Cinemas com filmes em 70 mm

Cinemas de rua com 70 mm

Com os filmes em 70 mm, as salas exibidoras brasileiras atingiram o ápice do cinema de espetáculo, que marcou uma época bastante significativa até o fechamento das salas de exibição.

 

Na segunda parte do assunto “cinemas de rua”, abordado na coluna anterior, quero aproveitar para fazer uma menção super especial à presença do formato 70 mm, tendo como referência os cinemas que freqüentei, desde a minha adolescência.

A referência não é desprovida de razão: com os filmes em 70 mm, as salas exibidoras brasileiras atingiram o ápice do cinema de espetáculo, e que marcou uma época bastante significativa, até o derradeiro fechamento das salas de exibição. Neste artigo eu pretendo contar como isso foi possível, quais os recursos necessários e como o formato e os próprios cinemas entraram em declínio.

Antes do 70 mm se estabelecer no gosto popular

No final da década de 1920, a Fox fez um esforço para implementar o 70 mm como formato de produção, num sistema chamado de “Grandeur”. Rodou “Fox Grandeur News”, em 1929 e terminou com “The Big Trail”, em 1930. Os poucos cinemas americanos que utilizaram a novidade, o fizeram com projetores Super Simplex, adaptado para 70 mm. O formato “Grandeur” não fez sucesso e teve morte prematura.

Os estúdios continuaram a rodar filmes no formato da academia, planos e sem nenhuma inovação maior à vista, até que a presença da televisão começou a incomodar.

E logo nas primeiras tentativas de combater a influência da televisão no público que ia ao cinema, apareceu, em 1952, o formato Cinerama, de três películas, projetado em uma tela com uma enorme curvatura (146º). E, logo a seguir, foi a M-G-M quem introduziu o formato “Camera 65”, com o filme “Ben-Hur”. Este formato destinava-se no início exclusivamente para filmagem, e o negativo seria então reduzido para cópias em 35 mm, para exibição, que foi, aliás, a forma como Ben-Hur foi exibido mundialmente. E, no caso, o original 65 mm seria fotografado com relação de aspecto (2.75:1), próxima ao aspecto do CinemaScope (2.55:1) de então, e transferida para 35 mm, com uma pequena perda nas laterais.

Só que, daí para frente, o 70 mm ganhou impulso como formato de produção (estoque de filme em 65 mm) e de exibição (positivo em 70 mm), nos cinemas norte-americanos.

O Cinerama chega a São Paulo

O Cinerama de três películas chegou a São Paulo, em 1959. A história foi detalhadamente contada por Antonio Ricardo Soriano, Atílio Santarelli e colaboradores, e mostrada num blog. O cinema Comodoro foi o seu lançador, e fez um imediato sucesso com a exibição do original de “Isto é Cinerama”.

 

O Cinerama de 3 películas no Brasil só iria acontecer em São Paulo, e mesmo assim, após o formato entrar em decadência, o Comodoro rapidamente substituiu e adaptou o sistema de projeção para 70 mm, mantendo, entretanto, a mesma curvatura de tela, e com o uso de cópias retificadas dos filmes para telas daquela curvatura. O mesmo processo iria, mais tarde, ser usado no cine Roxy, no Rio de Janeiro, mantendo o logotipo “Cinerama”, e anunciado com nomes do tipo “Cinerama 70” ou “Super Cinerama”.

Apesar do avanço para as telas super largas, a situação no Rio de Janeiro, é bastante diferente

O Rio de Janeiro não viu nem o formato “Grandeur” nem o Cinerama de 3 películas e nem o 70 mm da M-G-M ou de outros estúdios.

O exibidor dominante na praça do Rio era Luiz Severiano Ribeiro. A trajetória da sua empresa e a de sua família está muito bem relatada no livro “O Rei do Cinema”, escrito por Toninho Vaz, com a colaboração de pesquisa de Vinícius Chiapetta Braga.

Severiano, para o braço exibidor da empresa, fizera várias associações e parcerias com os estúdios americanos. Uma dessas parcerias, com a Fox Filmes, traria o CinemaScope para o cinema Palácio, com a primeira exibição do gênero no país do filme “O manto sagrado”. A Fox também foi depois uma das responsáveis por trazer o 70 mm para o país.

Em seguida, não só Severiano como a própria M-G-M (dona dos cines Metro) iria trazer, no formato CinemaScope, todas as produções rodadas em 70 mm, em cópias reduzidas para 35 mm.

O processo de redução é feito por equipamento chamado de “optical printer”, que basicamente consiste num projetor cuja lente (anamórfica ou plana) faz incidir a imagem do fotograma diretamente na janela de uma câmera, desenhada para este fim.

O interessante é que o optical printer já havia sido usado para converter negativos em Technirama em Technirama 70 (ou Super Technirama), portanto ele trabalha dos dois modos: reduzindo ou ampliando. E este recurso de ampliação foi o que permitiu, anos depois, o aproveitamento de muitos filmes rodados em 35 mm para exibição em 70 mm, diretamente do negativo!

Com a redução do original 65 mm para 35 mm CinemaScope, reduziu-se também o número de canais estereofônicos, de 6 para 4, todos em banda magnética (tarja magnética gravada na película, contendo cada canal de áudio). E com essas cópias, filmes que já haviam sido produzidos em formato 70 mm tiveram seu trajeto em 35 mm nas telas cariocas da época: Ben-Hur (Camera 65, nos Metro), A volta ao mundo em 80 dias (Todd-AO, no Vitória), A noviça rebelde (Todd-AO, no Palácio), ou Amor sublime amor (Super Panavision, no Madrid). Todos esses filmes reduzidos iriam ver a luz das telas novamente anos mais tarde, mas já no seu formato original. E só aí as pessoas poderiam ver a enorme diferença!

O 70 mm chega aos cinemas do Rio

Foi em 1965. Na porta do cinema Vitória, um cartaz anuncia “Em 70 mm e 6 faixas de som estereofônico”. O filme, “My Fair Lady”, foi fotografado em Super Panavision® 70:

 

Quando a música começou a tocar, naquela hoje clássica abertura com as flores, e a cortina da tela se abrindo totalmente, a platéia começa a perceber que existia algo novo no ar: é o resultado da combinação de uma imagem mais larga e mais alta, com a ajuda de cinco canais de som estereofônico na tela.

O resultado, para a platéia local, é algo em torno do espetacular, pois ninguém havia visto e ouvido algo igual até aquele momento. E o cinema Vitória foi adaptado para o chamado 70 mm plano, e neste a imagem não sofre compressão nem distorção ótica de qualquer espécie, pois o filme é previsto para ser projetado numa tela que não tem a curvatura tão acentuada, exigida para o Cinerama.

A introdução da projeção em 70 mm no Vitória só foi possível depois que Severiano comprou um par de projetores Philips DP-70, disponíveis no sul do país. Esses Philips foram depois trocados por aparelhagem Incol 70/35, abrindo com o filme “Sweet Charity”.

Na época em que o Vitória abriu, Hollywood já havia se entregue à prática de ampliar filmes rodados em 35 mm, para apresentação em 70 mm. E não tardou que este tipo de cópia chegasse ao cinema. Foi o caso, por exemplo, de Oliver! ou Dr. Jivago. E com este último, o resultado foi além do que se poderia esperar: com o som de dois címbalos, em cada extremo da tela, na música de abertura de Maurice Jarre, o impacto auditivo (e posteriormente visual) era tão grande, que mesmo que fosse avisado às pessoas se tratar de um filme em 35 mm, ninguém iria acreditar nisso!

A projeção de 35 mm no formato de 70 mm traz consigo pelo menos duas grandes vantagens: a concentração de luz, produzida na lanterna do projetor, é maior na janela onde passa o fotograma, do que na projeção convencional, e o resultado imediato é uma imagem maior, mais clara e mais nítida.

Além disso, a dinâmica e a clareza do som gravado nas seis pistas de banda magnética, é significativamente superior àquele gravado nos quatro canais estereofônicos das cópias em 35 mm, por conta do avanço de 5 perfurações de cada fotograma, ao invés de 4, como no CinemaScope. Isso sem falar que nem seria possível comparar o resultado final, com as cópias mono, na baixa fidelidade do som de banda ótica

A entrada em cena do Super Cinerama®

Com o sucesso e posterior declínio do Cinerama de três películas, Hollywood se voltou para a exibição de produções em 70 mm em uma tela de grande curvatura, e bem próxima da curvatura original do Cinerama. A vantagem, segundo seus principais proponentes (Michael Todd, por exemplo) era a de usar uma só película, porém com a mesma claridade e abrangência do campo de visão.

Michael Todd havia participado da empreitada comercial do início do Cinerama. Uma vez abandonando o sistema com três películas, ele se associou a American Optical, e esta desenvolveu um formato com o nome de Todd-AO. As produções em Todd-AO começaram bem antes do Cinerama entrar em declínio. Como resultado desta parceria, a Philips desenvolveu e demonstrou pela primeira vez, em 1954, o seu lendário Philips DP-70, o único projetor reconhecido com um Oscar®, em 1962.

Existe, e é bom que se diga, uma certa similaridade entre diversos formatos de cinematografia com o uso do negativo em 65 mm, e os nomes de Super Panavision, Super Panavision 70, Ultra Panavision, o próprio Todd-AO e mesmo o Super Technirama 70 (que originalmente é um filme em 35 mm rodado horizontalmente), podem ser convertidos para o Cinerama de 70 mm, seja ele com o nome de fantasia de “Super Cinerama” ou “Cinerama 70”.

O nome Cinerama® passou, por um período deste tempo, a ser usado como marca registrada de um processo ou da companhia que o criou, como nos mostra a captura dos créditos do filme M-G-M “Grand Prix”:

 

No Brasil, o Cinerama em 70 mm começa e termina no cinema Roxy, em Copacabana, Rio de Janeiro, em 1966. Depois, foi adaptado no Comodoro, em São Paulo, quando o cinema capitulou do Cinerama original.

Na projeção de filmes 70 mm no processo Cinerama® a cópia precisa ser retificada, para que se possa fazer ajustes de keystone, e ainda adaptar o fotograma para a curvatura e para a profundidade da tela. A relação de aspecto na projeção é de 2.70:1.

O Roxy abriu o Cinerama 70 com o filme “Uma batalha no inferno” (“Battle of the Bulge”), na realidade um filme fotografado em Ultra Panavision, usando aparelhagem Incol 70/35. Na época, dizia-se que a tela do Roxy era tão curva, que não era possível ser usada para projetar 35 mm. Orion Jardim de Faria, que montou esta tela, desmentiu esta informação em conversa comigo, mas até esta tela ser retirada, o cinema exibia todo o seu material publicitário (trailers, curtas, etc.) em 70 mm.

O que, em última análise, permitiu que o Roxy instalasse o Cinerama 70 foi a maneira como a sala foi construída, mais larga do que comprida:

 

No entanto, a instalação ideal (largura versus comprimento) para o Cinerama 70, teria sido realizada no cinema Madrid, na Tijuca. Os projetores Incol 70/35 chegaram a ser instalados e o primeiro filme, “Spartacus”, de Stanley Kubrick, com o trailer exibido e anunciado para a abertura do formato. Infelizmente, o cinema pegou fogo, justamente na área da tela, em plena madrugada, para nunca mais reabrir. Assim, ficaram no Roxy os grandes sucessos dos filmes em Cinerama 70 mm da época.

Um desses sucessos, talvez o de maior impacto, particularmente entre os estudantes, foi, sem dúvida, “2001, Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Fotografado em Super Panavision, e com efeitos especiais de Douglas Trumbull, “2001” abre com a magnífica introdução de “Assim Falou Zarathustra”, da peça de Richard Strauss, tema esse que se tornou sinônimo do filme e da abertura do mesmo.

Um novo avanço: “Dimensão 150”

As experimentações hollywoodianas com o 70 mm tiveram seguimento com a introdução do processo “Dimension 150” ou “D-150”. Apenas dois filmes foram rodados com este processo: “Patton” e “A Bíblia”, além de um curta, com o título “Harmony, nature and man”, nunca exibido, aparentemente, por aqui. Mas, Patton também nunca foi exibido em Dimensão 150 no Brasil, e sim em 70 mm plano (cópia não retificada), no cinema Palácio, centro do Rio, algum tempo depois.

 

Franklin J. Schaffner, dirigindo Patton, fotografado em Dimensão 150.

 

A presença do processo D-150 se deu quando o cine Metro-Boavista foi aberto no lugar do antigo Metro-Passeio. A tela do D-150 é muito larga e muito profunda (120º de curvatura), e a tela do Metro-Boavista tinha o enquadramento eletricamente modificado para todo tipo de bitola. As cópias em D-150 são também retificadas para a curvatura da tela, e a projeção é feita como uma lente especial, chamada de Curvulon, mantendo uma relação de aspecto de 2.70:1, a mesma do Cinerama 70. O espectador é avisado do processo, no momento da projeção: um slide inserido previamente à exibição do filme, anuncia que se trata de “A presentation in Dimension 150, a new dimension in motion pictures”.

E foi assim que o Metro-Boavista projetou uma quantidade enorme de filmes, no sistema D-150, sem jamais terem sido rodados no formato. E neste bolo se inclui cópias de filmes rodados em 35 mm, como Dr. Jivago. A projeção em Dimensão 150 tinha tudo que o Cinerama 70 tinha, porém sem tanta distorção geométrica. Ambos os sistemas, entretanto, eram bons o suficiente para entreter e chamar a atenção do público.

Espalhamento do filme 70 mm plano nos cinemas cariocas

Muitas capitais do Brasil tiveram provavelmente sua cota de cinemas 70 mm, como Rio de Janeiro e São Paulo. Mas, infelizmente, eu não sou aquele capaz de historiar isso. Para compensar, eu freqüentei praticamente quase todas as salas com este formato, no Rio de Janeiro, e é sobre esses cinemas que eu pretendo falar:

Até o final da década de 1970, muitos cinemas foram convertidos para a projeção em 70 mm. Só no centro da cidade, na região conhecida pelo carioca como Cinelândia, foram 4: Vitória, Metro-Boavista, Palácio e Pathé. Na Tijuca, além do Madrid, que não chegou a funcionar porque pegou fogo, mais 4: Tijuca, Bruni-Tijuca, Tijuca-Palace e Rio, este último anunciado ao público como “projeção em Todd-AO”, só que não era bem assim. Na zona sul do Rio, além do Roxy, ainda teriam espaço os cinemas Leblon, Veneza, Pax, Condor Largo do Machado, Ópera, Bruni-Flamengo e Super Bruni 70.

Os cinemas com 70 mm convencional (telas sem curvatura acentuada) não são equipados para projeção com lentes anamórficas, como o Cinerama 70 e o Dimensão 150. As cópias, portanto, não sofrem qualquer tipo de retificação, e seriam, melhor aproveitadas para exibição de filmes feitos em Super Panavision ou Todd-AO.

A farra do filme 35 mm, ampliado para 70 mm

A febre do 70 mm durou por aqui, do meio da década de 1960, até mais ou menos início da década de 1980. Para alimentar este mercado, fez-se de tudo. Filmes que anteriormente haviam sido produzidos em outros formatos, ganharam vida no filme 70 mm.

Aqui é preciso fazer uma pausa, para analisarmos bem esta situação: o negativo de 65 mm é aproveitável para vários tipos de relação de aspecto, mas tradicionalmente ele começa com 2.75:1, na versão anamórfica (Câmera 65, Ultra Panavision), indo até 2.20:1, na versão plana (Super Panavision, Todd-AO), nas últimas produções.

A ampliação de 35 mm CinemaScope para 70 mm implica em colocar 2.55:1 ou 2.35:1 no espaço de 2.20:1, aproximadamente. Haverá uma pequena perda nas laterais, mas esta perda passa transparente ao espectador desavisado.

Já nos casos de filmes compostos para 1.85:1 (mais alto do que largo), a perda é nas partes superior e inferior do fotograma. Métodos de filmagem com lente esférica e máscara, para recompor o fotograma diretamente para 2.35:1, como, por exemplo, Techniscope ou Super 35, o diretor de fotografia pode prever antecipadamente a eventual ampliação de 35 para 70 mm.

Entre 1965, aproximadamente, até início da década de 1980, o número de filmes 35 mm ampliados era notável. E a maioria deles (E.T., por exemplo) se beneficiou da projeção em 70 mm, e até mesmo da tela de Dimensão 150.

Do início da década de 1970 em diante a produção de filmes em bitola 70 mm declinou rapidamente, devido ao custo e devido também à possibilidade de se obterem cópias ampliadas com excelente qualidade. Na década de 1980, pelo menos dois projetos usaram as duas bitolas: “Tron” (1982), usou 65 mm para os efeitos especiais em computação gráfica, e “Brainstorm” (1983) misturou tomadas de 65 mm (para simulação da experimentação científica) e 35 mm para o restante do filme. Apesar dos pesares, o formato de 70 mm continua em produção até hoje, embora em escala mínima. Em alguns projetos, ele foi substituído pelo Imax.

A ampliação de 35 para 70 mm foi, em geral, benéfica para a exibição nos cinemas. Entretanto, em alguns casos ela foi desajeitada e exagerada, como por exemplo, na exibição de “O vento levou”, fotografado em formato de academia (1.37:1), e com resultado de imagem bastante cortada e som estereofônico primitivos, que pode ser ouvido em DVD ou Blu-Ray.

A gravação, mixagem e re-mixagem do áudio

Os filmes em 70 mm são apresentados em 6 canais de áudio analógico, gravados em tarjas magnéticas inseridas na película. Essas tarjas são chamadas de “banda magnética”. A gravação é feita da seguinte maneira: canais 1,2 na tarja da borda esquerda, canais 3 e 4 nas tarjas magnéticas ao lado do fotograma, e canais 5,6 na tarja da borda direita. Note-se que as tarjas laterais são bem mais largas do que aquelas usadas pelo CinemaScope. Abaixo se podem ver dois fotogramas planos, com as respectivas tarjas. A retificação é um processo ótico, ou seja, não afeta a estrutura magnética da película.

Super Panavision: Dimensão 150:

 

As mesmas tarjas foram depois usadas para o Dolby Stereo de 6 canais (aplicado com redução de ruído tipo Dolby A). Mais recentemente, a Dolby aplicou o Dolby Spectral Recording (Dolby SR®) THX, com resultados ainda melhores.

Em tempos mais modernos, a película é facilmente adaptada ao som digital, seja com o uso de DTS, Dolby ou SDDS, com uma mínima adaptação nas leitoras dos projetores.

O 70 mm é apresentado no padrão Todd-AO: cinco canais na tela e um surround. Nos casos onde o negativo original é oriundo de processo com apenas 4 canais de áudio, como o CinemaScope, os canais esquerdo e direito são combinados ao canal central, derivando os dois canais intermediários.

Projetores

No Brasil, foram usados os principais tipos de projetores de 70 mm: o Philips DP-70 (dois casos documentados em salas de São Paulo, um no Rio de Janeiro, já mencionado), o notável Cinemeccanica Victoria X, e o Zeiss-Ikon (Prevost). A maioria dos cinemas no Rio foi equipada com aparelhagem Incol 70/35, incluindo o Cinerama 70, no Roxy.

Cinemeccanica Victoria 8, projetor que foi usado para D-150, no cine Metro-Boavista, no Rio de Janeiro.

 

O projetor de maior presença nas salas exibidoras, não foi fabricado lá fora, e sim aqui mesmo no Brasil: o Incol 70/35. Ele foi resultado de um projeto e execução da Indústria Cinematográfica Orion Ltda, sob a orientação de Orion Jardim de Faria.

 

 

O Incol 70/35, usado na década de 1960.

O Incol 70/35, o último modelo fabricado.

 

Os Incol 70/35 tiveram passagem significativa no Rio de Janeiro, tendo sido escolhido pela cadeia de Luiz Severiano Ribeiro, e instalado em cinemas como Vitória, Roxy, Palácio, Tijuca, Leblon e outros. Ele primou pela robustez e durabilidade, sendo este o motivo pelo qual ele ainda sobreviveu em algumas salas, apesar da ausência do 70 mm nos cinemas brasileiros.

Declínio, decadência e destruição das salas exibidoras

É triste, mas é a nossa realidade: as salas exibidoras que se prestavam às exibições em 70 mm foram eventualmente divididas, com as telas e/ou projetores para 70 mm removidos. A maioria delas foi desativada ou destruída, a partir do final da década de 1980.

O cine Comodoro, pioneiro no Cinerama, pegou fogo e desapareceu em março de 1997. Os demais cinemas, como o Metro-Boavista, Palácio e Vitória estão fechados e seguem com futuro incerto. Tentar falar com alguém responsável ou receber alguma informação sobre eles é um verdadeiro exercício de futilidade!

O estado atual dos cines Vitória, Metro-Boavista e Palácio está mostrado abaixo:

 

 

Atualizando: o Metro-Boavista continua fechado e com tudo removido. O Palácio foi reformado, o interior praticamente intacto, mas fazendo parte de uma empresa de teatro (Riachuelo). O Vitória, parcialmente tombado, foi usado para a instalação da Livraria Cultura, com a criação de um anfiteatro no subsolo. Mas, a Livraria Cultura acabou fechando várias lojas e o Vitória foi incluído nesta lista.

O estudo dessa história nos ajuda a entender e aprender o presente

Não é à toa que se escreve sobre a evolução das salas de exibição e sobre os formatos de filmes apresentados. O cinema é a base na qual o atual home theater é montado. A partir dele, da fotografia e do som, foram obtidos todos os parâmetros que no momento nos norteiam, para coisas como alta definição de imagem e áudio.

O cinema é ainda o ponto de partida para a elaboração das mídias que seriam usadas para que o home theater se tornasse uma realidade: o vídeo disco, o vídeo cassete, o DVD, o vídeo cassete digital e o Blu-Ray. Em todos esses momentos, a gravação do som evoluiu de acordo: mono, Dolby Stereo, os formatos digitais e agora o som “lossless” de estúdio.

Saber como o cinema foi historicamente apresentado nos ajuda a compreender, montar e fazer opções nas instalações de home theater. Espero que o texto acima tenha colaborado de alguma maneira para conseguir isso.

Agradecimentos

Sem a colaboração de várias pessoas, este texto não poderia ter sido redigido. E por isso eu desejo externar o meu mais profundo agradecimento a:

Milton Leal, do planetário do Rio de Janeiro, pela ajuda na memória e na preservação dos trabalhos dos operadores de cinema aqui no Rio de Janeiro, trabalho esse heróico em muitos momentos.

Olegário de Faria, que com seu irmão Alysson, ajudaram a escrever a história da Orion, de propriedade de seu pai, que desenhou e fabricou os projetores Incol, citados no texto.

Thomas Hauerslev, do site in70mm.com, pelo apoio no estudo deste conteúdo. A versão deste artigo, para o site do Thomas, deverá estar saindo por esses dias.  Outrolado_

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Leia também:

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A memória do cinema nos periódicos antigos

 

Inauguração do velho novo Cinema Pathé e o resgate da memória

 

Os processos fotográficos Technirama e Technirama 70

 

Homenagem a Orion Jardim de Faria, pioneiro de cinema

 

2001: Uma Odisseia No Espaço, em versão Blu-Ray 4K, Dolby Vision HDR

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Cinemas de rua com 70 mm

  1. Prezado Paulo, diante desta grande e detalhada matéria podemos chegar a seguinte conclusão, o “crème de la crème” dos Cinemas de rua aqui no Brasil, indiscutivelmente foi como um dos seus exemplos, o Cine Comodoro aqui em São Paulo, uma das mais elitizadas salas espetáculo, que infelizmente teve seu apogeu que historiadores (como você) ainda podem regatar desde sua fase de criação, progressão e decadência. É notório que o cinema de rua caminha para o seu fim, e para piorar as coisas todas as salas sobreviventes estão fechadas em virtude da pandemia. E aí vem aquela estória do cachorro correr atrás do rabo, pois sobrará como opção apenas as empresas de streaming, sendo reproduzidas em nossas telas particulares dentro de casa. É de se lamentar tudo isso, mas são sinais da evolução (burra) dos tempos. Estamos vivenciando e assistindo a tudo isso como um filme de drama; a lenta agonia do Cinema de rua, que mudou de endereço para as salas multiplex dos Shoppings. Muito difícil para nós cinéfilos sermos testemunhas oculares desse triste fato da história da decadência da 7ª arte. Bom como dizem Paulo, enquanto estivermos vivos vamos usufruindo do pouco que ainda nos resta, não é mesmo ? Abraço.

    • Tudo faz crer, e eu observo isso há anos, que o cinema de rua morreu, com algumas exceções. E nós aqui ficamos viúvos do cinema de espetáculo, com cortinas, etc., e do 70 mm, para mim a maior perda.

      A se lamentar novamente é a perda de mercado dos discos, incluindo Blu-Ray, enquanto lá fora esse mercado cresce a olhos vistos, com lançamento até em 4K (vários títulos de colecionador saem agora) nós aqui nem sombra…

      • Quando ainda era criança meu Pai me levou para assistir 2001: A Space Odyssey (1968) em 70 mm. Aquela imagem gigante na tela me deixou boquiaberto, pois estava acostumado ao padrão 1.33 de 35mm, mas falando em discos Blu-Ray Paulo, você poderia indicar algum site de sua preferência, onde podemos encontrar bons títulos de filmes com legendas em português ? Obrigado.

        • Oi, Rogério,

          Eu já comprei discos em um monte de sites. Os lá de fora foram em número limitado, alguns apenas ocasionais. Nos sites brasileiros, alguns dos antigos fecharam, como por exemplo, o 2001 Video. Eu ainda uso o Video Pérola, Saraiva. Livraria Cultura, Americanas, etc., dependendo da disponibilidade.

          Mais recentemente, eu achei o site Colecione Clássicos, que está lançando o filme King Kong de 1976 em Blu-Ray, em embalagem com luva, inclusive. Eles ofereceram a pré-compra, que eu já fiz. O lançamento está previsto para setembro, quando então eu espero descartar o meu DVD americano deste filme.

          Para achar títulos com legendas em português lá fora será necessário pesquisar títulos em sites dedicados. Eu uso e sugiro o Blu-Ray.com, no qual eu tenho eventual participação.

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