Vocais dublados e ocultos de Hollywood aparecem

Cantores e cantoras que dublaram os atores de sucesso em Hollywood durante anos ficaram escondidos do público, o que só começou a mudar em tempos recentes. O trabalho dedicado do historiador Mark Milano conta essa história.

 

Junto com o aparecimento e a evolução do Laserdisc uma série de informações a respeito da história do cinema em solo norte-americano começou a ser incluída junto com o filme principal. E neste processo, depoimentos sobre os bastidores das filmagens trouxeram uma luz para fãs, entusiastas e estudantes.

Deve ter sido próximo do fim da década de 1980 que o lançamento da cópia restaurada de My Fair Lady em videodisco revelou que alguns de seus atores tiveram os seus vocais dublados, no que tange ao tom operático das composições da peça original, em um alcance vocal que poucos atores seriam capazes de atingir. Assim, revelou-se que tinha sido Marni Nixon quem dublara os vocais cantados de Audrey Hepburn.

Essa foi a mesma Marni, que na década de 1960, havia dublado Natalie Wood em West Side Story. Na década de 1990, a Sony (Columbia) relançou esta trilha em CD, mas retirada das gravações originais do filme, e não daquela feita para a edição em elepê. E no encarte, ela cita os vocais de Marni Nixon para Natalie Wood, e ainda Jim Bryant para Richard Beymer (Tony), Betty Wand para Rita Moreno (Anita), mas ainda não é citado Tucker Smith para Riff (Russ Tamblyn) na canção The Jet Song. Tucker canta com sua própria voz em “Cool” (a cena da garagem), Rita Moreno e George Chaquiris cantam com suas próprias vozes em “America” (cena do telhado).

 

Em depoimento para a CBS Marni Nixon relata as suas vicissitudes profissionais:

 

 

No depoimento, vale a pena destacar o contrato de ferro com a Fox, proibindo-a de divulgar publicamente que estava dublando Deborak Kerr em The King And I, sob pena de nunca mais trabalhar em Hollywood! E quando Natalie Wood soube que a sua voz havia sido substituída pela de Marni a atriz ficou uma fera e abandonou o set de filmagem. Algo parecido aconteceu com Audrey Hepburn, cujos vocais foram recuperados durante a restauração de My Fair Lady, lançada em videodisco.

Marni Nixon pode ser vista na tela, finalmente, como a Irmã Sophia, no musical “A Noviça Rebelde”. A sua aparição, entretanto, é discreta. Como Marni fez a voz de Eliza em My Fair Lady e Julie Andrews (Maria) tinha interpretado a personagem no teatro, esta última fez questão de afirmar que não havia nenhum constrangimento entre as duas!

Os vocais perdidos

Graças ao trabalho, que imagino ter sido penoso, do historiador Mark Milano, que tem um canal no YouTube, com o nome de “Lost Vocals”, ou “Vocais Perdidos”, e onde ele faz um tributo a todos os cantores e cantoras que emprestaram as suas vozes em filmes nos quais nunca tiveram crédito!

Vale a pena, para quem realmente gosta ou é fã de cinema, assistir todos esses vídeos. Dentre eles, destaco dois, com a primeira e a segunda parte desta mesma história:

 

 

Eu garanto que muita gente vai ficar surpresa com a presença de clássicos, como por exemplo “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, onde, à exceção de Howard Keel e Jane Powell, todos os outros vocais, masculinos e femininos, foram dublados.

A magia do cinema na tirania de Hollywood

Historiadores relatam em profusão como Hollywood era dirigida por imposições draconianas. Os principais grandes estúdios foram fundados por imigrantes judeus, que forçaram a sua entrada na sociedade mudando seus nomes, devido ao antissemitismo presente na América durante décadas. Foi exatamente por causa disso que eles saíram de países como Alemanha, Polônia ou Rússia, e tentaram sair de suas origens humildes de alguma forma. O cinema foi uma dessas formas, o que lhes empoderou substancialmente. Na California, puderam comprar terra barata, construir estúdios imensos, e até, em alguns casos, ter a sua própria prefeitura, polícia, atendimento médico, etc.

O medo da discriminação racial, entretanto, continuou presente, e não foi à toa que o cinema se tornou veículo de entretenimento dirigido às classes menos favorecidas e principalmente à classe média, no formato do chamado “sonho americano”, que consiste em sair da pobreza ou situação remediada para uma posição social de sucesso, com plena aceitação da sociedade local.

Por isso, alguns fatores tinham que ser impostos na prática: um deles se refere à qualidade técnica dos filmes. Outro é a elaboração de roteiros que dessem ênfase aos valores de família, para que a plateia pudesse sair feliz das salas de exibição. E deu certo, porque durante anos a fio os cinemas ficavam lotados, vivenciando um tipo de diversão sadia, barata e de qualidade. Essa coisa de “filmes para a família” se tornou anedota dentro do próprio cinema, em filmes pós studio system.

O perfeccionismo exigido e obtido pelos realizadores foi o principal motivo pelo qual os estúdios decidiam dublar atores. O histórico da dublagem está muito bem descrito na comédia musical “Cantando na Chuva”, onde o roteiro faz uma compilação sobre a transição entre o cinema mudo e o falado, época na qual muitos atores perderam os seus empregos por causa das vozes inadequadas ao cinema falado. O que os estúdios claramente queriam evitar era a correlação entre personagens e vozes que não “casavam” entre si. No filme da M-G-M Lina Lamont era bonita na tela e então não poderia aparecer em público com aquela voz estridente e esganiçada.

A propósito da personagem, a atriz Jean Hagen tinha na vida real uma voz doce e encantadora. Ela pode ser vista neste segmento de outro filme, onde ela, por coincidência, canta em cena uma música de Cole Porter:

 

 

Jean Hagen, ironicamente, dubla Debbie Reynolds (Kathy Selden), que a dubla em cena para o novo filme musical de Lina Lamont.

O enorme número de filmes, passados e recentes, prova que, essencialmente, Hollywood nunca mudou de fato, ficando presa às suas raízes comerciais e de entretenimento.

Se, por um lado, isso foi bom, por outro provocou a destruição de atores e diretores, limitando-os em seus processos criativos. A intimidação se tornou a face oculta dos donos dos grandes estúdios, e só recentemente este assunto pode vir à baila, nos depoimentos daqueles que se sentiram atingidos e/ou prejudicados.

Atualmente, é público e notório que Hollywood se tornou uma coleção de filmes de qualidade técnica indiscutível, mas misturada com roteiros sem nenhuma criatividade ou com algum tipo de contribuição ao que já feitos décadas atrás.

O trabalho do historiador Mark Milano faz uma justa homenagem aos cantores “fantasmas” que nunca tiveram crédito, uma espécie de “unsung heroes” (“heróis anônimos”), em um mundo voltado muito mais ao lucro desenfreado. Milano fez uma montagem com a interpolação dos vocais originais e das dublagens, às vezes parciais. Ele diz que recuperou gravações depois de implorar (imaginem) a quem tinha fontes de áudio desses segmentos, para poder completar o seu trabalho.

As dublagens nunca ficaram restritas a Hollywood. Quem assistiu o clássico de Jacques Demy “Les Parapluies de Cherbourg” (no Brasil, “Os Guarda-chuvas do Amor”), se viu diante da quase totalidade dos atores com vozes de cantores profissionais.

Eu até hoje acho importante que a história do cinema seja resgatada. Todo e qualquer movimento neste sentido tem um valor inestimável. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

5 comentários sobre “Vocais dublados e ocultos de Hollywood aparecem

  1. Bom dia, Paulo. Que belo texto. Coincidentemente revi ontem o “Cantando na Chuva” e que cena hilária aquela dos microfones ocultos nas flores!
    Abraço.

    • Oi, Celso, eu também gosto muito do Cantando na Chuva. Gene Kelly declarou uma vez que eles pesquisaram aquela transição do mudo para o falado junto aos veteranos do estúdio, que a viveram naquele momento. A M-G-M notabilizou-se por ser a última dos grandes estúdios a aderir para o cinema falado.

  2. Bom dia, Paulo. Meio fora do contexto, estou revendo “Lawrence da Arábia” em dvd com uma duração de 229′. Essa seria a metragem definitiva? Sempre tem aquela versão do diretor, não é mesmo?
    Abraço.

    • Oi, Celso,

      Sem problema, amigo.

      A metragem original e que foi usada na tentativa de restauração tem 222 minutos. Mas ao final, a restauração terminou com duração de 227 minutos, portanto o DVD está correto. Não posso te dar estes dados com certeza, porque eu não tenho mais o DVD há muitos anos. O Blu-Ray tem 227 min, incluidno abertura, intervalo, etc.

      Segundo o IMDb, o filme teria sido lançado com 202 min, não sei em que bitola. Na última edição em 4K, que eu não tenho, estão incluídos o tratamento da imagem com Dolby Vision e trilha remasterizada com Dolby Atmos.

      O filme foi rodado em Super Panavision 70, e acho que teria sido melhor transferor a pelo menos 6K, mas o estúdio sabe o que faz, imagino.

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