As lições do seriado Ted Lasso

Ted Lasso, enfim um seriado que despertou o meu interesse

Ted Lasso, baseado em personagem criado em campanha da NBC, é desenvolvido pelo ator e comediante Jason Sudeikis com características humanas com as quais qualquer um pode se identificar.

 

Com uma tonelada de seriados grassando na TV e nos serviços de streaming, eu acabei, como aliás acredito que muitas outras pessoas também, me cansando de assistir temas repetidos, sem graça e/ou muitas vezes paroquiais. Estes últimos pertencentes a uma classe de humor restrito a um local ou cultura que não nos diz respeito, ficando às vezes quase impossível determinar o tipo de comentário ou achar alguma graça no que está sendo dito.

Ted Lasso, seriado produzido pela Apple e para apresentação no Apple TV+, começou recentemente a ser exibido, mas eu só fui me dar conta dele quando já haviam sido programados vários episódios da primeira temporada.

E é aquela mesma estória: a gente assiste o primeiro desses episódios, vê se interessa ou não e depois segue ou abandona. Em alguns seriados, o interesse só aparece subsequentemente, e por isso eu ainda dou chance para continuar até onde a decisão de abandonar ou não começa a surtir efeito.

Com Ted Lasso, logo no primeiro episódio eu notei algo que se afasta muito da mesmice! O personagem, criado pelo ator/comediante americano Jason Sudeikis, é um técnico de futebol americano, aquele mesmo da bola ovalada e sem graça, que é convidado pela ambiciosa e divorciada Rebecca, agora dona do clube de futebol da primeira divisão AFC Richmond, que quer arruinar este clube para se vingar do ex-marido mulherengo.

 

O que me chamou a atenção foi a construção do personagem pelo ator Jason Sudeikis: Ted chega em um lugar inóspito, é insultado e abusado verbalmente por todo mundo, mas nunca perde o sorriso no rosto e o infatigável otimismo.

Mais importante ainda no personagem: Ted Lasso aceita os defeitos e as limitações alheias e endereça palavras encorajadoras na direção de seus opositores, ao mesmo tempo em que se desvia com elegância das rasteiras e ignora os comentários a respeito da sua falta de capacidade de entender, muito menos treinar, um time de futebol da primeira divisão inglesa.

A comédia, próxima do teatro do absurdo, se desenrola a partir daí. Em tese, Ted Lasso jamais poderia ser treinador de um time de futebol da primeira divisão, principalmente vindo de um pretenso futebol, praticado em seu país, que não guarda qualquer semelhança com o verdadeiro futebol que nós conhecemos.

Mas, Ted é um otimista convicto e acredita que, apesar dos xingamentos da torcida, em algum momento ele chega lá. Ele é saudado pelos fãs do Richmond como “wanker”, gíria inglesa depreciativa classificando alguém como “idiota” ou “imbecil”. A propósito, nas legendas do seriado a palavra é traduzida erradamente como “punheteiro”. Esse conceito não se aplica ao personagem, embora um dos jogadores tenha feito um gesto a este respeito em uma das cenas do segundo epsiódio.

Ted se une a outro treinador (Coach Beard) e seduz o socialmente rebaixado serviçal Nathan para formar um trio de improváveis orientadores de jogadores em plena decadência.

O trio está aí na imagem abaixo: da esquerda para a direita, Coach Beard (Brendan Hunt). Ted Lasso e o constantemente humilhado Nathan (Nick Mohammed):

 

A divorciada chefe de Lasso (Hannah Waddingham) é, no início, difícil de conquistar. Ela quer a todo custo afundar o time, mas depois acaba se convencendo de que o oposto irá fazer muito mais mal ao ex-marido, que será forçado a ver nela uma dirigente de futebol capaz de reerguer o time ao seu antigo status.

Ted Lasso vai comendo pelas beiradas. Inicialmente, ele enfrenta aquilo que a maioria dos técnicos de futebol profissional enfrenta: vedetismo de jogadores que se acham intocáveis, ao lado de jogadores que chegaram a uma certa idade e que se recusam a serem tratados como atletas próximos da aposentadoria.

A minha visão pessoal disso tudo

Quem me acompanha nesta coluna sabe que eu insisto no preceito de que a impressão de cada um sobre cinema, ou, no caso, seriado de TV, é pessoal e intransferível.

Na minha visão sobre Ted Lasso existe um princípio filosófico de vida com o qual eu me identifico e endosso: o de que nunca se deve subestimar a capacidade dos outros de aprender qualquer coisa. Quando o educador sabe o que está fazendo ele irá estimular a aquisição do conhecimento através do encorajamento e emprego dos meios que permitam a pessoa que está ao lado de chegar lá.

O personagem Ted Lasso é, antes de mais nada, um observador do ambiente. Em sequência, ela foca nas fragilidades e principalmente nas prepotências dos seus antagonistas, esperando o momento certo de agir, mas sem que suscetibilidades sejam feridas.

Tomar na cara insultos, abusos verbais e coisas depreciativas do gênero não é fácil de enfrentar. Existe gente que sente prazer em botar os outros para baixo. Aprender a lidar com essa gente exige paciência e sensibilidade.

Parte desse enfrentamento está na preservação da autoestima, o que nem sempre é fácil também. O personagem se defronta com a perda da família e outros tipos de estresse sem que os outros percebam. E isso é fundamental se ele quiser continuar a encorajar os outros a vencerem os seus próprios problemas e limitações.

Pode até ser utópico ou impossível em sua plenitude, no dia-a-dia de cada um, mas é como deveria ser. O cinema ou o seriado não devem se propor a resolver problemas da vida pessoal de ninguém, mas eles podem dar o exemplo, e a partir daí, cabe a quem assiste tirar as suas conclusões e talvez ensinamentos.

Eu já levei muita rasteira na vida, e sei que é difícil para todo mundo se levantar quando a queda é forte. Um seriado como esse sempre cumpre o papel de dizer no seu roteiro que tudo isso faz parte da vida mesmo. A maturidade, segundo uma querida colega da Psicologia Médica, é a capacidade que cada um tem de resolver os seus problemas, o que, na prática, significa que a gente vai até o fim da vida sem amadurecer totalmente!

Por fim, eu gostaria de mencionar que Ted Lasso tem acabamento de primeira, com a ajuda de imagens em Dolby Vision, capturadass e apresentadas em 4K, e som Dolby Atmos, para quem tem equipamento compatível.

Bem verdade que o Dolby Atmos usado em seriados nem sempre é necessário, por força da estrutura do roteiro, que dá prevalência a diálogos, mas mesmo assim, se está lá, porque reclamar? Quanto à imagem, ela sempre se beneficia do tratamento aprimorado e da resolução aumentada.

A única coisa que me chateia é ter que esperar uma semana para ver o episódio seguinte. Quem começar a ver agora pode assistir do início e ter a sequência disponível até o último episódio apresentado. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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