Os eventuais efeitos de uma pandemia

Basta uma pandemia com vetor de transmissão aéreo para expor o descaso no tratamento de estrutura da saúde pública e dos grupos de pesquisa — e não sabemos por enquanto quais são as consequências e soluções a longo prazo.

 

Quem mora aqui no Rio sofreu um abuso jornalístico na divulgação de notícias sobre a água suja da Cedae, empresa que outrora fornecia a água mais limpa deste país. Todo dia, ao abrir o noticiário da TV, lá vinham notícias catastróficas sobre a situação da água. Mas, por incrível que pareça, isso passou, não sem antes disparar uma histeria do público na busca de água mineral em algum mercado.

Como dizia um professor do ginásio, a História se repete, sai água suja e entra o Corona Virus. A pandemia, desprezada por alguns, é mundial, e como o Rio de Janeiro é a capital do turismo, a infecção foi rapidamente alastrada.

 

 

Dizem alguns que a pandemia começou no carnaval, época em que parte da população carioca fica ensandecida e ávida de promiscuidade. Navios e aviões chegam abarrotados de turistas, portanto se portadores infectados houve, a pandemia era inevitável.

Os místicos diriam que a pandemia seria uma obra do diabo, mas eu pergunto, será mesmo?

Por acaso não se sabia que a saúde desta cidade nunca foi tratada a sério por governo algum? Querer culpar o diabo por uma obra que é do homem é no mínimo achar um bode expiatório para justificar um monte de omissões sem levar a culpa.

Infelizmente, um dia a bomba estoura, e é sempre na mão de quem não tem nada com isso. O Rio de Janeiro, ao longo das décadas, se tornou uma cidade poluída por um número incontável de favelas, hoje denominadas “comunidades”, desmatando encostas, cujo efeito imediato foi o aumento da temperatura ambiente e a diminuição da circulação natural do ar. Na realidade, este tipo de poluição começou quando a especulação imobiliária derrubou casas e construiu prédios de mais de dez andares, e nada se pode fazer a respeito.

A “gripezinha” que está matando muita gente

Somente um desavisado ou ignorante poderia ter a audácia de classificar uma pandemia provocada por um vírus cujo vetor de transmissão é aéreo como uma “gripezinha”. Antes fosse, porque nós não veríamos pessoas infectadas chegarem ao êxito letal. E pior: especialistas correram para a mídia sem ter nada de concreto para falar sobre a pandemia. Especulação à parte, o fato é que incontestavelmente qualquer doença cujo agente etiológico é transmitido pelo ar não pode ser encarada de forma displicente. Cuidados precisam ser tomados, para conter a pandemia. Mas, como, se pouco ou quase nada se sabe a respeito do vírus ou do seu enfrentamento?

É óbvio que, independente de qualquer outra informação a respeito, a saída com mais efeito é, em princípio, vacinar a população, mas o desenvolvimento de uma vacina é cercado de incertezas, haja vista a tentativa de se desenvolver uma vacina contra a AIDS, que nunca chegou a termo!

Ensaios clínicos, em situação emergencial, são imponderáveis. Isso porque somente com a qualificação estatística adequada é que se pode garantir que um dado tratamento é eficaz ou não. Sem isso, resultados clínicos podem ser desconsiderados ou até, se for o caso, descartados como eficazes.

A estatística é a única ferramenta capaz de dar credibilidade a um trabalho científico e são raras as vezes que as evidências experimentais dispensam o seu uso!

Sem dados convincentes, não há tratamento estatístico que resista, e se for assim qualquer trabalho de observação clínica acaba se tornando um esforço inútil e descartável.

Nas publicações de resultados existe uma clara diferença entre sugestão e afirmação. Nunca se deve afirmar, a não ser que existam fortes evidências de que o postulado nas conclusões do trabalho dispensem investigações posteriores, o que rarissimamente é o caso. Então, manda o bom senso que o pesquisador e seus colaboradores sugiram que os resultados apresentados são confiáveis, independente do nível de significância estatístico obtido.

Finalmente, não se faz pesquisa com resultados a curto prazo. A grossa maioria dos trabalhos leva anos, às vezes décadas, para se tornar alguma coisa palpável.

O uso de máscara é ilusório

Em uma pandemia cujo vetor de transmissão é o ar ambiental, é possível se imaginar que basta o cidadão usar uma máscara de pano e está tudo resolvido. Mas, não é bem assim. Máscaras podem não impedir a inalação do ar ambiente contaminado sem o devido filtro instalado. É desta forma que se faz quando se enfrenta um ambiente potencialmente perigoso em recinto hospitalar.

Permitir que o profissional de saúde trabalhe sem proteção é algo criminoso, porque esta é a última linha de defesa contra qualquer pandemia. E dizer para todo mundo que basta usar uma máscara de pano para circular na rua é leviano, porque ninguém consegue saber a priori se o ambiente onde se passa está infectado ou não.

O “lockdown” é burro e igualmente pernicioso!

A mídia prefere chamar “confinamento” de “lockdown”. Ok, mas convenhamos, que benefício tal medida irá trazer? A prática tem mostrado que cidades onde o confinamento foi imposto o nível de infecção não diminuiu.

Eu já comentei sobre o perigo de estressar as pessoas e as conduzir a doenças cuja solução pode não estar prontamente disponível. Por isso, eu me arrisco a dizer que o isolamento social é potencialmente tão perigoso quanto a pandemia propriamente dita!

Países que enfrentaram a pandemia antes da gente perceberam que o isolamento não deve ser adotado, e passaram a consideram como “aglomeração” grupos de mais de dez pessoas. De fato, as aglomerações com a participação de pessoas a nós estranhas devem ser evitadas, mas em locais como supermercados, por exemplo, algumas medidas podem e devem ser tomadas para minimizar este tipo de problema.

As ditas autoridades não se entendem

É lamentável ver a disparidade de medidas nas autoridades deste país. E o que acho mais drástico é que a maioria delas não se detém corretamente em solucionar uma consequência grave da pandemia: falta de renda! Sem ela não é possível sobreviver, e no desespero as pessoas irão recorrer à soluções pessoais, correndo o risco de serem repreendidas pelas autoridades.

Aqueles que representam o poder público deveriam vir a público admitindo a completa ausência de estrutura hospitalar, ao invés de ficar tentando tapar o sol com a peneira.

E, infelizmente, mais uma vez, constata-se que os oportunistas de plantão e corruptos de carteirinha se valem da situação para ganhar fortunas por fora, seja vendendo equipamentos com defeito, inadequados ou simplesmente que só existem no papel.

Brigas ou disputas políticas em momento algum ajudam no enfrentamento de uma pandemia com vetor aéreo, pelo contrário. E aqui se vê que a autoridade máxima desse país não hesitou em fritar ministros, quando se viu contrariado em decisões tomadas à revelia dos mesmos. E essa fritura pode perfeitamente tirar a sua credibilidade como governante ou retira-lo do poder, fazendo o país cair em uma crise política que em nada ajuda a vencer a pandemia. Idem para o ministro da economia, um sujeito sem caráter ou escrúpulo, que tenta aproveitar o momento para atacar, inclusive salarialmente, os servidores públicos!

Nós ainda vamos ver os desdobramentos disso tudo. A prática nos mostra que é muito mais fácil destruir do que construir. A atual pandemia veio para expor as fragilidades dos modelos econômicos salvadores da pátria, com o dólar disparando e sem controle, e da ausência completa de seriedade com a academia (universidades públicas e centros de pesquisa) e com a saúde pública.

É uma pena que se esteja vendo isso, sem ninguém poder fazer nada. Eu sou um que espero que a gente não se afunde ainda mais, porque me preocupa, como a todos que eu conheço, ver gente sem chance de sobrevivência financeira ou de saúde. Mas, se algum bem se poderia retirar disso, espero que seja a população ver os erros cometidos, e fazer o possível para que eles nunca mais ocorram!  Outrolado_

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A propósito da falta de hospitais, no meio de uma crise de saúde

 

Uma sociedade desmassificada e distribuída é possível?

 

A catarse do escapismo

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

8 comentários sobre “Os eventuais efeitos de uma pandemia

  1. Olá Paulo é um enorme prazer voltar a participar da sua coluna após ter sido coadjuvante do filme Twister e entrado dentro do olho do furacão… É Paulo sua matéria veio bem a calhar. Contrai o Sars-Covid-19 dia 22 de abril e somente hoje dia 16 de maio estou totalmente restabelecido. Esse “ser desprovido” de qualquer capacidade de governança, e totalmente incompetente para gerir essa crise que o nosso pais atravessa, está levando milhares de brasileiros literalmente para a “sepultura”. Presidentes de todo mundo, os Ministros Mandeta e Teich, Governadores, Prefeitos, todos são despreparados e não sabem lidar com a pandemia; quem sabe e conhece tudo dessa pandemia é o nosso “capitão” Misericórdia… O que será dos mais desprovidos, que não dispõe de um bom convenio médico ou de postos de saúde bem aparelhados, e com corpo clinico disponível para dar suporte a todos que ficarem doentes. Só consigo enxergar um cenário a frente… Estamos diante do abismo e colapso total do sistema de saúde do Pais, graças a um único responsável, o Sr. Presidente ! Um abração.

    • Olá, Rogerio,

      Parabéns pela sua recuperação, mas proteja-se assim mesmo!

      Eu acabei de apagar acidentalmente um comentário longo, mas vamos ver se eu o coloco de volta.

      Ontem, aparece a notícia do pedido de demissão do Teichi. Dias antes, o presidente decreta medidas contra o isolamento dizendo ter tido o apoio do Ministério da Saúde, e neste momento ficou claro que isso nunca aconteceu. Para mim, o ministro deve ter achado por bem sair fora antes que algo pior aconteça. Por mais despreparado que fosse, Teichi não teria a coragem de aprovar o tratamento com cloroquina, porque os dados a respeito são incipientes e a droga já mostrou efeitos colaterais indesejados e perigosos.

      Outra coisa é a máscara. Um amigo cientista ponderou ontem comigo que o Corona virus precisa de um suporte para viajar pelo ar, e neste caso seriam as gotículas de saliva de alguém infectado. Se isso é verdade, a pergunta é: o tecido usado pelas máscaras é suficiente para impedir que esta transmissão pelo ar aconteça. E se é, não seria o caso de permitir as pessoas de transitar livremente, uma vez usando a máscara?

      Qual é o tamanho real deste vírus? Uma máscara de um único pano seria suficiente para bloqueá-lo? Porque então, segundo este meu amigo, países estão adotando máscaras com múltiplos panos?

      É preciso, a meu ver, acabar com o amadorismo, em qualquer nível. Eu acho perigoso o nível de desemprego e ausência de percepção salarial em qualquer nível, mas é preciso achar maneiras de fazer retornar todas as pessoas ao trabalho, garantindo que elas não se infectem, enquanto a pandemia durar.

      • Parabéns pelo artigo.
        Hoje não dão nem chance para o contraditório… A mídia é tão forte que qualquer um que questione o isolamento torna-se criminoso, mal visto e mal falado.
        Lembrando que nos EUA 2/3 da população que contraiu a doença a adquiriu em casa…
        Sem falar no aumento de nada mais que 700% de mortes súbitas em casa por infarto em nova Iorque… Redução de 70% dos atendimentos cardiológicos de urgência….
        Será que o vírus “cura” o infarto? Certamente não.

  2. Bom Dia Paulo. Teu comentário é muito bem redigido mas com contradições,como o isolamento social. No mais centraliza o problema no Brasil quando ele é pior em muitos outros países. Finalmente ataca os políticos, em parte com razão, mas sem dar o devido desconto a confusão entre a esquerda e direita que estão em uma guerra com a mídia do lado da primeira. Mesmo que o presidente e seus ministros fossem bons,é extremamente difícil e quase impossível governar direito dessa forma. Chamar um ministro de isso ou aquilo,sinceramente…não é a hora. Finalmente, Paulo,é um artigo bem pessimista. Depressivo até. Nem uma frase boa,sequer uma notícia feliz. Não Paulo,você é excelente tecnicamente.Mas nesse caso,me pareceu a CNN. Cita alguns fatos básicos,mas de resto nos entristece. Lamentável. No mais um abraço.

  3. Paulo, concordo plenamente com seu texto. Sabe qual é o mal maior? Aqui, nesta praça de 90 mil pessoas, um percentual grande insiste em andar pelas ruas e não há lockdown que dê resultado. Poucos acreditam na letalidade do vírus e a vida segue.

    • Oi, Celso,

      Resguarde-se!!!

      Nós precisamos de resguardo também contra as ditas autoridades, que, de forma criminosa, resolvem endossar a cloroquina no tratameno da Covid. E isso é mais uma demonstração do desprezo dos sucessivos administradores públicos pela academia e as pesquisas realizadas dentro dela.

      E, neste caso, os médicos que se cuidem, e não se deixem levar pelas intimidações políticas, porque, em última análise, o médico é o principal responsável pela vida do paciente. Existe um código de ética ao qual se deve lançar mão o tempo todo. Essa coisa de mandar o paciente declarar por escrito estar ciente dos riscos é uma forma inútil de transferir responsabilidades.

      Existe uma necessidade, reconhecida mundialmente, de salvaguardar vidas e a economia, principalmente da população de baixa renda. Na prática, significa liberar o comércio e as profissões autônomas, mas de forma ponderada e segura!

      Eu não preciso ter bola de cristal para perceber que a falta de rendimento irá empurrar os governadores e prefeitos a liberar atividades além das essenciais, e isto pode e deve ser feito com a tomada de medidas de segurança.

      Por fim, as notícias na TV revelam que, apesar da pandemia, pessoas se aproveitam da fragilidade alheia. Uma delas, é a do roubo de pertences de pacientes internados, simplesmente inacreditável. Uma outra é a contibuidade da roubalheira na área de equipamentos, compras forjadas, dinheiro gasto sem licitação, etc.

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