Inakustic, referência em som de alta qualidade

Os discos da Inakustic fizeram parte da nossa vida de audiófilo, pós aparecimento do CD, e tomados por vários anos como referência de reprodução de áudio de qualidade. A empresa ainda sobrevive com o mesmo espírito, malgrado o virtual abandono do interesse pela reprodução de música sem restrições de qualidade.

 

Inakustic ou mais especificamente “In-Akustic”, é uma empresa alemã, sobrevivente dos modismos e da alegada ausência de interesse pelo áudio, cujo passado fez parte da minha vida e a de outros amigos, “in-teressados” por som de alta qualidade.

O selo de Jazz da companhia, com o nome de Inak, ficou conhecido da gente que frequentava a loja Gramophone na década de 1980. Aquele meu amigo Fernando Blanco, recentemente falecido, foi um dos que viu e rapidamente adquiriu dois lançamentos em CDs de alta resolução: The Dice Of Dixie Crew – 1st throw, e Second Sight, com este mesmo grupo.

 

 

Notem que naquela época a chegada de CDs, a preço de ouro no varejo, vinha da América em quantidades limitadas. Uma vez dentro da loja, quem podia comprava rápido, porque a experiência nos mostrava que alguns estoques raramente eram repostos.

Eu só consegui cópias desses discos importando na década de 1990, via Internet, de um estoque de discos raros da CD Connection. Ainda assim, cada um desses discos me custou o preço inflacionado de 35 dólares. Hoje em dia é possível comprar estoque usado, no caso de Second Sight eu já vi custando próximo de 70 dólares.

Durante anos eu usei os discos da Inak para fins comparativos diversos. Só para dar um exemplo, um deles foi fazer testes com fitas cassetes supostamente de alta qualidade. O meu deck da época era um Philips da série 900, com ajuste de bias feita por um computador de bordo. Não adiantava nada, porque os transientes do disco saturavam sem dó nem piedade a melhor daquelas fitas.

Mudança de hábitos auditivos

É curioso como o áudio nos prega peças. Na década de 1980, esses dois discos serviram de referência para a audição cuidadosa de caixas acústicas e amplificadores. A reprodução correta de um material demandante exige um sistema de amplificação com slew rate baixo. Na prática, significa ter na saída do amplificador uma velocidade capaz de acompanhar a reprodução precisa de transientes.

Se o amplificador não for suficientemente veloz, o som tende a ficar sem foco e sem detalhes. Aliás, durante anos eu percebi que muita gente criticava o Compact Disc, mas ao mesmo tempo nunca se incomodavam de atualizar o equipamento de amplificação.

Uma simples leitura da contracapa dos CDs mostra que, para obter som mais preciso, a Inakustic lançou mão de ambiente super seco (nenhuma reverberação local), e método de mixagem “ao vivo”, isto é, o engenheiro de gravação faz o balanço dos instrumentos colocando os músicos em uma posição fixa no estúdio e depois calibra o nível (amplitude) de cada microfone, antes da gravação ser feita. Os microfones são escolhidos a dedo, com diafragma previamente calibrado em laboratório. A partir daí a Inak pode se atrever a colocar no selo o disco rotulado como “edição de referência”.

Os créditos, mostrados na figura a seguir, menciona a data de gravação (22/12/1980) e o local da prensagem (Sanyo, no Japão). Até hoje não sei exatamente por que a master fora feita lá fora, já que foi na Alemanha onde se realizaram as primeiras estamparias de CDs.

 

O grupo ainda gravou outro disco, com o título “Sideways”, e com o nome trocado para Dice of Dixieland, mas o impacto não foi o mesmo.

Hoje em dia, eu toco qualquer um desses discos e o som, antes uma referência, já não me agrada tanto. Bem verdade que o impacto de saturação ainda impressiona, mas o meu A/V receiver Denon, que é moderno e sofisticado, tira isso de letra!

Em épocas remotas, somente amplificadores esotéricos tinham a capacidade de resolver sons dessa intensidade. Idem para as caixas acústicas, que sempre foram o chamado “elo fraco” da cadeia de reprodução.

Evolução dos codecs

Um dos principais motivos pelos quais a referência de muitas gravações do passado foi perdida foi o aparecimento de codecs de áudio e métodos de masterização mais avançados. E se alguém prestar atenção, irá perceber que a Inakustic não ficou para trás.

A adoção do Dolby Atmos, com o uso de um estúdio dedicado a este fim, e posterior lançamento de discos Blu-Ray, torna evidente o avanço da empresa.

Versões novas em CD (eu infelizmente não ouvi ainda nenhuma delas) são conseguidas com uma masterização de alta definição, chamada de RESO (Reference Sound Mastering), contrato a um estúdio terceirizado.

Os discos são classificados como HQCD (High Quality CD) e UHQ-CD (Ultra High Quality CD), nada muito diferente do que fazem outros selos, como, por exemplo, o selo FIM, sendo que no caso deste último a diferença de qualidade (XRCD 24, etc.) se refere à masterização de 20 e 24 bits. Talvez seja a mesma coisa nos discos da Inakustic.

Observa-se que a masterização de 20 ou 24 bits pode ser reduzida a 16 bits com manutenção da resolução. A qualidade final do áudio obtido depende radicalmente dos circuitos DAC (Digital to Analog Converter), que operam hoje em 32 bits.

Embora a mídia rotativa seja de tempos para cá desprezada por muitos, é bom saber que empresas como a Inakustic continuam fieis a seus seguidores. Outrolado_

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Fitas magnéticas estereofônicas de 2 pistas

 

À procura do som de alta fidelidade

A torre da Capitol Records

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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