A atual pandemia desmascara o eterno descaso das administrações públicas na manutenção da saúde e da educação.

Tem problemas que, quando aparecem, escancaram muitos outros

A atual pandemia desmascara o eterno descaso das administrações públicas na manutenção da saúde e da educação. Nunca houve, e parece que nunca vai ter, planejamento para antecipar e resolver problemas as áreas, sem as quais nenhum país consegue sobreviver com decência.

 

Eu passei os meus últimos 8 anos de carreira dentro do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, tendo transferido a minha lotação para o Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da UFRJ, onde encerrei a minha vida acadêmica.

No final da década de 1980 um colega e eu desenhamos uma estrutura de laboratório ideal para a pesquisa de temas ligados à Biopatologia. Eu havia trabalhado cerca de uns 5 anos como assistente da linha de pesquisa deste colega, rotulada como “Pulmão de Choque”, tema muito complexo, do grupo das síndromes respiratórias agudas (ou ARDS), de extrema gravidade, e no qual este colega se debruçou décadas a fio.

O então diretor do HUCFF, o Professor e Cardiologista José Ananias Figueira, nos chamou para uma conversa, e nos pediu ajuda para construir um laboratório dentro de uma área desocupada do hospital. Depois disso, eu viajei e soube que aquele laboratório estava em construção. Infelizmente, quando eu voltei, haviam todo tipo de problemas lá dentro. O meu colega e antigo mentor se aborreceu e se aposentou. No laboratório parte do nosso antigo planejamento estava lá, mas nada de equipamento ou reagentes, ou seja, não consegui fazer absolutamente nada da antiga pesquisa. O diretor não tinha culpa, porque cabe ao pesquisador conseguir verbas para fomento dos projetos, e eu, por experiência, sabia que sem o devido apoio político, não se conseguia nada! Então, eu encerrei a minha vida universitária praticamente jogando fora todo aquele esforço de aumentar a minha graduação e orientar alunos.

A raiz de todos os problemas

A minha mãe, que foi criança pobre em uma cidade do interior do antigo Estado do Rio, nunca chegou sequer ao ginasial. Mas, não obstante, ela me dizia que para todo o problema existe uma solução, que é preciso ter consciência do que vai se fazer, ou seja, me interessar por tudo e arrumar as devidas ferramentas com as quais os problemas à frente serão resolvidos. E, sim, sempre arquitetar um plano B, caso o primeiro acabe não dando certo.

No Laboratório Multidisplinar de Pesquisa, construído naquela administração, um belo dia, o diretor que veio a seguir me pede para que eu assumisse o cargo de administrador, com o objetivo de criar uma interface burocrática de contato com a direção.

Mas, eu fiz mais do que isso. A primeira coisa foi um levantamento dos problemas pendentes. Eu costumava almoçar com colegas engenheiros, os quais conheciam muito bem as mazelas de manutenção do HU, e me deram pilhas de conselhos. Então, após assumir o cargo, eu fui imediatamente para a engenharia e pedi apoio.

Mas, só isso não bastava. O hospital, por sua notável complexidade, tinha um exército de técnicos, que faziam todo o tipo de manutenção, muitos deles chamados de “peões”. Então, eu fiz o que o bom senso me mandava: todo técnico que entrava no nosso laboratório era recebido por mim, e eu solicitava a quem chegava que, diante de qualquer problema, fosse falar comigo.

Pois não foi que aconteceu que um dos “peões” estava com problemas de consertar o reparo da válvula de um dos banheiros, que era antiga e difícil de reparar. Ele me contou do problema, eu então sugeri a ele parar tudo, sair para tomar um café, esfriar a cabeça e depois voltar e tentar de novo. Passado algum tempo, eu já havia até esquecido do tal problema, quando vem na minha direção o técnico com um baita sorriso, me dizendo “Professor, consertei”!

Em relativo curto espaço de tempo, todos os técnicos do hospital, sem exceção, passaram a se sentirem valorizados quando desempenhavam as suas tarefas no nosso laboratório, e, para surpresa de alguns dos meus colegas professores que tinham dificuldades neste tipo de interface, eles passavam por lá, espontaneamente, para saber se a gente precisava de alguma coisa.

Os meus anos de vida em hospital daquela complexidade, classificado como terciário, devido à realização de cirurgias e tratamentos avançados, me mostraram a enorme dificuldade de manter aquela estrutura funcionando como devia. A luta contra a falta de verba foi um dos gravíssimos problemas que todos os diretores que eu conheci enfrentaram. O assim chamado SUS nunca cobriu como devia as despesas de laboratório, consultas e exames.

Ora, dias atrás, e na vigência de uma pandemia cruel, eu assisto nos noticiários da TV os mesmíssimos problemas enfrentados pelo HUCFF, e pior, estendidos a outros centros e departamentos do resto da Universidade. Com a ameaça de fechar as portas, a pergunta que alguém poderia ser fazer seria: faz sentido tanto desperdício de recursos?

Olhando em retrospecto todos os problemas enfrentados a nível nacional o que se nota claramente é que a palavra “planejamento” não existe na cabeça dos nossos administradores, e, sinceramente, nem na cabeça da maioria das pessoas que fazem parte da população deste país.

O assim chamado “Ministério do Planejamento” teria sido a solução de tudo isso. Criado no governo João Goulart, sofreu hiatos, mas foi depois ressuscitado pelos militares. Se alguém se der ao trabalho de ler os credos da sua criação poderia achar que o Brasil teria sido um país economicamente viável, mas, se, e somente se, houvesse alguma previsão de planejamento.

Não importa o que digam em contrário, contra fatos não há argumentos. E a minha vida universitária me mostrou isso. A desorganização infra estrutural, que resulta em crises seguidas, sugere que a manutenção de qualquer instituição pública de peso estará perenemente em risco! Sem falar no aniquilamento do esforço de anos seguidos, por aqueles que passaram por estas instituições na esperança de dias melhores. Afinal, destruir é muito mais fácil e rápido do que construir.

Os reflexos escancarados durante a pandemia

Não é preciso ser vidente, para perceber que bastou a chegada desta atual pandemia para que todas essas falhas que mencionei, e tantas outras que ainda faltaram mencionar, escancarassem que saúde e educação nunca foram prioridades das administrações públicas. No discurso político, os candidatos se propõem a resolver de vez este tipo de falha. Na prática, entretanto, não resolvem nunca!

Não é preciso ser santo milagreiro para se planejar antecipadamente a solução de qualquer problema, mas é preciso interesse político sem ambição de cargos ou poder. A história nos mostra que a Europa saiu arrasada da Segunda Guerra Mundial e a primeira coisa que foi feita por lá foi criar infraestrutura. Sem ela, não haveria chance de recuperação das atividades essenciais daqueles países.

Se o nosso Ministério do Planejamento se propõe apenas a controlar draconianamente as verbas dos governos, então é óbvio que planejamento mesmo nunca haverá, somente nos discursos dos candidatos a cargo de qualquer coisa.

É triste saber que não só o HUCFF como outros hospitais universitários, como, por exemplo, o Hospital Pedro Ernesto, da UERJ, estão, junto com o conjunto das universidades federais brasileiras, com o pires na mão, pedindo por favor, para não fecharem as suas portas.

A minha mãe tinha razão quando dizia que para todo problema existe uma solução. Se os responsáveis pela preservação da vida deste país não têm interesse em consegui-las, nós estaremos o tempo todo à mercê da sorte.

A pandemia provocada pela presença deste vírus traiçoeiro escancara não só a omissão dos administradores públicos, mas o despreparo e a incredulidade de enorme parte da população quanto à virulência e o êxito letal da doença, prova inequívoca e conclusiva de que sem saúde e educação nenhum país irá para a frente! Outrolado_

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Fortaleça o sistema imune contra o Coronavírus

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Tem problemas que, quando aparecem, escancaram muitos outros

  1. Paulo, enorme satisfação em poder ler um artigo com tanta capacidade e conhecimento.
    Hoje se tivesse mandado parlamentar ao Senado da República, iria convidá-lo para compor uma das cadeiras da C.P.I. da Covid-19, para que se possa fazer ouvir das suas muitas teorias, que todos nós estamos vivenciando “na pratica”
    Eu o parabenizo pela matéria.

    • Olá, Rogério, muito obrigado pelo elogio.

      Não sei, entretanto, se a minha palavra, mesmo que esclarecedora, iria ter alguma ressonância naquele ambiente. Nos poucos momentos em que eu assisti a transmissão da CPI o que eu percebi de imediato foi o discurso político dos que querem derrubar a atual administração e aqueles que querem mantê-la a qualquer custo.

      Dos momentos que eu assisti, um dos poucos depoimentos lúcidos na CPI foi o da médica Luana Araújo, que falou com clareza aspectos da medicina e da ciência. Mas, alguém ali ouviu?

      Na minha visão, a proposta de tratamento da covid-19 com ivermectina ou cloroquina e seus derivados é irresponsável, anti-ética, para não dizer criminosa, porque ilude quem se trata de que essas drogas tem efeito preventivo ou curativo.

      Trata-se também, note, um desrespeito ao protocolo de investigação que exige o estudo da biotransformação e biotoxicidade de qualquer medicamento que venha a ser administrado em pacientes!

      Ora, não é preciso ser cientista ou médico, para entender que o enfrentamento de uma pandemia deste tipo só se fará com uma vacinação correta na população atingida. Menosprezar a gravidade dela é imprudente, e no caso dos administradores públicos, aqueles que estão lá para servir quem neles votou, é querer tapar o sol com a peneira, o que, convenhamos, nunca vai dar certo!

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