Deterioração da mídia ótica

O fantasma da deterioração da mídia ótica

A mídia ótica pode dar problemas na leitura e deve ser conservada com todo o escrúpulo possível. A deterioração da mídia é o fantasma de qualquer colecionador e nem sempre se acha uma solução a contento.

 

Um assunto que, de tempos para cá, somente importa aos colecionadores de disco, estes cada vez em menor número, é o medo de perder a mídia ótica usada para a sua coleção.

Quando o CD foi lançado no início da década de 1980 a Philips prometeu a quem usasse um som com alta durabilidade, e assim foi. Porém, vários problemas de deterioração de mídia ótica já tinham crepitado no videodisco, mais especificamente no DiscoVision, e isso assustou muita gente que eu conheço. E depois os usuários que extravasaram as suas preocupações a este respeito, junto com o nascimento e propagação dos fóruns na Internet.

Inicialmente, nunca foi divulgado que a área do selo do disco prensado era mais fácil de ser danificada, porque uma camada de plástico acrílico refletiva, que fica situada na parte superior do disco, é de pequena espessura e apenas coberta com a tinta do selo. No lado oposto, a proteção é maior. Se o CD for arranhado ele poderá continuar tocando como se nada houvesse acontecido. Os arranhões radiais são praticamente inofensivos, mas os concêntricos são perigosos, por isso quando se lava a mídia, como por exemplo com detergente neutro e água, é sempre recomendável fazer movimentos radiais com os dedos ou flanelas.

No caso dos CD-R a situação de deterioração está presente, mas as causas são outras. A principal delas é o tipo de corante usado na fabricação dos discos, algo super crítico nos discos do tipo regravável, os CD-RW. Mas, como nem sempre a deterioração atinge todos os dados, existem por aí ferramentas capazes de resgatar arquivos de importância contidos nos back-ups.

A minha experiência nesse assunto

Eu coleciono discos óticos desde o aparecimento do CD, e até recentemente não tive um só caso de deterioração de mídia.

O mesmo não aconteceu com os primeiros DVDs: vários discos de dupla camada começaram a não reproduzir o início da segunda camada e congelando a reprodução do resto do disco.

Os colecionadores mais antigos devem se lembrar que os primeiros players para DVD eram muito lentos na hora de trocar as camadas, por uma série razões. Isto proporcionava um intervalo momentâneo na reprodução do vídeo, e caso a segunda camada não fosse lida, a reprodução parava por aí.

A Warner foi uma das primeiras a serem atingidas por este problema, e com o tempo, as investigações nas fábricas de prensagem revelaram deficiências na cola que aglutinava a segunda camada, e isso só foi resolvido depois de um longo período de tempo.

No passado distante, eu tinha conhecidos no laboratório da Sony, que ficava aqui no Rio de Janeiro, e a pedido de um deles eu entreguei um DVD de dupla camada com defeito, a ser enviado ao Japão para exame.

A minha experiência mais recente foi com um CD que eu comprei usado

As condições de armazenamento de mídia ótica orientam o usuário a estocar a mídia em ambientes secos, o que, convenhamos, em um país como o nosso nem sempre é possível. Nos nossos laboratórios da Cidade Universitária se fazia uso de desumidificadores o tempo todo, mas dentro de casa tal solução é impraticável.

Até recentemente, as minhas pouquíssimas perdas se restringiram a discos CD-R e CD-RW principalmente. E nunca de um CD prensado comercialmente!

Mas, aconteceu de que, dias atrás, eu resolvo tocar a gravação “Digital Space”, gravado digitalmente pela Varèse Sarabande, bem antes do aparecimento do CD no mercado.

Eu tomei conhecimento do impecável Lp desta gravação quando fui visitar o show room da fábrica da Embrasom, cujo conjunto de áudio da sua melhor linha eu adquiri posteriormente. O modelo Tonos ST-200 havia sido desenhado pelo projetista Ari Braga, conhecido de todos os audiófilos desta cidade. As caixas da Tonos foram projetadas por um conhecido de um amigo meu, mas eu só o conheci de passagem.

Perto daquela época, eu também comprei o Lp da Varèse. A edição em CD custou a sair, e eu me distraí no seu lançamento, indo comprar um CD usado pela Amazon, em meados de 2009.

Este CD usado estava em perteitas condições de uso, mas, de repetente, sem nenhum aviso, arranhão ou sinal de deterioração, ele começa a produzir um ruído alto misturado com a música, lembrando clipping de estágios de saída dos amplificadores, lá pelo meio da faixa 7. Dali em diante, o ruído começou a ficar insuportável, exibindo total prejuízo de reprodução na faixa 12, a última do disco.

É perfeitamente possível obter erros de leitura causados por algum detrito na área de leitura, invisível a olho nu. Uma simples limpeza com detergente neutro e com secagem cuidadosa este tipo de erro desaparece. Mas, neste caso, não desapareceu. Então, eu levei o disco para o meu computador, e o resultado me deixou surpreso:

 

Com 99.3% de erros de leitura constatados é de se admirar que o disco possa ter sido reproduzido até a faixa 6 sem ruídos. Uma simples cópia 1:1 da mídia resolveu um problema similar que eu tive com um CD-R importante, mas neste caso o computador se recusou a fazer a cópia, acusando erro de leitura.

Existem cópias deste disco à venda, usadas, e com preço elevados. Antes de partir para uma aventura de compra, eu resolvi tentar o resgate das faixas com o meu editor de áudio, o programa Adobe Audition, capaz de extrair música de discos de áudio e vídeo. Dei sorte, porque aparentemente o algoritmo de leitura do programa conseguiu contornar os erros de leitura e extraiu todo o conteúdo. Eis aqui uma captura de tela, da trilha do filme Star Wars, faixa 7, a primeira a dar problemas de ruído:

 

O leitor não familiarizado com este tipo de imagem poderá notar visualmente que ela mostra uma diferença de amplitude (medida em dB com escala na direita e indicação do tipo “bargraph” em baixo) entre os momentos mais silenciosos da peça e os mais intensos, quando então a orquestra ataca a partitura com vigor. A propósito, esta foi a primeira gravação digital de Star Wars, o que deu crédito comercial ao álbum da Varèse.

Desnecessário dizer que o Adobe Audition, que herdou seus algoritmos do Cool Edit Pro, feito originalmente pela Syntrillium, na sua versão 3.0, igualmente descontinuada, é uma das mais importantes ferramentas de áudio que eu já usei, seja para recuperar e/ou autorar gravações, seja retirar ruídos de elepês surrados.

Dá para perceber que os anos passam e, diante das circunstâncias, é quase um milagre ter a chance de ouvir novamente gravações historicamente importantes para quem as coleciona. A indústria fonográfica entrou em franco declínio, dificultando mais ainda a recompra de mídia.

Em tempos de streaming a incapacidade de recuperar essas gravações se torna um pesadelo, e por isso não é à toa que se vê à venda discos usados ou semi-novos com elevado preço, independente da mídia ser digital ou não.

A obtenção de gravações por download teria se tornado uma ótima oportunidade de se conseguir álbuns importantes, mas esta promessa ou ficou restrita aos países dos sites de origem, ou se restringiu a gravações pouco interessantes.

Neste caso, eu fiquei, é claro, feliz por ter recuperado o meu disco. Todos nós colecionadores temos sempre alguma história para contar, a respeito de muitas gravações. E aqui, o álbum da Varèse, que certamente merecia uma edição em SACD, faz parte deste contexto. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “O fantasma da deterioração da mídia ótica

  1. Olá Paulo. Matéria de leitura obrigatória tanto para cinéfilos quanto para audiófilos. Eu mesmo quase entrei em pânico quando notei uma macha de bolor em uma mídia de filme em DVD, que com muito custo consegui copiá-la para o formato .iso e depois re-copiar para outra mídia nova e de boa qualidade. Esse realmente é o maior temor e problema dos colecionadores. Mas até hoje (que eu tenha conhecimento) não se lançou algum produto que tivesse a propriedade, ou fosse efetivo na proteção de mídias.

    • Olá, Rogério,

      Eu acho que lançaram sim, mas para quê alguém iria usar produtos deste tipo? Porque na maioria das vezes é jogar dinheiro fora e não resolver o problema. Em casos de sujeira aparentando fungo o mais prático é lavar o disco com detergente neutro. Não use qualquer outro produto de limpesa, principalmente os que contém etanol. Depois lavado o disco deve ser cuidadosamente secado, antes de ser reproduzido.

      E dependendo do nível ou tempo de uso dos drives é sempre interessante limpar a lente do pickup ótico com um cotonete embebido com álcoor isopropílico. Sobre este, eu queria alertar o seguinte: qualquer álcool tende a absorver água. O ideal seria usar álcool isopropílico PA, que é 99% puro, mas este produto custa muito caro. Assim, deve-se comprar o álcool de um fornecedor confiável. Eu comprei o da Implastec e nunca tive problema. Mas, mesmo assim, se o uso não for grande deve-se comprar um frasco pequeno e mantê-lo bem fechado.

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