Documentário sobre Pelé na Netflix

Documentário sobre Pelé e as críticas ao seu envolvimento com a ditadura

O novo documentário “Pelé” traça a vida do jogador e apresenta momentos esclarecedores. Mas omite fatos importantes a respeito do atleta e da época da ditadura durante a Copa de 1970.

 

Os cineastas Ben Nicholas e David Tryhorn montaram um documentário endereçado à vida de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Na época em que eu estudei cinema, o nosso professor falava que um documentário espelha a visão do diretor, dois no caso, sobre um determinado assunto. Mas, nós, ao assistirmos, percebemos esta visão sem alterar a nossa, caso o assunto seja conhecido. Se detalhes novos aparecem, tanto melhor.

As pessoas da minha geração sabem muita coisa sobre Pelé e as circunstâncias de vida ao longo das décadas de 1960 e 1970. Então, fica mais fácil a quem de nós assiste traçar paralelos entre o documentário e a vida real.

 

 

Diga-se de passagem, o assunto Pelé já foi tema de filmes e documentários, como por exemplo “Pelé: O Nascimento de Uma Lenda”, de 2016, distribuído por aqui pela Europa Filmes:

 

 

Ou no streaming da Amazon, “Pelé: a origem”. Este último é bem menos extenso e informativo.

Em síntese, não há muito o que falar sobre a vida de Pelé que não seja do conhecimento da maioria dos fãs de futebol que já passaram de uma certa idade, a não ser um detalhe ou outro. Eu mesmo, ainda adolescente, vi Pelé jogar no Maracanã, uma emoção que ficou na memória.

A vida de Pelé não foi fácil, algumas vezes controversa

Com essa mania perturbadora de rotular personalidades com títulos da monarquia, espécie de esquema para a mídia arregimentar público e ganhar dinheiro com isso, o “Rei” Pelé, de monarca nunca teve nada. Tratava-se de um menino de origens humildes, que sequer tinha ideia de como era o resto do mundo, como ele mesmo admite. E ao sair do país, descobriu que pouca gente tinha noção do que era o Brasil como nação. Ou seja, o Brasil não tinha expressão alguma no exterior, que dizer de Pelé?

Da pobreza, arrimo de família, Pelé foi parar no Santos, time onde fez a sua fama. Depois que virou celebridade, Pelé foi alvo de ataques ao lado dos inevitáveis elogios ao seu desempenho como atleta. Um desses ataques, me lembro bem, se referiu ao casamento dele com uma mulher branca, quando estaria “negando” a própria raça. Pelé foi também criticado, mesmo depois de casado, de ser mulherengo e de ter tido filhos com várias mulheres fora do casamento. E ele mesmo reconheceu isso, e disse que a mulher dele sabia, mas nunca agiu contra.

Na véspera da Copa de 1970, durante um exame médico, Pelé foi diagnosticado como míope. Ele já sabia que não enxergava bem, mas aparentemente não tinha noção da extensão do seu comprometimento ocular. Este diagnóstico foi feito na Santa Casa do Rio de Janeiro, e eu conheço pelo menos um médico que foi testemunha da passagem de Pelé por lá. O documentário subvaloriza a descoberta, mas admite que foi por causa dela que João Saldanha não queria leva-lo para a Copa.

Se alguma coisa negativa se poderia falar sobre Pelé, foi a infame “Lei do Passe Livre”, que cassou os direitos dos clubes o direito de dispor da compra e venda de atletas. Em princípio, parecia correta, mas abriu as portas dos famigerados empresários, que rondam e parasitam os clubes, na busca da supervalorização dos atletas ainda em formação, mas que na realidade beneficiam muito mais a estes empresários e deixam os clubes com prejuízo incalculável e endividados com contratos escusos.

Não é à toa que o nível do futebol brasileiro caiu assustadoramente depois dessa tal de Lei Pelé, o tráfego de atletas jovens um crime cometido contra os clubes formadores.

A Copa de 1970

Quem quiser entender o que aconteceu na Copa de 1970 tem que, em primeiro lugar, conhecer as circunstâncias das copas anteriores:

O Estádio do Maracanã, ainda inacabado, foi inaugurado às pressas para a realização da Copa do Mundo de 1950. O Brasil era disparado o franco favorito, mas na final perdeu o jogo e o título para a seleção do Uruguai. Meus pais estiveram lá e constataram as pessoas saindo chorando. O nosso goleiro Barbosa (na época ainda chamado de “goal keeper”) nunca foi perdoado, um absurdo.

Foram precisos 8 anos para o nosso país ter uma seleção à altura da competição. E quando teve, brilhou. Foi nesta época que o menino Pelé ficou conhecido pela sua habilidade no domínio da bola e nos gols bonitos.

Em 1962, no Chile, Pelé se machucou e a esperança ficou nos pés de Amarildo e Garrincha. Um tempo atrás, Amarildo, bastante idoso, era meu vizinho da rua do lado. E eu tive a chance de vê-lo reconhecido por todos na rua e de expressar a ele a minha admiração pelo que ele fez naquela copa.

Mas, em 1966, Pelé foi caçado barbaramente em campo, e tem filmes daquela época mostrando isso. Foi uma aberração tão grande, com os juízes olhando sem fazer nada. Isto teria reflexo na copa de 1970. O jornalista João Saldanha assumiu a seleção seguinte e logo de cara disse que se batessem na gente nós iríamos revidar. O que provocou o apelido da seleção pela imprensa das “feras do Saldanha”. E, de fato, na Copa de 1970 a primeira entrada dura nos nossos foi imediatamente revidada, e isso acabou com a intimidação adversária.

Até 1966 as pessoas só tinham opção de ouvir a copa pelo rádio e depois ir aos cinemas assistir o filme oficial da Fifa. Em 1969 fora inaugurado o primeiro sistema por satélite, capaz de transmitir os jogos pela televisão. Na Copa de 1970, a transmissão foi feita a cores, com câmeras Philips. Na Embratel e na casa daqueles que tinham TV importada e mudaram os cristais da mesma, a Copa pode ser vista neste formato.

Em 1970, Saldanha não estava mais lá, expurgado pelo governo militar. Eu assisti todos os jogos com um amigo, e nós notamos que eram os jogadores e não o técnico, o competente Zagallo, quem ditavam o rumo das partidas. E o Brasil exibiu a sua majestade no futebol, naquela que eu considero a sua maior competição em copas do mundo.

A ditadura militar

Meus filhos nasceram na década de 1970, mas nunca souberam o que era uma ditadura, enquanto que eu comecei a minha vida acadêmica em 1971, no auge da repressão. Vi colegas de turma presos e torturados. Um deles, que acreditava piamente no que pensava politicamente, saiu da prisão arrasado.

Só quem passa por um clima desses é que sabe o terror que ele causa a todo mundo, indistintamente! Nas universidades, agentes infiltrados monitoravam tudo o que dizia dentro do campus, e isso causava medo e desconforto de quem estava por lá.

A Revolução de 1964, como os militares queriam rotular o que fizeram, era na verdade um clássico golpe de estado. E não era o primeiro, porque Deodoro fez o mesmo, ao proclamar a república e expulsando a família real. E Getúlio foi o mentor da também chamada de “Revolução” de 1930. Também nesta última a repressão foi dura, com prisões ilegais e outras façanhas deste tipo.

O meu pai, que apesar de apolítico e católico praticante, foi preso na revolução de 1930. Ele conhecia um marechal de campo, amigo da família, que acompanhou vários governos em Brasília. Na década de 1970, preocupado com os rumos do país, este marechal encontrou-se com Garrastazu Médici e perguntou a este se ele sabia da corrupção no meio militar. Médici lhe disse que sabia, mas que naquele momento a prioridade era combater a subversão. Aparentemente, todos os presidentes militares pós-1964 sabiam de tudo isso, mas se empenharam em destruir os membros do chamado Partidão e suas variantes.

Em 1964, o país estava atravessando um momento turbulento. O grupo de militares da chamada linha dura resolveu agir. Botaram João Goulart para correr e fizeram de tudo para reorganizar o país.

Naquele momento, a população deu total apoio, diante da bagunça e apreensão com os movimentos radicais de esquerda. Temia-se que o Brasil se transformasse em uma nova Cuba. Todo mundo achava que a tal revolução dos militares resultaria em um governo provisório, para depois serem convocadas novas eleições. Mas, o que se viu foi o oposto: a linha dura resolveu abolir a democracia, fechar o congresso e os partidos, e deixar somente oficiais de alta patente no comando do país. Estava assim implantada a ditadura.

O tempo piorou o clima de apreensão entre todos, ninguém se sentia seguro. De um lado, militantes de esquerda querendo tomar a nação de volta, do outros os militares os impedindo de fazer isso, através de meios violentos.

E não seria preciso nenhuma Comissão da Verdade para a gente naquela época saber que as prisões eram ilegais, e que aconteciam tortura e morte nos órgãos da ditadura. Muitos corpos eram jogados no mar, incinerados ou enterrados em covas clandestinas. Os parentes destas vítimas ficavam desesperados. Quando flagrados cometendo crime, os militares diziam que eram terroristas que haviam recorrido à luta armada e morreram “em combate”. Tudo mentira.

Eu tive um professor de História no colégio que dizia que a gente precisava estudar o passado para entender o presente. Um estudo cuidadoso do que aconteceu na segunda guerra mundial nos mostra muitos exemplos do que é criar um estado de opressão e terror. Hitler e Mussolini se orgulhavam de terem destruído a oposição, mandando fechar todos os partidos. Da paranoia antissemita ao desprezo pelas raças que eles consideravam “impuras”, ambos os governos agiram para exterminar aqueles considerados causadores da ausência de evolução do continente europeu. As mortes, aos milhões, entre soldados e civis, demonstram inequivocamente as consequências dos regimes autoritários radicais.

Pois os nossos militares agiram da mesma forma, portanto não aprenderam as lições que a história dos outros países nos deixou. Ou então, não quiseram mesmo, já que eles mantinham o poder político nas mãos e odiavam os comunistas. Os presidentes militares, tais como o confesso Médici, sabiam de tudo e não fizeram nada para impedir a tortura e as mortes. Em uma ditadura clássica, não há equilíbrio entre os três poderes, o executivo decide e impõe, fim de papo. E no caso da ditadura brasileira, isto ocorreu na edição do AI-5, estabelecimento da censura e da validade da repressão, que ocorreu de forma cada vez mais violenta nos anos seguintes.

Taxar Pelé como omisso é uma injustiça histórica imperdoável

Alguém diga aos cineastas deste filme como é que se vive em tempos de ditadura. Sendo europeus, eles tinham obrigação de saber como é sobreviver em tempos de guerra, mesmo sendo jovens e não tendo passado pela última delas.

O filme pouco esconde que, sendo Pelé uma celebridade popular, bem poderia se recusar a ser recebido no planalto depois da conquista da Copa de 70. Ou que fizesse algum tipo de protesto contra a repressão clandestina.

O filme ainda critica a presença de militares no corpo de preparadores físicos daquela seleção. Mas, os cineastas esqueceram de mencionar alguns detalhes muito importantes: o primeiro deles se refere à forma cientificamente planejada como o time foi se adaptando à competição em cidades elevadas, algo inédito na época.

O segundo aspecto se refere ao fato de que dois daqueles preparadores supostamente impostos foram depois figuras importantes no futebol. Um deles, Claudio Coutinho, falecido prematuramente em 1981, brilhou como técnico, inovando na preparação e na estratégia de jogo.

O outro foi Carlos Alberto Parreira, que conquistou o campeonato brasileiro em 1984 dirigindo o Fluminense e a Copa do Mundo de 1994, dirigindo a seleção. Eu vi de passagem Parreira dando aula na Escola de Educação Física da UFRJ, um profissional dedicado e estudioso.

No que concerne a Pelé na Copa de 1970, ele nunca fez política e tentou se manter à margem de algum protesto nesta direção. O filme critica a confraternização entre Pelé e Garrastazu Médici, este com aquele sorriso mais falso do que nota de três. Mas, o que se esperar de uma celebridade como Pelé? Já imaginaram o escândalo se ele não tivesse ido lá e depois sido condenado pelos militares?

O medo em um estado opressivo é natural e justificável. Ninguém quer ser preso, torturado, com justificativas falsas e sem direito de defesa!

O que Pelé fez foi se preservar, a si próprio e a sua família, e ninguém poderá, em sã consciência, culpa-lo por isso!

Quando universitário, eu vi estudantes serem presos e torturados, sem terem nenhuma ligação com o Partido Comunista, porque bastava ser simpatizante ou contra a ditadura para ser vítima da repressão. Até hoje, eu não sei como escapei deste suplício. Notem que todos aqueles que sofreram aquela perseguição, anos depois de formados seguiram as suas vidas e alcançaram postos dignos de trabalho. Perdi contato com todos eles, mas duvido que não tenham guardado os traumas daquela época.

Faz parte do estresse de cada um guardar e relembrar os piores anos das suas vidas. A minha mãe passou fome na infância, a família de cinco filhos abandonada pelo meu avô, que não conheci. Um pouco antes de morrer, ela, que era uma pessoa ultra otimista e vista como tal pelos amigos, me fala sobre isso, com lágrimas nos olhos. Esquecendo naquele momento que ela deixou um significativo exemplo de vida para todos nós filhos e amigos, a sua vida toda nunca se queixando de nada, sempre dizendo para a gente fazer o jogo do contente e arrumar uma solução para os problemas enfrentados.

Por tudo isso, acusar Pelé de omissão, logo ele que veio de família pobre e lutou para chegar onde chegou, é um verdadeiro absurdo. Erros ele cometeu, muitas dessas críticas poderiam até ter sido justificadas, mas jamais para empobrecer ou negar as suas conquistas.

Quem é cristão conhece a passagem na qual Jesus defende Maria Madalena e perguntando aos que queriam apedrejá-la se algum deles era isento de pecado. E se fosse, que atirasse a primeira pedra. Ninguém atirou. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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