Sobre a perda de um rande amigo

A perda de um grande amigo

Eu soube da morte de um grande amigo meu por ter estranhado a ausência semanal de contato, indo ao prédio onde ele morava. Ao longo do tempo perdi amizades que fiz tendo com todos afeição pela música e pelo áudio. Essas perdas são irreparáveis e difíceis de a gente se reconciliar com elas!

 

Se existe uma coisa chata que acontece quando a gente envelhece é tomar conhecimento que um amigo ou parente a quem se estava ligado tinham falecido. Porque são anos de convivência, e dependendo da amizade, de uma ligação muito forte, indo pelo ralo abaixo. E são notícias que machucam, magoam, sem que se possa fazer nada!

Pois nesta semana que passou que eu decidi ir ao prédio de um desses amigos, um dos poucos, aliás, que ligava para mim toda semana, e vice-versa, e que parou de me ligar e não ligou mais, o que eu achei estranho. Chegando lá, o porteiro de plantão não o conhecia, mas eu deixei os meus contatos para que um deles pudesse me dar notícias mais tarde. E quando eu recebi finalmente a ligação fui informado que ele havia falecido há algum tempo. A notícia me abalou sobremaneira.

Na década de 1980 eu estava passando pelos piores momentos na família e na carreira. Ficava alguns dias fora do ambiente acadêmico, e volta e meia ia ao centro da cidade na hora do almoço, para visitar a loja recém inaugurada da Gramophone, filial da Gávea.

Foi lá que eu conheci muita gente, porque no subsolo da loja, o dono havia construído um ambiente onde os clientes iam procurar CDs, venda pioneira deles, ou Laserdiscs, muitos com óperas completas, tudo isso caríssimo para um cara como eu, que vivia de orçamento apertado. Mas as conversas eram prolixas, e em uma delas se aproximou de mim o Carlos Fernando de Carvalho Blanco, diretor do DNPM, e começou a falar sobre áudio. Subsequentemente, eu fui convidado para ir à casa dele, onde eu entrei com enorme cerimônia, Lá ele me mostrou parte do equipamento, e tocou o lendário Lp “Antiphone Blues”, da Proprius, reproduzido por um par de caixas Dhalquist, que ele havia modificado. O som me encantou na hora, e eu percebi que este meu novo conhecido tinha um ouvido privilegiado, além de farto conhecimento de eletrônica e música.

 

 

Lá na Gramophone ele fez também amizade com outras pessoas, todas interessadas em música, e acabou que formamos um grupo que se tornou amigo em curto espaço de tempo!

Com o tempo, essas amizades se solidificaram. A partir daí, a rotina de sexta-feira era sempre a mesma: o Fernando me chamava para chegar 18 horas em ponto na casa dele (era uma brincadeira que acabou virando anedota), e aí ele me mostrava as novidades, tanto de eletrônica quanto de música. Ele fazia projetos o tempo todo, portanto não faltavam novidades. Lá pelas 9 da noite, nós íamos para a casa de um amigo em Copacabana, e lá ficávamos até às tantas ouvindo música, com videodiscos diversos. E no final da noite, o meu amigo, que era noctívago, me convidava para jantar na orla. Naquela época, a violência era escassa. Os garçons, com seus restaurantes abertos por toda a madrugada, pouco se importavam se a gente ficava horas ocupando a mesa, e foi assim que eu ouvi projetos incontáveis de pré-amplificadores e amplificadores de potência. Eu sempre tive 20 centavos de conhecimento de eletrônica de áudio, mas era bom ouvinte!

Durante anos a fio, este foi o único amigo com quem eu podia ficar horas ao telefone conversando sobre áudio. Uma vez eu disse a ele que havia notado que ele tinha um ouvido muito exato no que tange à audição de música, que foi, aliás, o principal motivo pelo qual ele podia construir ou modificar caixas acústicas de grande qualidade.

Foram tantos os projetos, sobre os quais eu ouvi e depois eu ouvi funcionando, que eu perdi a conta. Houve época em que o meu amigo ficou obcecado com subwoofers, construiu um no teto de um apartamento que ele tinha em outro lugar, que era bem mais amplo, e depois fez um projeto sobre infrawoofers, com amplificador e crossover dedicado.

O Fernando me levou para a casa de vários audiófilos, e fazia questão, de vez em quando, de me provar que se tratava de uma comunidade de esnobes de carteirinha. Na casa de um deles, eu só entrei depois que o meu amigo informou que eu era um professor universitário!

Ele foi o primeiro aqui do Rio que importou imediatamente um CD player Sony CDP-101, que havia acabado de ser lançado no América. Eu só tinha conseguido ouvir este aparelho, porque eu tinha uma amizade na Rádio JB, que o trouxe para um programa de clássicos. Depois, o meu amigo me contou que levou o aparelho com os discos nas casas de vários audiófilos, a maioria torcendo o nariz para a novidade.

Mas, quando eu o conheci, eu já andava estudando os princípios de áudio digital e, portanto, comigo esta discriminação não existia, pelo contrário.

A minha ausência do país por quatro anos provocou um hiato nesta convivência, com repercussões negativas posteriores. Mas, a amizade foi reatada, sem aquela rotina das sextas-feiras que havia antes.

Na realidade, ele ficou, alguns anos depois, adoentado, portador de Parkinson, que é uma doença cerebral irreversível e sem cura, e as visitas cada vez mais raras. A última delas foi recente, quando eu precisei arrumar alguém com um toca-discos para resgatar um Lp raro. No clipe de vídeo incluído no texto é possível ver uma foto que eu tirei de um Sota Sapphire, que ele usou para transcrever o elepê. O meu amigo nunca abandonou o elepê, embora ele tivesse uma vastíssima coleção de CD, SACD, DVD-Audio, e recentemente Blu-Ray só de áudio, que ele gostava muito.

Eu e ele às vezes parecíamos almas gêmeas neste particular, com o gosto pela eletrônica e pelo áudio. Muitos daqueles projetos foram vendidos e/ou instalados para pessoas do conhecimento dele.

Na década de 1980 ainda, eu estava morando sozinho e pagando pensão, quando nós dois fomos ao Veiga, loja tradicional de equipamentos de áudio. Chegando lá o Pedrinho, gerente do Veiga, me avista e me diz que tinha uma coisa para mim: era uma oferta de um console MSX, que a Gradiente havia oferecido promocionalmente em 10 vezes sem juros.

Quando então, o Fernando Blanco me chama às falas lá fora, me dizendo que, estando sem grana, eu ia gastar dinheiro à toa, ia encostar aquilo rápido. Mas, eu havia feito curso de programação no NCE no ano anterior, sem poder estudar por fora, e insisti na compra. Na semana seguinte, ele comprou não só um, mas dois MSX, um para a mulher dele. E eu percebi o grau de confiança depositado no que eu falava a ele naquele momento. Os programas vinham em fita cassete, a maioria pirateados, mas funcionam bem.

Várias pessoas ao nosso redor compraram um MSX. Quando saiu o primeiro drive de 5 ¼”, caro p’rá chuchu, eu disse a eles que iria comprar um, na verdade eu só precisava de um. E aí todo mundo perguntou porque, e depois correu atrás.

A ligação do Fernando Blanco, por parte de mãe, que foi cantora do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com a música erudita, não o impediu de gostar de Jazz e Bossa Nova. Através de conhecidos, ele presenciou Os Cariocas quando estes ensaiavam para gravar o álbum A Grande Bossa dos Cariocas, cuja edição em CD, descoberta por mim, eu e ele importamos do Japão.

O Fernando, ele também era muito amigo da turma do Quarteto 004, com quem cantava de vez em quando. A última vez que ele me pediu uma ajuda foi para remasterizar o disco original retirado do elepê do grupo, porque as fitas do estúdio desapareceram. O disco, com o título “Retrato Em Branco e Preto”, foi originalmente gravado pelo selo Ritmos e nunca tinha tido edição em CD, que então saiu pelo selo Discobertas. Infelizmente, eu nunca recebi uma cópia deste trabalho, somente tenho as faixas guardadas no meu computador.

Mas, em contrapartida, ele um dia me chamou para conhecer o lendário compositor da Bossa Nova Durval Ferreira, que morava no mesmo prédio dele, na Rua São Salvador. Fomos ao show do Durval, eu conheci o Bebeto, do Tamba Trio, com quem o Durval teve uma longa associação.

Depois, foi gravado seu o último disco, chamado “Batida Diferente”, para o qual o pessoal, todos ainda vivos, do Quarteto 004, foi convidado para uma última sessão de estúdio. O Durval havia composto, em tempos remotos, uma música chamada “São Salvador”, em homenagem à rua onde Fernando e ele moravam. Alguns anos atrás, o Durval ficou doente e faleceu. Uma cópia da master deste disco está guardada comigo até hoje, com muito carinho.

Estes tempos e esta memória me deixam hoje muito triste e deprimido. Nosso grupo se dissolveu anos atrás, quando dois desses amigos já haviam morrido, um deles ainda jovem. E eu fui um dos poucos que ficou para trás, me lembrando a toda hora que essas perdas são irreparáveis, e menos um motivo para continuar vivo!

Os grupos que gostam mesmo de música sempre foram isolados e/ou nichos de castas sociais, para evitar discriminação. Quando lá em Cardiff o meu filho mais novo, no início da adolescência, se apaixonou por Beethoven e ganhou guarida de uma professora de música, eu imediatamente disse a ele que tomasse cuidado quando nós voltássemos ao Brasil, porque aqui, infelizmente, a massa não toma conhecimento de música erudita e é pessimamente influenciada pela mídia.  Outrolado_

 

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A superioridade do vinil e outras idiossincrasias do áudio

 

A torre da Capitol Records

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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