Museu de cinema carioca? Para quê?

A minha esperança de um museu de cinema carioca esvaneceu-se anos atrás. Parece até que a cidade nunca teve um histórico tão rico, com salas, estúdios e distribuidoras deste segmento. As sucessivas prefeituras olham para o turismo e para a rede hoteleira e festas populares, para o resto eles não estão nem aí!

 

Eu estava, dias atrás, ouvindo algumas trilhas sonoras do compositor Henry Mancini, de quem fui fã desde criança. E em um certo momento eu ouço o tema principal do filme Darling Lili (no Brasil, “Lili, Minha Adorável Espiã”), com o título “Whistling Away The Dark”. Aí, aconteceu o inevitável: as minhas lágrimas rolaram rosto abaixo, cortesia da lembrança daquele momento da década de 1970, quando, um certo dia, resolvi ir ao cinema, para uma sessão de fim de tarde.

 

 

O Cinema Tijuca, antigo Eskye-Tijuca, localizado na galeria Eskye, havia sido alvo de uma reforma radical. A aparelhagem, soube depois pelo Orion Jardim de Faria, foi trocada de um par de projetores Meopta por um par novinho de projetores Incol 70/35. Eu contei ao Orion que, durante aquela reforma, um funcionário do Eskye, que me conhecia como frequentador, me confidencia que havia acabado de chegar uns projetores “super luxe”, mas não soube dizer de que marca eram. Eu pensei se tratar de projetores importados de 70 mm, instalados durante a onda do formato naquela época! Pois sim…

Mas, quando naquele dia eu entrei na sala, me dei conta de que eu era um dos poucos, talvez o único, assistindo aquela magnífica projeção da película 70 mm, com aquele exuberante som estereofônico, típico do formato. A bitola de 70 mm tem um fotograma de 5 perfurações de altura, 1 perfuração a mais do que o filme 35 mm. E isto é suficiente para arrastar a película mais rápido nas cabeças de leitura da banda magnética gravada no filme. O resultado é um som superior em qualidade e dinâmica.

E lá estava eu, vendo aquela projeção fantástica, com som envolvente, sozinho no cinema. Não entendi nada! Como era possível não haver público, na presença de um espetáculo daquela magnitude?

Os operadores do Tijuca tinham um hábito maluco de cortar a abertura dos filmes 70 mm, de forma que Darling Lili começa direto na figura de Julie Andrews, vindo na obscuridade ao longe, com a câmera se aproximando em close, até que se perceba que ela está cantando em um palco de teatro em Londres, em plena Primeira Guerra Mundial.

A beleza de uma melodia pungente se soma ao ambiente propositalmente obscuro, onde a personagem falará à plateia sobre a coragem de enfrentar a escuridão do terror provocado pelo belicismo de bombas jogadas na população durante a guerra.

E aquela belíssima imagem ficou na minha memória para o resto da minha vida. Mas, ao mesmo tempo, somada a um sentimento de indignação sobre o desprezo do público, caracterizado pela ausência de plateia naquela tarde. Até hoje, eu relembro daquele momento, o qual para mim marcou o início do abandono de frequência de espectadores dos chamados “cinemas de rua”.

Não houve, até hoje, momento tecnicamente mais sublime para o cinéfilo do que a época da febre dos 70 mm. Só no bairro, foram instalados ou modificados os cinemas Rio (parceria Livio Bruni e Cinematográfica Costa Soares), Tijuca-Palace (Franco Brasileira), Bruni-Tijuca (parceria Roberto Darze e Livio Bruni), e o Tijuca (Severiano Ribeiro), sem contar com o Madrid, que seria convertido em Cinerama 70, diziam os técnicos de lá, superior ao Roxy.

Infelizmente, o Madrid fechou as portas porque pegou fogo, e ficou, segundo testemunhas, parcialmente danificado, mas fechado para nunca mais reabrir. Os Incol 70/35 do Madrid eu cheguei a ver funcionando (a imagem tinha mais brilho do que os antigos Simplex X-L), o trailer de Spartacus projetado já com som estereofônico, mas o lançamento em Cinerama 70 com este filme nunca aconteceu!

O desenrolar desta triste estória todo mundo já sabe: a Tijuca, bairro carioca com o maior número de cinemas, descaracterizou-se completamente. Uma briga de associação resultou no tombamento do Cinema Carioca, mas o espaço acabou virando igreja evangélica.

O Cinema Rio foi totalmente destruído, virou agência bancária, o Bruni-Tijuca idem, transformado em laboratório de análises, o Tijuca Palace foi destruído, depois dividido em 2, e ficou apodrecendo até os dias de hoje. E, sim, o Tijuca, mesmo depois de retirados os Incol 70/35 e dividido em 2, acabou destruído e transformado em uma loja de produtos domésticos.

Todos os projetores para 70 mm foram retirados antes das respectivas descaracterizações, exceto, se não me engano, do Rio, que fechou as portas antes. Anos atrás, o pessoal do Projecine conseguiu resgatar para restauração os projetores Cinemeccanica Victoria 8, que estavam apodrecendo nos porões do Tijuca Palace:

 

 

Só mesmo o esforço do pessoal de lá para recuperar esses projetores, infelizmente hoje nem teriam tido destino em algum outro cinema.

Darling Lili, lançado em DVD com a cópia “roadshow”, corte do diretor, anos atrás na América, nunca saiu até hoje em Blu-Ray, somente a capa aparece como uma promessa não cumprida:

 

 

O filme, apesar da abertura dramática, é uma comédia leve e agradável de ser vista, coescrita por William Peter Blatty, aquele mesmo de O Exorcista, na sua fase anterior a este filme.

À guisa de ilustração, eis alguns anúncios de jornais da época onde predominaram as projeções em 70 mm. Não sei porque, mas os anúncios da cadeia Severiano Ribeiro primavam pelos erros de notação, como por exemplo “70 mm” era descrito como “70 m/m”. Na época do CinemaScope o exibidor falava em “6 faixas de som estereofônico”, quando na realidade as cópias do formato sempre tiveram 4 canais.

 

 

A descaracterização de um ambiente predominantemente dominado por cinemas de rua impede qualquer pessoa mais jovem de sequer tentar achar onde ficavam as principais salas de cinema. Anos atrás, um grupo de estudantes me pediu para dizer a eles onde ficava o Cinema Rio, e eu então fui com eles lá e apontei para o local:

 

Na verdade, nem meus filhos entraram naquele cinema. E a displicência crônica com a preservação do bairro e dos seus costumes jamais iria ajudar alguém que não tenha vivido essa época, de entender o histórico e os locais na maior área de cinema do Rio de Janeiro!

A minha esperança de um museu de cinema carioca esvaneceu-se anos atrás. Parece até que a cidade nunca teve um histórico tão rico, com salas, estúdios e distribuidoras deste segmento. As sucessivas prefeituras olham para o turismo e para a rede hoteleira e festas populares, para o resto eles não estão nem aí! Outrolado_

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Cinemas de rua: não há nada que se compare a eles!

 

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Homenagem a Orion Jardim de Faria, pioneiro de cinema

 

Cinemas de rua com 70 mm

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “Museu de cinema carioca? Para quê?

  1. Boa tarde, Paulo.
    Aqui nesta praça de 90.000 hab ocorreu a mesma coisa que aí no Rio. Tínhamos duas salas, o Cine Sta. Cruz com o prédio preservado exteriormente e no interior grandes reformas para adaptação da agência do INSS.
    A outra sala abrigava o Clube Avareense de Cinema fundado em 1956 que já tive a oportunidade de comentar com você em outra ocasião. Hoje o prédio é da prefeitura e está fechado sem nenhuma utilização. Tenho a chave da porta, entretanto não tenho ânimo para lá entrar. A tristeza é imensa. Ainda se encontra lá o projetor “Bauer” para 35 e 70mm. É como você fala: a administração da cidade não está nem aí.
    Abraço.
    Grande abraço.

    • Oi, Celso,

      Quando a Franco Brasileira decidiu fechar de vez o Paissandú, outrora reduto principal do cinema de arte, recebeu uma série de pedidos de antigos frequentadores para não entregar o recinto para alguma igreja evangélica. Por causa disso, o espaço está lá vazio e sem uso.

      A presença de evangélicos adultera o ambiente e descaracteriza a sala, a ponto de ela ficar irreconhecível. Em alguns casos, como o do Carioca, o prédio é tombado e eles ficam impedidos de mexer muito.

      • Oi, Paulo. Em São Paulo também teve o Cine Paissandu. Muito luxo lá nos tempos áureos do cinema na capital paulista. Hoje desativado. Na década de 1960 frequentei bastante essa cinelândia . Muita saudade do Comodoro. Fiquei impressionado com aquele som do “Terremoto”. Parecia que o prédio ia desabar.Os moradores dos andares acima do cinema desabafavam com grande alarido da” barulheira” toda. Bons tempos dos cinemas de rua. E os Imax aí do Rio?
        Abraço.

        • Celso, até agora eu só fui a uma única sala de IMAX, que faz parte da cadeia UCI. Achei a instalação estupenda. Os projetores são digitais exclusivamente, mas o sistema de projeção é muito bom.

          Sobre Terremoto, foi o único filme com Sensurround convincente, mas este sistema era tão cheio de problemas e tão tecnicamente limitado, que acabou tendo vida curta! Aqui no Rio, Terremoto foi exibido no Roxy, depois de desmontado o sistema com Cinerama, ou seja, tela Panavision convencional, com um sonofletor gigantesco instalado no fundo do auditório.

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