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O coronavírus no Brasil visto da Espanha

Enquanto no Brasil o debate hoje está entre salvar a economia ou as pessoas, nossa amiga prossegue o  confinamento em Barcelona em seu décimo dia.

 

Confinamento: dia 10

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Tenho o péssimo hábito de acordar e olhar o celular. Nestes dias insólitos, apago o despertador e vou direto aos grupos de amigos do Whatsapp. Normalmente tem piadas, memes, conversa fora. Hoje, não. Hoje caiu o cu da bunda, como dizem aí no Brasa. Hoje vi as reações ao pronunciamento de Bolsonaro. Meu coração apertou.

Meus poucos amigos apoiadores “disso” se calaram. Eles, aliás, andam muito quietos nas últimas semanas. O máximo que fazem é tentar contemporizar a emergência sanitária, mas não se atrevem a dizer que tudo não passa de uma “bobagem”. São mais de 47 mil contagiados na Espanha e já temos mais mortos que na China, com 3.434. Profissionais de saúde estão adoecendo também (12% dos contágios). Se dissessem que é uma “gripezinha”, eu mandaria uma voadora imaginária.

Hoje é quarta-feira e estamos a pleno vapor na firma. Temos muito a fazer, não estamos de férias. Mas não consigo deixar de pensar no que li ontem dos empresários brazucas e no que vi hoje do pronunciamento do excelentíssimo. Deixa no chinelo todas as minhas preocupações daqui que, em comparação, são poucas porque somos privilegiados. Nós, que podemos continuar trabalhando de casa, com saúde, somos PRIVILEGIADOS. O que não nos exime da responsabilidade de proteger e ajudar quem não está na mesma situação.

Desde que comecei a escrever estas crônicas do confinamento, meus amigos no Brasil foram se conscientizando. Estão com medo, medo pelos seus idosos e medo de precisar ir ao hospital por algum outro motivo e não poderem ser atendidos. Sim, porque a pandemia é mais mortal ainda por colapsar sistemas de saúde. O da Espanha é um bom sistema público e universal, e estão correndo contra o relógio para otimizá-lo ao máximo.

O colapso virá em abril, caso não façam alguma coisa (e estão fazendo, como por exemplo unir-se ao sistema privado, que agora está à disposição do serviço público). Já o SUS, por melhor que seja no conceito, não aguenta nem a demanda atual, que dirá milhares de pacientes com insuficiência respiratória grave do dia pra noite!

Ontem uma amiga do Rio me contava que por lá estão bem — isolados e pagando os salários dos seus colaboradores para que eles fiquem em casa. Sim, para que fiquem em casa, em segurança. É lógico na história contemporânea que em tempos de guerra, catástrofe ou crise extrema, quem pode mais, contribui mais para a mitigação dos danos e a volta à normalidade. O capital precisa de consumo, mas primeiro precisa de gente viva e funcionando ao máximo das suas faculdades.

Estamos falando do básico mas que ameaça a nossa forma de co-existir e nossa forma de vida que progrediu muitíssimo nos últimos séculos: uma emergência sanitária internacional que está colocando à prova nossa humanidade.

Nosso senso de humanidade não pode ser tratado como commodity. O que o excelentíssimo está propondo é assassinar o que nos faz humanos. Para mim, isso descaba para genocídio. Simples assim.

Então, na falta de líderes sensatos e empáticos com o sofrimento dos que pagam seus salários e mordomias, desobedeçam. Sim, DESOBEDEÇAM. É irônico que o mais prudente a fazer agora é desobedecer, mas é assim mesmo. Qualquer outra reação não tem o menor sentido.

O que vem pela frente é um caos sanitário. Começa com a incapacidade (ou falta de vontade) do governo brasileiro de saber exatamente quantos contágios há e quantas mortes estão ocorrendo. Eu deixei de acreditar no número oficial de mortes daí. Aqui qualquer pessoa que entre na internação com sintomas severos de insuficiência respiratória ou pneumonia já vira paciente de COVID-19. O óbito é corretamente registrado, mas no Brasil NÃO.

Então não me surpreende a estupefação do gerente da funerária de Minas com o número altíssimo de mortes por insuficiência respiratória ou pneumonia em um fim de semana, algo que ele nunca tinha visto antes, em 30 anos de negócio. Leio os jornais de cabo a rabo e estou vendo todos os dias notícias de óbitos com os síntomas típicos de Corona que não estão entrando nas estatísticas.

Outra guerra vem aí: a da narrativa. Quantas pessoas terão morrido segundo o excelentíssimo e quantas pessoas realmente terão partido por conta dessa insanidade?

Não esperem pra ver.

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Patu Antunes é brasileira residente em Barcelona, responsável de desenvolvimento de negócio para startups no Sul da Europa. No tempo livre, viaja e escreve para Trip Trip Now (https://triptripnow.com).

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