Cena de Encurralado, primeiro filme de Steve Spielberg

Steven Spielberg, “Encurralado”, Sergio Augusto e O Pasquim

O nosso leitor Celso Daniel nos fez uma sugestão, a de discorrer sobre o primeiro filme de Steven Spielberg, intitulado “Encurralado”, e na expectativa de atendê-lo eu resolvi traçar uma retrospectiva do que aconteceu na época do lançamento deste filme, envolvendo o Cinema I, o crítico Sergio Augusto e O Pasquim.

 

Quando “Encurralado”, primeiro filme de Steven Spielberg, foi lançado no extinto Cinema I, todo mundo correu para assistir. O filme havia sido badalado no prestigiado semanário O Pasquim, espécie de leitura obrigatória dos estudantes secundaristas e universitários daquela época.

O crítico de cinema Sergio Augusto publicou uma matéria sobre o filme, cujos detalhes eu não me lembro mais, porém despertando a atenção dos leitores sobre o lançamento do filme. Em sua crítica ele aponta falhas no roteiro, que as teria enviado a Spielberg, o qual teria concordado com as mesmas.

Anos depois, o então estreante diretor iria aproveitar partes da linguagem deste filme em outros projetos onde ele ficou conhecido, como por exemplo “Jaws” (“Tubarão”), quando então o nome do diretor já havia atraído milhares de pessoas para os cinemas.

O Cinema I

Inaugurado em setembro de 1972, por iniciativa do crítico e cineasta Alberto Shatovsky, um dos pioneiros na programação das salas de arte, o Cinema I ocupou o antigo espaço do Cine Paris Palace, na Rua Prado Júnior, no trecho que fica entre a Ruas Barata Ribeiro e Ministro Viveiros de Castro.

Até então, as principais salas de arte pertenciam à Companhia Cinematográfica Franco-Brasileira, com os cinemas Paissandu e depois Tijuca-Palace. Para ali corriam todos aqueles que estudavam ou queriam ver filmes de melhor qualidade, a maioria vindos da Europa.

O Cinema I, comentava-se à época, teria sido uma cópia do cinema homônimo, localizado em Nova York. Após passar pela bilheteria, chegava-se a uma sala com poltronas e bar, onde se podia assistir ao filme sem entrar na plateia.

 

O espaço passou a ser concorrido pela chamada “geração Paissandu”, jovens de alegado potencial intelectual, interessados pelo cinema alternativo, exibidos dentro dos circuitos comerciais. Com a onda dos filmes categorizados como “de arte”, cinemas não dedicados passaram também a exibir este tipo de filme.

O Cinema I foi completado pelo Cinema II, que ficava na Rua Raul Pompéia, também em Copacabana, e depois pelo Cinema III, localizado na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, bem em frente ao Tijuca Palace. Curiosamente, tanto o Tijuca Palace quanto o Cinema II tinham telas com enquadramento capaz de se adaptarem aos filmes pré-formato da academia, portanto ideais para projeções corretas de filmes muito antigos. Que eu me lembre, nenhum dos 3 cinemas tinha sistema de som Dolby Stereo.

O Cinema I, infelizmente, fechou as portas em 1998. Anos mais tarde, o espaço deu lugar a uma loja da cadeia Hortifruti, e está assim até hoje. Não posso confirmar, mas abaixo se vê a entrada do Cinema I modificada:

 

Quem conheceu o cinema e resolver passar por lá pode aguçar a imaginação e ainda vai ver o local onde ficava a parte da sala que tinha poltronas e bar separados.

O crítico Sergio Augusto no Pasquim

Foi em O Pasquim que Sergio Augusto colocava seus textos na década de 1970, sendo através dele que nós, na época estudantes, tomamos conhecimento de “Encurralado”.

Em entrevista recente para a Folha de São Paulo, publicada em 18/12/2019, Sergio Augusto diz, e eu cito:

Hoje existem milhões de críticos na internet, a atividade vulgarizou-se consoante ao truísmo de que qualquer um pode ser crítico de cinema. A tão lastimada infantilização do cinema americano é parte dessa mudança. Isso também explica a perda da aura do crítico de cinema.” (sic).

Quanta verdade no que ele afirma. Diga-se de passagem, a maior parte de todos nós cinéfilos que ousamos aprender um pouco mais sobre a história, a arte e a técnica do cinema o fizemos com a ajuda de jornalistas que eram verdadeiros scholars no assunto.

Eu lhes garanto que não é fácil escrever uma crítica formal sobre qualquer filme. É preciso estudar todas as mensagens, diretas e subjacentes (que são mais difíceis de perceber), em pelo menos dez partes, e no final fazer uma análise criteriosa dos pontos positivos e negativos do roteiro.

De tempos para cá a Internet abriu espaço para qualquer um dar pitacos a respeito de algum filme, mesmo não sendo qualificado para tal. É importante observar que existe uma diferença abismal entre “dar uma opinião”, coisa que qualquer pessoa tem direito de fazer, e “escrever uma crítica”, ainda que resumida!

Sergio Augusto se refere ao que ele rotula como a infantilização do cinema americano e eu, que venho faz tempo criticando o abuso na exploração de super heróis e vídeo games nos filmes, não poderia concordar mais.

O filme Encurralado

Basta começar a assistir Encurralado para perceber que os movimentos de câmera e as respectivas angulações iriam se repetir em quase todos os filmes subsequentes de Spielberg. Mas, deve-se assinalar, que o cineasta não criou nada, ele dá referência sobre isso, inclusive nas entrevistas, da influência que sofreu dos seus antecessores.

 

 

Em Encurralado há uma citação de linguagem claríssima a Alfred Hitchcock, principalmente no que tange a jamais revelar quem é o motorista assassino daquele caminhão. Se o tivesse feito, o nível de suspense cairia, portanto, lição aprendida!

Além da linguagem, tomada por empréstimo de Alfred Hitchcock, Spielberg usou ideias da trilha sonora composta por Billy Goldenberg, que, em vez de uma trilha musical convencional, introduziu na mesma sons de efeitos sonoplásticos clássicos. Estes efeitos são usados com eficiência na cena onde o caminhão cai na ribanceira, dando a ideia de que o “monstro” estava agonizante. O mesmíssimo efeito foi repetido em Tubarão, quando o monstro da vez está morrendo.

O conceito de transformar um objeto em monstro também não é novo. O mérito do filme consiste em criar uma situação comum em estradas de rodagem, quando motoristas, às vezes intoxicados, resolvem agredir os demais com manobras arriscadas que colocam a vida de todos em risco. Este mérito advém do texto original e roteiro escritos por Richard Matheson.

O filme se propõe àquilo que se classifica como “cinema pesadelo”, ou seja, quando o personagem entra em uma situação que parece que nunca termina e da qual ele não tem ideia de como irá sair. Por isso, o roteiro não propõe soluções para a sequência das cenas. O personagem se torna prisioneiro de uma situação criada por outra pessoa, e que o desafia a reagir. O suspense deriva exatamente desta ausência de soluções. A perda de controle para uma solução de saída deixa o personagem “encurralado”, como propõe o título em português.

“Duel”, termo usado no título original do filme, sugere que a estória é um duelo em uma região isolada e árida, entre duas pessoas que se confrontam, tal como no tradicional “western” do cinema americano. E neste duelo costuma ser sempre o mocinho quem vence o bandido. Em Encurralado, o fim não é diferente!

A partir de um projeto feito para ABC, com cerca de pouco mais de 70 minutos, o filme foi depois recomposto com cenas adicionais, mais ou menos 15-16 minutos a mais, e remontado para uma cópia de cinema com uma hora e meia de duração. Foi esta cópia que o Cinema I exibiu, assim como em outros países.

O disco

Lançado em DVD anos atrás, o filme é apresentado na versão “full frame” 1.33:1 (4:3), mas se trata da versão de cinema, que foi recomposta para 1.85:1. Portanto, a relação de aspecto do DVD está errada. Este erro só foi corrigido na versão em Blu-Ray, que parece que não foi lançada oficialmente por aqui.

A mesma coisa se pode falar sobre a trilha sonora. Nos cinemas ela era Mono, no DVD ela foi remixada para 5.1, única trilha existente no disco. A versão em Blu-Ray oferece as trilhas 2.0 mono e a 5.1 remixada.

Ao rever o disco, eu descubro que o DVD tinha sido lançado em uma época onde o decodificador para trilhas DTS ainda era escasso. Por causa disso, o disco oferece uma trilha DTS em separado, e mesmo assim, ao se escolher a trilha o usuário é empurrado para uma tela, onde a escolha deve ser confirmada:

 

Outra redescoberta, típica da época, foi a “garantia” oferecida pela Macrovision, de que o conteúdo não seria duplicado:

 

A proteção da Macrovision vem da época dos videocassetes VHS, e já naquela época haviam sido desenvolvidos aparelhos capazes de derrubar a proteção. Digitalmente, a suposta proteção contra cópia se tornou patética. Na década de 1990 uma série de programas e scripts já haviam resolvido o assunto, tornando o back-up 1:1 da mídia uma realidade.

A minha coleção de DVDs está obsoleta, e eu apenas mantenho alguns discos de interesse. Entre eles é normal achar discos com proteções derrubadas décadas atrás. Mas, de uma forma geral, os atuais conversores de formato fazem cópias do conteúdo para outras mídias sem precisar de ajuda nenhuma. Tudo isso fica apenas na memória nefasta daqueles momentos onde o usuário começava a ser ameaçado pelo FBI, caso resolvesse fazer uma cópia do original. Até hoje, sinceramente, não sei para que tudo isso, porque afinal o uso legítimo da mídia dá direito ao usuário de assisti-la no lugar que preferir! Outrolado_

. . .

 

Cinema, a grande e a maior arte escapista do século 20

 

E. T.: O Extra Terrestre, em versão UHD, HDR

A catarse do escapismo

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

6 comentários sobre “Steven Spielberg, “Encurralado”, Sergio Augusto e O Pasquim

  1. Olá Paulo, muito bom poder receber uma nova matéria sua. Assisti a 2 semanas atrás Encurralado na TV aberta aqui em S.P. e posso endossar que é um suspense de mão cheia, com uma brilhante atuação de Dennis Weaver, e com um final que me surpreendeu. Outro detalhe que aproveito para sugerir uma matéria a respeito, seria a estreia da 1ª operadora de Streaming do Brasil que não vai cobrar assinatura, e certamente irá angariar uma legião de usuários que é a Pluto TV da empresa Viacom/C.B.S. Abraço.

    • Oi, Rogério, eu não estou sabendo que serviço é esse, mas prometo dar uma fuçada nisso quando tiver tempo. Infelizmente, neste momento eu estou em tratamento de saúde e com múltiplos exames em andamento, por isso o meu trabalho caiu consideravelmente de intensidade. Espero ser somente uma fase que irá passar.

      A propósito, a minha TV já instalou o Disney+ no background, mas eu acho a proposta absurda, com baixo custo-benefício.

      Em tempo: eu rodei o Pluto TV no Firefox e imediatamente vi que o conteúdo é dublado e não tem legenda. Legal para quem não liga para essas coisas. No que me concerne eu estou fora!

      • Poxa Paulo estimo suas melhoras, quanto ao Disney Plus eu nem citei, pelo fato que houve forte reação com críticas por parte dos internautas, pelo fato da Disney não ter novado em nada, e ter disponibilizado todo seu catálogo de filmes e séries antigas, mas nada de canais ao vivo (ao contrário da Pluto Tv) que fornece 26 canais ao vivo, e centenas de filmes, séries e desenhos com transmissão direto de Miami, mas dublado (como você disse). Acho que a Pluto TV (da gigante Norte Americana Viacom/C.B.S) abrirá um novo leque de Streaming aqui no Brasil pelo fato de ser gratuito, o que vai forçar a concorrência lançar pacotes nesse modal.

        • Oi, Rogério, obrigado pela sua preocupação comigo.

          Eu achei um serviço parcialmente gratuito chamado Netmovies (https://www.netmovies.com.br/home). com filmes SD e HD. Rodei alguns e a imagem vai de sofrível a boa. Até agora, esses serviços perdem feio para outros mais antigos, mas isso pode mudar com o tempo. O mais importante, creio eu, seria forçar o Netflix a abaixar o preço extorsivo que eles estão cobrando caso o assinante queira ter acesso aos recursos de áudio e vídeo.

  2. Oi, Paulo. Agradeço por atender a minha sugestão de abordar o “Encurralado”.
    Também desejo pronta recuperação a sua saúde.
    Abraço.

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