O som digital no cinema: A projeção digital consiste na reprodução de arquivos armazenados em um drive ou na nuvem

O som digital no cinema, antes e depois

A partir de 1992 o som digital entrou nas salas de exibição para nunca mais sair. A mudança aconteceu sem impedir a reprodução dos formatos de áudio antigos.

 

O tempo, para certas coisas, passa correndo e a gente nem percebe!

Na corrida pelo formato 5.1 no cinema, com os canais surround separados e com a inclusão de um semi canal de efeitos de graves, o LFE ou “.1”, os laboratórios Dolby chegaram primeiro. Em 1992 foi lançado em Londres o tenebroso filme “Batman Returns” (no Brasil, “Batman: O Retorno”), com som Dolby Digital 5.1, gravado com códigos impressos entre as perfurações da película. O Dolby Digital faz parte da terceira geração do Audio Coding, o AC-3.

Durante décadas o som Dolby Stereo, fruto de uma modificação da matriz 2.0/4.0 do som quadrafônico, havia se tornado padrão para películas 35 mm e às vezes em 70 mm também. A maioria dos projetores tinha sido adaptada no bloco ótico para o Dolby Stereo ser reproduzido corretamente, e este formato seguiu firme até a retirada dos projetores de todos os cinemas.

O Dolby Stereo ainda derivou o Dolby Spectral Recording, em ambiente analógico. E algumas películas com este formato puderam ser distribuídas com Dolby Digital 5.1, garantindo assim retro compatibilidade nas salas de cinema.

Eu e minha família morávamos em Cardiff nesta época. Não assistimos aquele Retorno do Batman nem com cópia convencional. Somente em 1993 os cinemas locais instalaram DTS 5.1, lançado no filme “Jurassic Park”, e nós o assistimos em um cinema próximo, o Monico, posteriormente demolido.

Voltando ao Brasil em 1994 alguns cinemas da cadeia Severiano Ribeiro haviam instalado o formato DTS 5.1, e foi com este formato que nós assistimos “Clear and Present Danger” (no Brasil, “Perigo Real e Imediato”), no hoje falecido Cinema Leblon.

O interessante é que Clear and Present Danger foi, por coincidência, o primeiro Laserdisc com som Dolby Digital 5.1, lançado pela Paramount em 1995. Para a sua reprodução em casa era preciso um player capaz de ler uma das trilhas analógicas onde o codec (chamado naquela época de AC-3) estava gravado. Além disso, o receiver tinha que ter disponível uma entrada específica para a sua correta decodificação.

Um resumo dos diversos formatos de áudio contidos no Laserdisc pode ser visto na figura a seguir. Convencionou-se retirar uma das trilhas analógicas do programa em estéreo e incluir o AC-3 nela. Assim, o Laserdisc iria reproduzir o som do filme em mono na trilha analógica, em Dolby Stereo (Dolby Surround) na trilha PCM, além do Dolby Digital. Se o usuário não tivesse a cadeia de reprodução adequada e tentasse reproduzir a trilha analógica contendo o Dolby Digital só iria ouvir ruído.

A modulação de som digital em ambiente analógico foi extensamente usada em todos os modems analógicos daquela época. A propósito, assistindo aquele filme, pode-se ouvir o som característico da modulação dos modems.

A guerra de formatos 5.1

A adoção de som 5.1 nos cinemas obrigou os exibidores a optar pelo scanner da Dolby ou do DTS. Ambos inicialmente foram instalados no topo dos projetores. Posteriormente, o bloco ótico foi modificado, de maneira a poder reproduzir Dolby Digital e Dolby Stereo simultaneamente. Se o Digital falhasse o Dolby Stereo seria acionado automaticamente.

O sistema com DTS incluiu a leitura de um time code na película, que sincronizava a reprodução de um CD-ROM, com o codec. Tratava-se de um tipo Vitaphone (som no disco) digital. O DTS foi inicialmente um sucesso entre os exibidores e fãs de carteirinha, porque o som PCM do CD não tem compressão (bitrate de 1411 kbps, a 16 bits), passando assim um som de melhor qualidade. Já o Dolby Digital precisa de compressão e o valor do bitrate cai para 384 kbps, o mesmo usado no DVD.

A objeção quanto à diferença de qualidade caiu por terra, quando os exibidores começaram a ter problemas nos leitores de CD usados no DTS. Até então, existia um mito dizendo que a informação entre as perfurações na película com Dolby era frágil e podia não funcionar corretamente. No correr do tempo o número de projetores com Dolby Digital instalado superou os com DTS, retirados das salas.

O SDDS, criado pela Sony para telas com 5 caixas acústicas (formato Todd-AO), nem chegou a ser uma ameaça para a Dolby ou para a DTS. Eu consegui assistir um filme no cinema com este formato e era de fato muito bom.

O cinema digital

A projeção digital consiste na reprodução de arquivos armazenados em um drive ou na nuvem. Um servidor previamente programado envia o sinal ao projetor e ao sistema de áudio do cinema.

Por pura conveniência, um pacote de dados que leva o nome de DCP (Digital Cinema Package), encarcera um conjunto de seis arquivos, um com a imagem, um com o som e quatro com metadados de controle.

O encarceramento usa uma mídia de transporte que leva o nome de MXF (Material Exchange Format), e que contem os arquivos do pacote DCP. Nada impede, porém, que qualquer formato de vídeo ou de áudio possam ser reproduzidos pelo sistema.

A adoção do DCP segue uma maneira ritualista de proteger o conteúdo contra a copiagem indevida. O servidor pedirá um código para libertar o conteúdo e a programação nele contida. O número de exibições é também controlado, coisa que jamais seria possível quando a exibição era feita com projetores convencionais de película.

Como se vê, tanto Dolby Digital como DTS poderão continuar a serem reproduzidos, caso a produção dos filmes queira aproveitar uma dessas trilhas sonoras, ou então partir para a evolução das mesmas, como Dolby TrueHD ou DTS HD MA, no número máximo de canais, se for o caso.

Dos dois, o formato DTS no cinema nunca foi adiante. No broadcasting ou em serviços de streaming também não. A alta compressão do Dolby Digital foi o que, em última análise, permitiu o seu espalhamento nesses serviços. E a iniciativa de incluir o Dolby Atmos como extensão do Dolby Digital Plus, foi o que ainda possibilitou o seu emprego nos sistemas de streaming.

O formato 5.1 representou um grande avanço na linha de tempo do som no cinema, e pode ser visto como padrão de mixagem sem constrangimento. Porém, agora superado pela mixagem tridimensional de objetos, poderá ficar restrito a algumas aplicações onde o som 3D não tenha tanta relevância assim. Outrolado_

 

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A minha primeira experiência em uma sala de cinema com Dolby Atmos

 

Do tempo das diligências ao som digital

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “O som digital no cinema, antes e depois

  1. Ééé Paulo… Sorte a nossa que ainda temos possibilidade de replicar toda essa esplêndida criação de dimensão sonora, que esses sistemas multi-canais podem nos proporcionar em nossas salas doméstica, com as mídias que (a duras custas) ainda conseguimos adquirir. Se formos abordar a importância desse sistema ainda nos dias atuais no home theater, poderíamos fazer um paralelo com todo investimento em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia que a Dolby Laboratories realizou, e que pelo menos isso não nos será “abduzido” Mas fica aí um questionamento que não é possível descartar no momento atual. O Streaming… O “novo” formato de comercialização dos títulos do cinema pode oferecer que tipo de pacote multicanais de transmissão de áudio ? Pelo que vejo na maioria da empresas de conteúdo, só oferecem som original em estéreo ou dublado em dois canais. Que ultrajante para quem tem disponível um tremendo sistema receiver em casa hein Paulo ?

  2. Olá Paulo. Eu parei com os sistemas multi caixas no dolly digital e desisti dele depois disso. A variedade de recursos embutidos nos receivers av atuais me assusta e digo, sem hesitação, chega a deprimir, tal a quantidade de parâmetros a serem calibrados, quantidade de caixas a serem instaladas, etc. No início, até tinha um certo entusiasmo. Mas, se não bastasse, há a fragmentação absurda de serviços de streaming cada um incompatível com seu concorrente. Ou você se prende a uma marca e fica nela, com métodos confusos de login, sistemas de caixas wireless proprietários, etc. Tudo muito confuso. Saudade dos velhos dvds, tão mais simples. Voltei para um um amplificador integrado hi-fi Yamaha estéreo de gama alta, e só. Quanto ao streaming, ainda recorro aos serviços da “locadora” chamada p#r@t&Bay. Como player um computador Linux rodando VLC controlado remotamente por aplicativo.Menos dor de cabeça e exaustão.

    • Oi, Felipe, eu acho que entendo como você se sente. Só não compartilho com o que você afirma, porque eu levei anos para estudar e acertar o meu sistema multicanal e considero, até hoje, um esforço que valeu a pena.

      Eu tinha um grande amigo, audiófilo de carteirinha, que parou antes do Atmos, isso depois de ter comprado as caixas (o resto ele já tinha). Mas, preferiu continuar com 5.1. Já eu fiz o contrário, inclusive montei caixas do tipo Doly Enabled e só sosseguei quando cheguei à conclusão de que as caixas superiores não precisavam estar no texto.

      Portanto, é uma decisão de cada um. Se a pessoa é feliz com o que tem, porque mudar?

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