Coronavirus na Espanha

Encontros virtuais e a pergunta que não quer calar

Coronavírus: a economia também é uma grande preocupação na Espanha. Há um plano de socorro, mas quem cair no abismo não vai recuperar o nível de ganhos com a ajuda do governo. Vai perder e ponto.

 

Estamos todos em um experimento social. Não sou mais tão mística como já fui, mas o isolamento que aceitamos de bom (ou mau) grado está levando a mudanças interessantes, algumas sutis, na mente e no espírito.

No fim de semana, finalmente me encontrei com os amigos aqui de Barcelona — virtualmente, claro. Fizemos a versão digital do que em uma primavera normal seria um “vermut de domingo”.

Iríamos a uma taverna ao meio-dia, tomaríamos vermuts ou outras bebidas leves e comeríamos umas tapas, os aperitivos típicos daqui.

Depois continuaríamos em outro lugar, talvez de almoço ou ainda de tapas. Depois, o café. Quem sabe, uma sobremesa. E nisso já seriam seis da tarde.

Passaríamos a tarde toda tagarelando sobre as novidades da vida de cada um. Já não nos vemos com a frequência de antes, então é preciso horas e horas para abastecer-nos da vida interior e exterior dos amigos.

No domingo nos vimos pela telinha, com nossos drinks e petiscos. Cantamos parabéns pro Xavi, que fazia aniversário na clausura. Tivemos que estabelecer uma “ordem do dia” para que todos pudessem atualizar a audiência sobre a sua vida, senão seriam ruídos e chiados demais na conexão. Assim passamos algumas horas. Atualizamos o muro ao vivo, no nosso “vermut digital”.

Gostei da experiência e gostei de gostar dela. Fiquei aliviada de saber que todo mundo está bem, ainda que seja por enquanto. No fim de semana a novidade na arena pública é que um novo decreto do governo espanhol restringe ainda mais o confinamento.

Consequência: mais estrangulamento na economia. É claro que alguns de nós podem sofrer as consequências diretas dessa nova medida.

Sim, a economia também é uma grande preocupação aqui. Há um plano de socorro, mas quem cair no abismo não vai recuperar o nível de ganhos com a ajuda do governo. Vai perder e ponto.

Freelancers aqui pagam uma cota fixa à Previdência Social (a mais reduzida está nos 300€, hoje mais de R$ 1.500, ao mês). Não importa se faturam zero ou se faturam 10.000, eles pagam esses mesmos 300€ todo mês.

Para as empresas, há um plano de alívio de impostos e taxas, e etc. Mas há o fato de que os negócios vão parando mesmo. Estão falando em recessão na Europa e isso não é nada legal. Já vivi uma aqui e é como voltar 15 casas no tabuleiro da vida. A cabeça vira uma bagunça. Mesmo que você tenha alguma ajuda como o seguro-desemprego (que no mááááximo paga 1.100€ euros durante alguns meses), de repente é preciso colocar os sonhos em pause. Você passa a funcionar em modo sobrevivência. Não é legal.

No entanto, o fantasma do caos econômico não pode vencer a sensatez de tentar se proteger. Hoje começamos o dia com dados oficiais de 85.195 contagiados e 7.340 mortos. Dados oficiais insuficientes. Como eu disse na crônica anterior, os dados estão incompletos — os de contágios, calculam que poderia estar em uns 500 mil. Mas tivemos a boa notícia de que da quarta ao domingo passados, o número de mortes registrado a cada dia começou a diminuir. Em 96 horas, diminuíram 25,4%.

A grande m****a dessa pandemia, além dos milhões de afetados diretamente, é o colapso nos sistemas de saúde. Aqui, “colapso no sistema de saúde” é algo fora da caixa. Ninguém entende como é possível viver em sociedade sem bons hospitais, médicos e investigação científica a serviço de quem paga impostos (e de quem não paga também, pois o sistema é universal).

Nunca vi “colapso” como já vi muitas vezes no Brasil. E o que estamos vendo agora é a porta do colapso. Na Catalunha, onde eu moro, as UTIs estão a 84% da capacidade. Já há hospitais funcionando com mais de 100% do que deveriam. Uma amiga trabalha em um deles e estavam, no sábado, a 140% da capacidade.

Quando acaba tudo isso?

Aqui o confinamento oficial seria de duas semanas e agora vai até 11 de abril. Mas, na real, isso não vai acabar tão cedo. Na nossa empresa temos entendido que chegaremos até o fim de abril, pelo menos, trabalhando remoto. E depois, como orienta a OMS, a volta à vida normal tem que ser paulatina e ainda de forma muito controlada. Resumindo: acho que faremos vida normal, o que significa pegar um avião de novo, em agosto. Cenário otimista.

Mas me pergunto: vamos querer voltar à “vida normal”?

Tenho me dado conta que o confinamento me deixa ligeiramente arisca. No sábado fui à farmácia e ontem ao supermercado. Instintivamente, já desenhava uma rota para evitar qualquer humano no horizonte. Lá vinha uma moça passeando o cachorro e eu já traçava as linhas dos meus passos, bem longe dela.

Também passei a reparar se as pessoas parecem mais saudáveis ou mais doentes, mais tranquilas ou mais tensas. Estamos tendo tão pouca informação de interações ao vivo, que detalhes dos outros agora interessam.

Estamos virando bichos estranhos e ao mesmo tempo aceitando novos paradigmas, mesmo que cheguem com um pé na porta.

Há algumas semanas, alguém fotografou um senhor já idoso andando pelas ruas com a máscara de mergulho da Decathlon. Começava a faltar máscaras de proteção nas farmácias. Rimos e pensamos: que exagero! LOL.

Ontem vimos que Decathlon doou essas mesmas máscaras para que alguns hospitais as transformassem em máscaras de respiração para os doentes críticos. Nada como uns dias e um viruzinho para fazer a gente abrir a cabeça e aceitar. Agora só se trata disso: aceitar.

Se quiserem ter a experiência de olhar outro ser humano, em silêncio, sem julgamentos, sem comunicação verbal, por 1 minuto, vejam esse projeto:

https://www.human.online/

Cuidem-se muito!

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Patu Antunes é brasileira residente em Barcelona, responsável de desenvolvimento de negócio para startups no Sul da Europa. No tempo livre, viaja e escreve para Trip Trip Now (https://triptripnow.com).

Um comentário sobre “Encontros virtuais e a pergunta que não quer calar

  1. Pois é, Patu, é uma situação madrasta! Eu fico aborrecido só de saber que profissionais de vários segmentos já entraram na fase do desespero, sem capacidade para resolver uma situação econômica catastrófica, e sem ter nas ditas “autoridades” um mínimo de sensibilidade para propor uma saída que preste.

    A situação pontual é a seguinte, segundo os jornais: 5834 casos confirmados, 201 com êxito letal. Se as minhas contas estiverem corretas (eu sou péssimo em matemática), a taxa de mortalidade é de 3.44%. Como o Brasil, segundo estatísticas, tem 209,3 milhões de habitantes, a repercussão geral da pandemia é insignificante.

    Mas, como se trata de uma infecção silenciosa, manda a prudência esperar o platô da infecção, para só então se ter uma ideia se a doença vai progredir ou não, e se os tratamentos vão funcionar corretamente. Quanto à vacina, que seria o ideal, a gente pode esquecer, porque normalmente os vírus mutam muito rapidamente, haja visto a situação de AIDS e infecções similares.

    Aqui começaram a vacinação contra gripe, notadamente H1-N1, se não me engano, e os exegetas dizem que é para “separar o joio do trigo”, acredite se quiser, quer dizer se o vacinado ficar doente, é mais provável que seja outro vírus.

    Do lado acadêmico, no qual deveria haver um respaldo significativo, eu vejo na mídia ex-alunos(as) e ex-colegas, falando horrores, como supostamente grandes autoridades. Como, se a epidemia só apareceu agora?

    Mas, deixa para lá, porque são os administradores públicos, com a conivência da mídia, que estão espalhando a paranoia popular e o alarmismo irresponsável. Nada disso vai ajudar a conter a pandemia! Pelo contrário, a proibição de circular assustando as pessoas nada tem de construtivo.

    A meu juízo, somente o tempo, aqui no Brasil, é que vai esclarecer qual o melhor caminho a ser tomado. Até lá, os comentários e pitacos são mera especulação e achismo.

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