Apreciação da versão 4K de Jurassic Park (1993)

A edição em 4K de Jurassic Park (1993) é espetacular, corrige problemas de imagem nas edições anteriores e melhora ainda mais a excelente trilha sonora original do filme.

 

O Digibook com a trilogia de Jurassic Park, mais o filme seguinte Jurassic World, chegou às minhas mãos alguns dias atrás e eu me virei para arrumar tempo para assistir o primeiro Jurassic Park, de 1993, escrito por Michael Crichton, biólogo tornado roteirista, infelizmente já falecido.

Como já comentei anteriormente, havia uma promessa da Universal de retomar a transferência de película para vídeo, de modo a corrigir artefatos na imagem que perduraram até a versão em Blu-Ray.

O foco (ou a falta de, na verdade) foi a ausência de detalhamento em muitas cenas, aliadas à má resolução da imagem, dando a aparência de fotografia “flou” (sem foco). Ora, tal tipo de imagem pode até ser usada com criatividade em capturas fotográficas, mas no caso de um filme 35 mm plano, com lentes esféricas, raramente tem sentido, e na realidade esta técnica nunca foi vista na cópia de cinema. Pior ainda, se considerarmos hoje que a produção recorreu ao VistaVision para os efeitos especiais.

A boa notícia é que a nova cópia em 4K é impecável, todos aqueles artefatos de resolução desapareceram, pelo menos na minha percepção. Só isso justificaria a aquisição da nova cópia para quem é fã do filme, mas um trunfo ainda maior surgiu na reprodução da nova trilha sonora em DTS:X, que é simplesmente espetacular. Nota-se que a reedição não se limitou a transcrever a trilha original com alguns melhoramentos, mas sim realizar uma completa remixagem para o ambiente 3D.

Em várias das cenas nas edições anteriores, com ótimo som, diga-se de passagem, a nova remixagem da trilha original recolocou os efeitos sonoplásticos de maneira totalmente imersiva, dando a sensação de que o espectador está dentro do ambiente. Para se chegar a este ponto foi fácil observar que os sons foram reposicionados de acordo com as novas normas deste tipo de codec, quando qualquer som é tratado como “objeto”, que se desloca em um espaço XYZ tridimensional.

Observa-se na nova trilha 3D que todo o espaço de distribuição de som foi aproveitado, seja nas caixas laterais, nas traseiras e nas frontais. O espaço 3D coloca o som espacialmente, acima das caixas de baixo, neste caso com grande eficiência.

A melhoria tridimensional para mim não foi novidade. Eu já a havia observado na reedição UHD do filme Godzilla, de 1998, apenas que com trilha Dolby Atmos. A propósito, eu vejo pela Internet que alguns exegetas deste tipo de mídia consideram o Dolby Atmos melhor do que o DTS:X, em vários aspectos de reprodução. Se isto é verdade, eu sou então um felizardo, porque nunca tive a chance de observar esta alegada diferença. Para mim, os dois codecs soam muito bem.

 

 

Eu até este momento não cheguei a terminar de assistir todos os filmes, parei em “The Lost World”, segundo filme da franquia, na nova edição igualmente bem acabado e com excelente trilha em DTS:X, que segue os padrões do que foi feito no filme anterior.

Sobre Jurassic Park de 1993

É muito comum cinéfilos descobrirem algo novo ao rever um filme. Em Jurassic Park existem sutilezas no roteiro difíceis de perceber. Uma delas se refere ao diálogo entre John Hammond e o advogado Donald Gennaro, a quem, ele, em um determinado momento, chama de “sanguessuga”. No diálogo, Gennaro ameaça Hammond em cortar o investimento, casos os investidores, a quem ele representa, não ficarem satisfeitos com o relatório a ser feito por ele, Gennaro.

Esta cena me lembra a estória contada pelos colaboradores mais próximos de Walt Disney, que relatam que Disney ficava enfurecido quando investidores de seus filmes entravam em reuniões com opiniões negativas de cada projeto, e pedia àqueles do estúdio com que ele tinha confiança para tirarem a gente do dinheiro das suas costas.

O que até hoje mais me impressiona em Jurassic Park é a presença do inglês Richard Attenborough, elevado à categoria de Lorde antes de falecer. Trata-se de um dos mais renomados cineastas do século passado, e ator de primeira linha.

Para mim, um dos seus melhores filmes, certamente o melhor filme de guerra que eu já vi, foi “A Bridge Too Far” (no Brasil, “Uma Ponte Longe Demais”), de 1977, no qual ele tece uma crítica ao celebrado herói da segunda guerra mundial, o Marechal de Campo inglês Bernard Montgomery, conhecido como Monty entre os íntimos. Monty havia planejado o que se chamou de Operação Market Garden, que, segundo ele, iria encurtar o fim da guerra, mas que acabou sendo um festival de trapalhadas, com efeitos contrários.

Attenborough não foi o primeiro grande cineasta a aparecer em filmes de Steven Spielberg, o primeiro foi François Truffaut, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Porque Spielberg contratou esses dois monstros sagrados do cinema eu não sei, poderia ser pela contribuição de ambos ao cinema, ou então pura vaidade ou exibicionismo. Alguém conseguiria imaginar Spielberg “dirigindo” esta gente? Eu não!

Tradicionalmente, os filmes de Steven Spielberg costumam se servir de intensa manipulação por parte do cineasta, e Jurassic Park não é exceção. Luzes expressionistas em abundância fazem parte de cenas ridículas, por exemplo, quando a menina Lex não consegue apagar uma lanterna, e se isso não bastasse, ainda joga o foco de luz na cara do T. Rex.

Em clima de suspense manipulado, o roteiro faz o feroz Velociraptor ser capaz de abrir portas, mas no final vários deles hesitarem em atacar o isolado grupo de Alan, Ellie, Lex e Tim, deixando espaço aberto para o ataque nos flancos pelo T. Rex, que ninguém sabe como chegou ali.

Apesar de falhas deste tipo no roteiro, o filme é divertido, tem uma base sólida na crítica à engenharia genética, e mostra algumas cenas com inteligência moralista de bom nível. Uma delas, quando Lex ativa o sistema do parque, salvando o grupo e recuperando recursos desabilitados pelo ambicioso Dennis Nedry.

Eu tive a chance de usar este exemplo em sala de aula, com os alunos dentro do laboratório. Muitas vezes o aprendizado de técnicas é maçante e o aluno pode até achar inútil. Dizia a eles que muitas vezes a gente passa por apertos aparentemente incontornáveis, e o que nos salva é o conhecimento, neste caso, de Lex, que conhecia uma plataforma Unix. Sem isso, o grupo não teria se salvado!

Mas, se existe algo deste filme que eu jamais iria dar como exemplo a quem quer que fosse é fumar na frente dos computadores, coisa que o personagem Arnold faz incessantemente. Lá pelo início da década de 1990 já se sabia que a fumaça dos cigarros polui o hardware e principalmente a mídia magnética usada nos desktops, podendo torna-la ilegível e ainda danificar as cabeças de leitura.

Acho que os cineastas poderiam parar a franquia por aí, mas a cobiça de ganhar mais dinheiro com a mesma ideia ronda Hollywood o tempo todo. O filme seguinte é moralista mas repetitivo, o terceiro bastante sem sentido, com relação às premissas do filme original.

O resto, produzido exclusivamente para aumentar a arrecadação, se serve de efeitos que naquela época de 1993 não eram possíveis. Só isso!  Outrolado_

 

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A trilogia de Jurassic Park em 4K, HDR, DTS:X

 

A minha primeira experiência em uma sala de cinema com Dolby Atmos

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Apreciação da versão 4K de Jurassic Park (1993)

  1. Olá Paulo, sou tbém colecionador de filmes e com aquisição do Bluray 4K, tenho adquirido filmes em 4K via Mercado Livre ou eBay, sendo que no eBay mesmo em dólares ainda é mais barato. Porém a maior dificuldade é identificar se o filme tem legendas em português, pois no eBay as ofertas são do mundo inteiro e não só do mercado americano. Você tem alguma dica, de como poderia identificar se no filme existe a legenda em português. Abraço

  2. Paulo, na Apple TV+ temos ofertas de venda e aluguel de filmes em 4K e com som atmos e alguns com valores justo. Como colecionador hoje seria mais fácil adquirir via App, porém como vc vê as diferenças de qualidades entre os discos de Bluray 4K e os arquivos do App. Será que a mídia em disco irá sobreviver ? Gostaria de saber sua opinião, principalmente com relação aos avanços tecnológicos que devem acontecer em relação aos serviços de streaming. Abraço

    • Julio, a sobrevivência da mídia está ligada à do colecionador e sempre foi assim com qualquer mídia. Infelizmente, este é um segmento a caminho da extinção, e portanto não se pode culpar inteiramente os serviços de streaming por isso.

      A coleção de filmes é intrinsecamente uma coisa cultural. O fã de cinema quer ter o filme em casa, para poder ter acesso a ele quando desejar. Durante muitos anos era impensável que isso fosse possível, mas aconteceu que os acervos dos estúdios estavam se deteriorando e foi através dos processos de restauração que eles foram recuperados. A fabricação de mídias se tornou uma maneira de escoar filmes de catálogo.

      O consumidor não hobbyista consome filmes sem interesse na coleção, e é para esse que o mercado se volta. Lembro a você que o Netflix começou como locadora, viu o mercado acabar e se transformou em streaming.

      Por outro lado, eu já vi e li sobre a morte anunciada não só de mídia de filmes mas de uma dezena de formatos, como, por exemplo, jornal impresso, por causa da Internet, e no entanto estas mortes ainda não se confirmaram.

      O mercado de filmes em vídeo fora do Brasil, como nos Estados Unidos, Europa e Japão, principalmente, continua crescendo, apesar das crises financeiras. Aqui a situação financeira é mais crítica do que nunca, o que explica o desaparecimento sistemático da mídia de disco.

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