A vida de Marie Curie, cujo nome foi usado como unidade de radiação nos laboratórios (o µcurie), foi alvo do filme "Radioactive"

A vida complicada de Marie Curie em filme sem muito brilho

A vida de Marie Curie, cujo nome foi usado como unidade de radiação nos laboratórios (o µcurie), foi alvo do filme “Radioactive” (sem tradução aqui).  O filme foi duramente criticado por fãs, mas mostra as vicissitudes do preconceito contra uma cientista mulher e estrangeira no solo onde trabalhou. Vale a pena ser visto.

 

Apareceu esta semana no serviço de streaming do Netflix uma produção do Amazon Studios, sobre a vida da cientista Marie Curie, que foi quem descobriu a radioatividade e foi ela mesma vítima da sua descoberta.

O filme, chamado “Radioactive”, sem o título traduzido, se refere à descoberta pela cientista, das propriedades químicas de alguns elementos, que são capazes de produzir o que ela chamou de “radioatividade”, a emissão de partículas alfa, beta e gama, esta última conhecida como “raio-X”.

A direção coube à diretora iraniana Marjane Satrapi, cuja filmografia parece atraída por este tipo de tema. Madame Curie foi interpretada pela, na minha opinião, super atraente atriz inglesa Rosamund Pike, personagem que faria parceria com seu marido Pierre Curie, interpretado por Sam Riley.

 

O filme atraiu uma série interminável de críticas no IMDb, algumas delas a meu ver injustas, bombardeando os atores, o roteiro e a direção propriamente dita.

A cientista na vida real

Maria Salomea Skłodowska, nascida na Polônia, enfrentou todo o tipo de preconceito, particularmente por ser uma cientista mulher, em um meio predominantemente masculino. Entretanto, o seu trabalho foi muito bem visto e apoiado pelo seu futuro colega, Pierre Curie, com quem iria posteriormente se casar.

Fora Marie Curie quem primeiro percebeu a presença de emissão radioativa, podendo então ser considerada a principal pioneira deste campo de estudo. Mas Pierre Curie era não menos brilhante, e os dois juntos se tornaram recipientes do Prêmio Nobel de Física, em 1903.

Nem Marie nem Pierre se deram conta dos efeitos negativos da radioatividade, e ambos foram vítimas de suas descobertas. Entretanto, a radioterapia foi desenvolvida no combate ao câncer, e o é até hoje, com resultados positivos.

As críticas ao filme

Referências anacrônicas ao ataque a Hiroshima e ao acidente de Chernobil foram duramente criticadas no IMDb. Confesso que não entendi a repudia a essas citações históricas. Evidentemente, que nenhuma delas tem correlação direta com os Curie, porém mostram até onde se pode chegar com o uso da radioatividade.

 

Eu já assisti a alguns filmes de Rosamund Pike que primam pelo excessivo uso de caretas na frente da câmera, mas neste caso a atriz se esforçou em enfatizar o lado narciso da cientista, frente à luta que ela travou para ser reconhecida em um métier abertamente preconceituoso e misógino.

Na vida real Marie Curie foi impedida de publicar seus artigos em periódicos onde havia discriminação ao fato de ela ser polonesa e judia. Isto fez com que ela conseguisse publicar com a ajuda de pseudônimos e com o amparo de seu marido.

O filme faz menção a isso, de forma contundente. Porque muito do que hoje se sabe a respeito dos efeitos nocivos da radioatividade era desconhecido, e então o público daquela época creditava a Marie Curie a “invenção” de algo maléfico!

Não importam as críticas feitas ao filme, ainda assim eu entendo que Radioactive vale a pena ser visto. Até hoje, a ciência é muitas vezes vista com preconceito.

E antes que alguém me acuse de corporativismo, eu gostaria de dizer que muitos cientistas que eu conheci eram pessoas brilhantes, que trabalhavam na obscuridade. Por isso, as suas presenças nos laboratórios jamais irão ser reconhecidas, exceto pelos seus pares mais próximos.

Eu sei que, infelizmente, cientistas podem se tornar narcisistas e vaidosos, semideuses de um universo paralelo de suposta fama de genialidade que eles mesmos criam. Eu aprendi que todos esses que se acham epítomes da ciência pouco ou nada contribuem para a sua evolução.

Marie Curie lutou pela evolução de seus estudos, da forma como podia. Inegavelmente, o seu trabalho trouxe enorme contribuição para o tratamento de doenças crônicas e com alto grau de morbidade e saída letal.

Depois da morte de Pierre Curie, Marie se tornou a primeira professora da Universidade de Sorbonne. Morreu em 1934, vítima de leucemia provocada por radiação. Marie Curie venceu pelos seus próprios méritos, sendo depois reconhecida na França pelo seu trabalho, e não pelas suas origens das quais fora vítima de preconceito. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “A vida complicada de Marie Curie em filme sem muito brilho

  1. Assisti esse final de semana o filme. Recomendo.
    É interessante ver o empenho em produzir ciência acima de tudo e ver que as dificuldades encontradas de certa forma se assemelham a algumas dos dias atuais… vaidade, preconceito, inveja dos incompententes e falta de verba.
    Não gostei muito das referências anacrônicas da segunda guerra e Chernobyl acho que tira o foco principal da descoberta e das dificuldades encontradas.
    Para entender Chernobyl recomendo muito a série de 5 capítulos da HBO .

    • Oi, Bernardo,

      Obrigado pelo comentário, principalmente vindo de você, que é um médico de sucesso e encontrou na ciência uma maneira saudável de evoluir profissionalmente. Parabéns!

      Agradeço as indicações, vou dar uma olhada assim que possível.

  2. Não li as criticas do Imdb em específico, mas acho injusto que o filme seja tão criticado. Particularmente também achei interessante a ideia de inserir as cenas futuras sobre as consequências da descoberta (boas ou ruins!).

    Quem tá assistindo sabe que sempre vai ter algo de ficção no meio, mas gostei bastante do filme. A personagem dela era meio “durona” no filme. Mas após a morte do marido mostra ser um ser humano frágil por dentro, como todos nós.

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