Stanley Kubrick, diretor de 2001, uma Odisseia no Espaço

A vida de Stanley Kubrick

A vida e a obra de Stanley Kubrick estão disponíveis em um documentário colocado para o público pela Warner. A edição em Blu-Ray ainda não saiu, portanto é uma boa chance de assisti-lo bem antes.

 

Eu gastei mais de duas horas assistindo o documentário “Stanley Kubrick: A Life In Pictures”, sobre a vida do cineasta, que eu achei quase que por acaso, em uma postagem no YouTube, feita pela Warner Brothers:

 

 

O documentário ainda está previsto para ser lançado em Blu-Ray, mas ainda sem data definida.

Stanley Kubrick é, até hoje, um cineasta cuja trajetória pelo cinema foi recheada de controvérsias, pelos mais diversos motivos. Pelo menos dois de seus filmes despertaram protestos, um deles “Lolita”, lançado em 1962, por causa da sensualidade do tema, e “A Clockwork Orange” (no Brasil, “Laranja Mecânica”), de 1971, por causa da violência. Este último acabou sendo retirado de cartaz na Inglaterra, por ordem do cineasta, irritado com os protestos.

Laranja Mecânica também foi alvo da censura no Brasil. Os censores não quiseram cortar algumas cenas e então em uma delas mandaram inserir bolas pretas nas genitálias dos atores, durante toda a sequência de orgia entre Alex e as duas moças da loja de discos. As cenas foram rodadas com aceleração de quadros e assim as tais bolas pretas corriam de um lado para o outro, fazendo a plateia cair na gargalhada!

O documentário gasta as duas horas e vinte com os depoimentos de vários cineastas e críticos, que privaram de sua companhia, pessoalmente ou nos sets de filmagem. Uma coisa que me desgostou foi a ênfase desnecessária nas atitudes excêntricas do cineasta, que nada tem a ver com a sua capacidade como diretor.

Essas excentricidades já haviam sido relatadas em um documentário em disco sobre a sua conduta estranha no set de “2001, Uma Odisseia no Espaço”. Stanley, quando queria a opinião de alguém, em vez de perguntar diretamente, mandava outra pessoa fazer isso no lugar dele.

Mas, o documentário comenta sobre os hiatos e ausências de Kubrick dos projetos que ele mesmo queria realizar, sua vida íntima introvertida e reclusa. O ator Malcolm McDowell, por exemplo, fez amizade com ele durante as filmagens de Laranja Mecânica e depois ficou surpreso quando o cineasta se afastou e nunca mais falou com ele.

Só que, no final das contas e deste documentário, nós que estamos assistindo, nos perguntamos: um cineasta desta estatura, reconhecido pela comunidade de cinéfilos do mundo todo como um grande diretor, é mais visto como excêntrico do que como realizador de filmes?

Se alguma coisa narcisista e egocêntrica se pode inferir quando um cineasta norte-americano fala do cinema e de seus realizadores é a completa ausência, salvo em raríssimas exceções, da obra de cineastas de outros países! Parece até que estes nunca existiram ou contribuíram para o cinema que está até hoje aí!

A minha visão pessoal de Stanley Kubrick e sua obra

Não há dúvida alguma no meu espírito de que “2001, Uma Odisseia no Espaço” foi a obra maior deste cineasta. O impacto da sua apresentação na gigantesca tela de Super Cinerama, instalada no antigo Cinema Roxy do Rio de Janeiro, foi uma das maiores experiências visuais que eu vi em uma tela de cinema.

2001 foi rodado em Super Panavision 70 mm. O Orion Jardim de Faria, eu soube depois, foi quem instalou um par de projetores Incol 70/35 e a tela do Roxy. Ele me contou um dia que ao manusear uma das lentes de Cinerama ela caiu no chão e se desmontou. Claro que ele ficou apavorado, mas com calma montou de volta e o cinema inaugurou com brilho a nova projeção.

Quando 2001 foi exibido saiu uma notícia nos jornais de que o lançamento nos Estados Unidos havia deixado parte da plateia deprimida ao sair do cinema, e até hoje eu nunca entendi por que.

2001 tem uma narrativa de filme mudo em um monte de sequências, mostra com brilhantismo o isolamento de dois astronautas na vastidão do espaço, com uma beleza visual inédita para a época.

Até então, naves de filmes espaciais nunca haviam mostrado aquela riqueza de design e construção, tanto interior quanto exterior. No espaço não existe som, e o filme mostra isso com elegância. Entretanto, o som de 2001 é esplêndido. A abertura com a obra de Strauss “Assim Falou Zaratrusta” destaca a beleza da imagem com a música, e essa abertura está aí como um importante marco do cinema.

Como um todo, a obra de Stanley Kubrick difere da grande maioria dos outros cineastas americanos. Em parte, isto é devido, creio eu, pela falência do chamado Studio System, no qual os magnatas e produtores tinham a última palavra nos projetos, e vigiavam os sets até com gente infiltrada lá dentro. Filmes eram cortados à revelia dos diretores e roteiristas, porque os executivos se achavam no direito de saber o que o público gostava ou não. Se eles não gostassem, os filmes eram modificados ou engavetados.

Pois bem: na pré-estreia de 2001, os homens da M-G-M não entenderam patavinas do que estava se passando na tela, e quase o filme foi cortado. Teria sido um crime, e notem que Kubrick nem era um Orson Welles, prejudicado por este tipo de atitude. Se dependesse de alguns críticos da época, que não se sensibilizaram com 2001, o filme teria sido relegado a segundo plano.

Embora em muitos pontos dos roteiros dos filmes de Stanley Kubrick o ritmo é propositalmente lento, às vezes insuportável de assistir, é inegável que o conteúdo é sempre prevalente, com mensagens subjacentes o tempo todo. No entanto, o cineasta se negava a explicar qualquer coisa, haja visto a sequência final de 2001, ou sobre o que era o monolito, mostrado no início do filme. Foi Arthur Clarke quem disse que o monolito era uma “máquina de ensino” (no original “a teaching machine”), mas Kubrick sempre disse que a interpretação do monolito (e de outras cenas também) ficava a critério da plateia.

Laranja Mecânica

Eu achei Laranja Mecânica um filme inovador. Vendo hoje sem censura, acho que talvez a violência teria sido demais para aquela época. Mas, daí a retirá-lo de cartaz ou censurá-lo, isso eu nunca entendi. Perto dos filmes de hoje, a violência gráfica chega a ser brincadeira de criança. Sexo, então, nem se fala.

Quando eu morei em Cardiff, eu soube que nem em home vídeo existiam cópias de Laranja Mecânica disponíveis. Por causa disso, quando eu voltei ao Brasil eu gravei uma fita VHS a partir da cópia em videodisco e a mandei para um colega do laboratório, que queria muito ver o filme e não conseguia. Depois que Kubrick morreu, a Warner deu um jeito de banir o desaparecimento do filme, que foi oferecido em mídia ótica.

Alguns filmes de Stanley Kubrick são muito apreciados por fãs, mas eu particularmente não acho tão bons assim. Um amigo meu adorava Barry Lyndon, comprou correndo o Blu-Ray, enquanto que eu achei o filme muito monótono, questão de gosto, imagino.

O último filme do meu interesse e que eu vi no cinema foi “De Olhos Bem Fechados” (“Eyes Wide Shut”), de 1999. Achei o filme interessante, mas não ótimo. A propósito, a cópia brasileira em DVD manteve o filme intacto, mas na cópia americana foram cortadas todas as cenas de sexo. Foi também nessa época que os censores da Warner andaram cortando cenas dos desenhos clássicos da dupla Tom & Jerry, alegando racismo (na personagem de Mammy Two Shoes) e influência negativa, como, por exemplo, o Tom fumando em cena. Na época, os fãs protestaram, tanto sobre os cortes do filme de Kubrick quanto dos desenhos.

Eu posso estar enganado, mas parece que existe uma preocupação do cineasta com a questão da integridade do núcleo familiar e, coerentemente, em Eyes Wide Shut se mostra a falência da família como um fato concreto.

Stanley Kubrick é um cineasta que merece ser lembrado, e os seus filmes assistidos. A última versão em disco de 2001, lançada em 4K e Dolby Vision, é imperdível para quem equipamento compatível. Claro que não se compara ao Cinerama, mas quebra um grande galho para os fãs!  Outrolado_

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2001: Uma Odisseia No Espaço, em versão Blu-Ray 4K, Dolby Vision HDR

 

Homenagem a Orion Jardim de Faria, pioneiro de cinema

 

Tom & Jerry e os heróis das matinês

 

O modo de tela dos cineastas já chegou

 

Formato Super Panavision vai bem, obrigado

 

A Odisseia de Sir Arthur Charles Clarke

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

6 comentários sobre “A vida de Stanley Kubrick

  1. Olá Paulo, Stanley Kubrick de uma forma concisa, foi muito mais que um célebre Diretor de Cinema, foi um cientista visionário, e criticado por alguns por suas criações que diziam ser fora da realidade. Mas como realizar um filme de ficção como a saga de 2001, e não criar idéias de um futuro que “ainda” não existia, mas hoje é plenamente factível. Ele foi o 1° que abordou o turismo espacial; uma base na lua que em breve começará a ser construída pelos E.U.A. e tudo isso não existia na época do lançamento do filme, ele citou a vídeo chamada, e também não existia. Kubrick para mim está num nível muito acima de Steven Spielberg, Ridley Scott e tantos outros, Sorte a dele com sua mente brilhante ultrapassou o nosso tempo, e foi viver em outro mundo sua eterna moradia !

    • Oi, Rogério,

      Obrigado pelos comentários. Eu até hoje fico surpreso do Kubrick ter conseguido aprovação de sua maneira de dirigir, em uma época em que cineastas eram ainda cercados por códigos de produção rígidos, malgrado o fim do studio system.

      A diferença mais básica entre Spielberg e Kubrick é a ausência neste último da manipulação do emocional da platéia. Seus filmes são colocados na tela e cada um sabe (ou mão) o que interpretar deles.

  2. Boa tarde, Paulo. Lá na webinsider tive oportunidade de comentar sobre 2001 que vi no lançamento em S.Paulo. Simplesmente monumental. Uma curiosidade: o filme ainda faz eco. No sábado que passou, no programa do Luciano Hulk,” Quem quer ser um milionário?”, uma das perguntas ao candidato que participava foi o nome do computador de 2001. Vibrei na lembrança e na presença de minha esposa lasquei, Hall 9000. E ela, como vc sabia de antemão?
    Abraço.

    • Oi, Celso,

      Então, e Arthur Clark passou um tempo enorme desmentindo que HAL fosse IBM uma letra para a frente. É possível que tenha sido incidental mesmo, mas os fãs sacaram de imediato o endereço da crítica. IBM naquela época era conhecida como “Big Blue”, devido à estatura do seu corporativismo e o poder de mercado que ela tinha na área de processamento de dados.

  3. Paulo voltando ao tema que Kubrick realmente estava muito adiante do seu tempo, e pegando o gancho no assunto do leitor Celso; baseando-se no enredo dos 2 filmes de 2001, podemos citar a grande capacidade da unidade lógica do Hall 9000 mostrada no filme, que retrata a possibilidade dele de interagir com os humanos, diante disso abre um paralelo com a Google está tentando fazer com seu limitado assistente virtual, ou com a Alexa da Amazon entre outros. Daí podemos concluir que estamos algumas dezenas de anos atrasado, até chegar na grande capacidade do cérebro digital do Hall. Daí te pergunto Paulo, o dia que isso acontecer (e vai ocorrer) será o início de algo temido pelos humanos, que seria as máquinas terem o poder de decidir sobre os homens como mostrado no filme ?

    • Oi, Rogério,

      Eu não chegaria a esse ponto do domínio da máquina sobre a humanidade, embora reconheça a escravidão implícita que nós temos na dependência do uso de recursos eletrônicos, em alguns casos, como, por exemplo, o uso continuado de celulares por motivos “fúteis” a coisa chegue às raias do absurdo, na minha opinião. E ninguém poderá me tachar de tecnofóbico, porque eu tenho décadas de experiência no uso de ferramentas eletrônicas, e passei por uma época onde o computador ainda era visto como uma caixa preta, aqui e lá fora, onde estudei. Inclusive, eu acho desagradável você estar sentado em uma mesa de restaurante e a sua acompanhante atracada no celular! Acaba o espaço para uma conversão civilizada, concorda?

      Muita coisa de 2001 não se concretizou, mas isso eu acho que é apenas um detalhe. No caso específico de HAL, o computador desenvolve características humanas e se torna implacável, vingativo, etc. É como se os cineastas estivessem fazendo uma crítica não ao computador mas aos seus criadores.

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