigo e, modéstia à parte, experimentado espectador de cinema, a introdução de um vídeo game na narrativa do filme está errada, ela não tem nada de inovadora nem experimental. Mas, faz parte do mercantilismo a que se vendeu Hollywood desde tempos imemoriais, e que agora impera mais do que nunca. O que muda é a ausência de estória ou trama, o roteiro se resume ao número de personagens que morrem em cena.

Em Parabellum só tem mesmo é guerra, daí justificando o título. Como cinema o filme é medíocre. E não sou só eu que o vejo assim, quem se der ao trabalho de ler os comentários críticos do IMDb vai perceber que a revolta é geral.

Sinceramente, eu já vi tanta coisa absurda nos cinemas, que achava pouco provável alguém produzir filmes piores. Não importa se a premissa de filmes de ação inclui matança de personagens. Há uma frieza perturbadora no conceito de vida de morte, e neste particular o cinema presta um desserviço às plateias, somente para ganhar mais receita ainda.

O assassinato em massa na tela em um filme deste tipo não tem pé nem cabeça. Os efeitos especiais em Parabellum são de uma crueldade gráfica que o cinema não deveria ter o direito de mostrar, porque não há nada, absolutamente nada, que justifique a coisa gráfica na compreensão da estória, ou seja, os cineastas mostram porque querem chocar. Se fosse para chocar como antiviolência, até poderia ser correto, mas jamais para vender a grafia da imagem colocando a violência como necessária!

Depois de assistir este tal Capítulo 3, eu cheguei à inevitável conclusão de que o cinema está doente. Dentre as críticas do IMDb acima citadas, teve gente que deu notas de 8 a 10, enquanto outros questionam a sanidade dessas notas. Nos argumentos a favor eu não consegui ler nenhum comentário que mostrasse méritos efetivos do filme.

Mas, é a tal estória: há gosto para tudo! E todos nós, mesmo discordantes, temos que aceitar (ou aturar, se quiserem) diferenças de opiniões.

Em sociedades como a nossa, onde se vê todo dia organizações criminosas no noticiário matando a esmo quem lhes contraria, achacando cidadãos de bem para impor proteção, e coisas do gênero, assistir John Wick não vai, lhes garanto, fazer a catarse de ninguém! Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

Um comentário sobre “John Wick Parabellum… o cinema está doente!

  1. O fato de tomar tiros e não morrer se deve ao fato de estar utilizando um “terno com blindagem”, se não me falha à memória essa vestimenta tátil foi apresentada no segundo filme.

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