A instalação do Windows 11: uma opinião crítica

A instalação do Windows 11 traz à baila imposições de pré-requisitos, algumas absurdas. Como o sistema oficial só estará disponível lá pelo fim do ano ou início do ano que vem é possível que algumas dessas restrições sejam abandonadas, caso contrário um número muito menor de usuários se interessará pelo novo sistema.

 

Não foram poucas as vezes que eu assisti a Microsoft anunciar fundos e mundos revolucionários durante o lançamento de um novo sistema operacional, com promessas que às vezes acabaram redundando em sonoros fracassos. Portanto, é sempre aconselhável esperar para ver o que acontece, antes de embarcar no entusiasmo diante de um novo sistema operacional que vem por aí.

Eu não sou da área de informática, mas tenho uma vasta experiência de vida nisso. No passado escrevi programas para uso no laboratório e para o trabalho experimental, saindo das plataformas de 8 bits (MSX) para 16 bits (IBM).

No início da década de 1990 o Windows ainda era incipiente. Com o tempo, a Microsoft lançou o Windows 3.0 e logo a seguir o 3.1, com o qual eu desenvolvi o meu trabalho experimental e a minha tese de doutorado.

Nesta época eu morava em Cardiff. Voltando ao Brasil, eu fui testemunha e fui usuário da maioria das versões do Windows, todas em plataformas IBM-PC, as últimas das quais eu montei com componentes avulsos.

Diante da minha experiência de vida nisso tudo, eu nunca teria imaginado que se chegasse ao ponto de ver o último lançamento do Windows com tantos percalços e empecilhos na sua instalação, a serem enfrentados pelo usuário final, algo até agora inexplicável.

Como também ficou inexplicável a própria Microsoft ter dito claramente que o Windows 10 seria a versão definitiva daquele sistema, apenas com a modificação das versões, segundo o ano e o semestre.

Porém, mais tarde a Microsoft anunciou o término de suporte para o Windows 10, para logo a seguir anunciar que haveria um Windows 11. Ora, se um novo Windows estava sendo desenvolvido, porque então dizer que não haveria outra versão do sistema?

Ontem, dia 24 de junho de 2021, a empresa lançou oficialmente que haveria uma plataforma operacional chamada de Windows 11, mas não sem antes, intencionalmente ou não, vazar cópias de desenvolvedores, as quais foram avidamente baixadas por aqueles que queriam ver logo do que se tratava.

O início dos percalços

Bastou o Windows 11 ser oficialmente lançado, para que os usuários começassem a receber as más notícias, as quais pretendo comentar criticamente aqui:

Todo e qualquer sistema operacional é sempre divulgado com os chamados “requisitos mínimos”, para que ele possa rodar como devia. Esses pré-requisitos são normalmente bastante conservadores e, diga-se de passagem, alguns até satisfatoriamente contornáveis por modificações extemporâneas em máquinas inadequadas. Mas, até agora, eu nunca tinha visto pré-requisitos tão draconianos! A impressão que nos passa é que uma era de censura ao uso de um sistema operacional começa a ser inaugurada.

A inspeção do sistema

Inicialmente, é aconselhável o usuário verificar se o computador onde o Windows 11 será instalado estará apto a recebê-lo, mas isso não é novidade. Uma ferramenta da Microsoft, com o nome “PC Health Check” está disponível para esta verificação.

Rodando esta ferramenta, eu fiquei surpreso ao saber que a minha máquina, cujo hardware é relativamente recente e atualizado, não poderia receber o Windows 11:

 

E, é claro, eu quis sabre por que. Entrando no link “Learn More” chega-se a uma página onde estão descritas as configurações mínimas para o uso do Windows 11, e é neste momento em que os absurdos aparecem.

Por exemplo, o computador precisa estar equipado com sistema gráfico capaz de atender ao protocolo do Direct X versão 12. O firmware (BIOS) da placa-mãe tem que obrigatoriamente ser do tipo UEFI e ter o Secure Boot (partida segura) capaz de reconhecer o Windows.

Mas, o pior ainda vem por aí. Em muitos computadores existe um sistema de proteção chamado de “Trust Platform Module” (ou TPM), que consiste no uso de um chip montado ou inserido em um header na placa-mãe (veja abaixo), para que o Windows possa fazer uso de criptografia de drives ou arquivos, um recurso com o nome de Bitlocker.

 

Em muitos modelos de placa-mãe recentes o TPM é obtido por uma modificação do firmware (BIOS). No caso específico da AMD o software leva o nome de fTPM, ou TPM por firmware. Uma vez habilitado, o fTPM trabalha na versão 2.0, atendendo assim às exigências da Microsoft para a instalação do Windows 11. E a partir daí, a ferramenta passa a certificar que a instalação é possível, caso não haja outro impedimento. Foi o que aconteceu comigo:

 

Este pré-requisito sobre TPM também pode ser confirmado no ambiente do sistema operacional. Rodando a ferramenta “tpm.msc”, embutida no Windows 10, aciona-se o respectivo gerenciador:

 

No quesito DirectX versão 12, o usuário tem que rodar o aplicativo “Direct X Diagnostic Tool”, para verificar se o sistema está apto. Para isso basta digitar o comando “dxdiag” no prompt de execução do Windows 10. Na minha instalação, o resultado foi esse:

 

Caso este quesito não seja satisfeito poderá ser necessário atualizar o driver de vídeo ou até mesmo ter que trocar o adaptador gráfico para um modelo compatível.

Também são itens obrigatórios rodar o sistema em modo UEFI e com partida de segurança (Secure Boot). Se o Windows anterior tiver sido instalado sem o modo UEFI, o computador não poderá rodar o Windows 11. A solução seria reinstalar o Windows 10 novamente, convertendo a formatação do drive de sistema, de MBR para GPT.

Ainda dentro da minha instalação atual, como eu uso uma placa-mãe Crosshair VII Hero, a presença do firmware UEFI permite satisfazer estas exigências, que são: rodar o Windows em modo UEFI e habilitar o Secure Boot, e isso já acontece desde a instalação do Windows 10, com o drive do sistema em formatação GPT. Foi por causa disso, inclusive que o exame da minha instalação operacional ficou restrito à habilitação do fTPM, um recurso que eu nunca usei.

Cuidados necessários

Esta imposição absurda e injusta de fazer o computador rodar com módulo ou software TPM em princípio não traria nenhum prejuízo. Porém, se o usuário resolver acionar o Bitlocker, aí a coisa muda de figura. As chaves de criptografia precisam ser escrupulosamente guardadas. A perda delas implica na impossibilidade de acesso aos drives ou arquivos criptografados. Se este drive for o de partida do sistema, o usuário fica impedido de rodar o sistema operacional! Portanto, se o recurso TPM for habilitado, todo cuidado é pouco!

Notem que nada impede que este recurso seja habilitado e o Bitlocker não ser usado. Para acionar esta proteção é preciso entrar nas configurações do sistema e rodar o gerenciador de criptografia. O ajuste default é desligado, tanto na chave geral (Sistema), quanto nas dos drives ou arquivos. O usuário terá que clicar na opção para ligar a criptografia. Na figura abaixo ela aparece como “Turn bitlocker on”, para o sistema e para os drives. Para drives externos a mesma opção está disponível mais abaixo.

 

 

A instalação do Windows 11 deverá seguir todas as exigências listadas, quando o novo sistema for finalmente lançado em um futuro próximo, dando tempo assim para o usuário adequar a sua plataforma operacional, se for o caso.

Ponderações sobre o processo de instalação

A Microsoft já deixou bem claro a quem roda a ferramenta de avaliação do sistema, que o Windows 11 só vai estar oficialmente disponível para download e instalação lá pelo fim deste ano e/ou início do ano que vem. Então, fica no ar a pergunta: vale a pena instalar o Windows 11 agora, usando para tal uma cópia de desenvolvedor?

Se o leitor me permitir, eu aconselharia a não instalar nada agora, independente do computador ser “aprovado” para rodar o Windows 11. Todo sistema operacional tem uma parcela maior ou menor de erros de programação (“bugs”), portanto é absolutamente normal que, na ocasião do lançamento, qualquer sistema esteja povoado de problemas que nem os programadores perceberam. A versão de desenvolvedor, aquela “vazada” pela Internet, cai em uma situação desse tipo.

É certo que algumas demandas de configuração são pertinentes a exigências de hardware bastante razoáveis. Por exemplo, em um computador dos dias atuais o banco de memória não deve ser menor do que 4 GB de RAM. Ou então, instalar um drive de instalação do sistema com menos de 250 GB de espaço utilizável.

Por outro lado, exigir conexão com a Internet para o sistema ser instalado e/ou usado, é um verdadeiro absurdo! Ou obrigar que o usuário esteja usando um display de alta definição, com um mínimo de 720p de resolução.

Eu posso estar enganado, mas é ainda possível que a Microsoft reveja estes famigerados quesitos de exigência. Se ela não o fizer, duas coisas poderão acontecer: a primeira, a exclusão de um número provavelmente astronômico de usuários que não querem comprar um computador novo ou fazer qualquer modificação no atual; a segunda, que os hackers de plantão irão povoar a Internet de mutretas para tornar a instalação e o uso do Windows 11 possível, o que, aliás, já o fazem agora. E isto é potencialmente perigoso, por exemplo, deixando frestas abertas para a invasão e exploração do sistema do usuário.

O Windows 10, malgrado qualquer queixa que se possa fazer a seu respeito, é suficientemente estável e seguro, para uso diário. Não se sabe ainda que vantagens concretas o Windows 11 irá trazer. Acreditar em propaganda neste estágio é uma ilusão na qual nenhum usuário que depende da sua máquina deverá embarcar!  Outrolado_

 

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Avaliação dos pré-requisitos para instalar o Windows 11

As mudanças na atualização do Windows 10

5 anos de Windows 10. Haverá Windows 11?

 

 

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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