A possível ressurreição do DSD

O fundador da P.S. Audio Paul McGowan defende suas iniciativas de gravar e oferecer gravações de alta qualidade com o uso de DSD, formato há anos injustamente abandonado.

 

Neste fim de ano o simpático Paul McGowan, cofundador e CEO da P.S. Audio, e que mantém um canal no YouTube só para falar sobre áudio e responder perguntas, aparece em novos vídeos para falar um pouco mais do seu projeto visando obter o máximo possível do DSD.

Fã convicto do DSD, Gowan está envolvido com um estúdio de gravação usando o formato como base de todos os registros ali capturados. O estúdio leva o sutil nome de Octave Records, e um dos seus objetivos é oferecer ao público audiófilo o melhor som possível em qualidade de gravações e de reprodução. O estúdio também um canal próprio para aqueles que quiserem saber de detalhes sobre o seu funcionamento.

A ideia de gravar diretamente em DSD e não em PCM como é habitual na indústria fonográfica não é nova. Anos atrás eu consegui comprar o disco da Telarc de 2001 intitulado “The Film Music of Jerry Goldsmith”, gravação em DSD multicanal com o maestro e compositor à frente da London Symphony Orchestra.

O disco da Telarc, DSD 5.1, impressiona pela qualidade. E é justamente esta qualidade que o nosso bom Paul McGowan procura desenvolver com a ajuda do sistema Sonoma de gravação, que é uma estação de trabalho desenvolvida pela Sony para DSD multicanal, com capacidade de edição do conteúdo sem precisar converter o DSD para PCM.

A Sony praticamente abandonou o Sonoma e o DSD, mas o engenheiro Gus Skinas o mantém e trabalha firme nesta direção. A união entre Skinas e a Octave Records é a que oferece as gravações pretendidas pela P.S. Audio.

A eterna controvérsia dos formatos não ajuda a quem ouve

O nome “Octave” do estúdio da P.S. Audio parece sugerir o alcance de oitavas na captura da música, algo fanaticamente defendido por audiófilos que nunca aceitaram o PCM como formato de gravação e principalmente de reprodução, como o CD, por exemplo, “limitado” a 22 kHz.

Historicamente, os formatos como o DVD-Audio e o DAD (PCM) e o SACD (DSD) foram sistematicamente abandonados pela indústria fonográfica. Ainda se pode comprar muita coisa em SACD, mas a preços pouco abordáveis. Além disso, é preciso ter e manter um leitor de mesa universal, modelos que são cada vez menos disponíveis no mercado de áudio, ou então recorrer a um reprodutor ligado à rede local.

Há anos que engenheiros de gravação disputam e discutem, às vezes arduamente, sobre o formato ideal de uma gravação digital, alguns contra o PCM e outros contra o DSD. Os argumentos usados por ambos os lados são às vezes difíceis de provar, tornando esta discussão completamente estéril e sem sentido.

Eu felizmente nunca entrei neste tipo de discussão e quando decidi investir em ambos os formatos recorri a um amigo audiófilo que já tinha acumulado uma experiência auditiva e me recomendou adotar os dois tipos de disco, usando como argumento, com o qual eu concordo plenamente, que ambos DVD-Audio ou DAD e SACD soam muito bem.

A guerra de bastidores contra o emprego do DSD teve várias frentes. Uma delas se referia ao fato de que o formato sempre foi difícil de editar, obrigado uma conversão entre DSD e PCM e depois PCM para DSD para que a edição fosse possível. Aliás, muitos discos SACD são autorados com fonte PCM, o que complica mais ainda esta discussão.

Outro argumento contra o DSD foi que no início a reprodução de conteúdo DSD somente era possível depois que o formato fosse convertido a PCM antes do sinal chegar ao equipamento de reprodução. Só que isso foi solucionado a relativo curto prazo.

Todos os leitores de mesa mais recentes são capazes de enviar o bitstream DSD direto a um decodificador externo e somente depois disso o sinal é amplificado. É o chamado “DSD puro”. Abaixo se vê o display de um A/V receiver indicando a reprodução deste tipo com sinal multicanal:

 

 

No display do receiver a indicação “Direct” se refere à inexistência de pós processamento ou conversão. Assim, o sinal bitstream do DSD, vindo neste caso de um SACD, é jogado direto nos estágios de amplificação.

As críticas de engenheiros contra o DSD falam que apenas 1 bit é usado pelo formato, e supostamente com baixa relação de amostragem. Só que este 1 bit é amostrado a 2.8224 MHz. O processamento de sinal se dá por um método diferente: a onda musical senoidal é seguida ponto-a-ponto por um bit “1” quando ela aumenta de amplitude e um bit “0”, quando o sinal diminui de amplitude, a chamada modulação delta-sigma.

O argumento de que o DSD é impreciso cai por terra quando o sinal analógico da reprodução é monitorado em um osciloscópio, a tal ponto que os defensores do formato o reconhecem como um sinal mais próximo do analógico ao invés do sinal típico PCM do digital.

Ouve quem quer ou gosta

Paul MxGowan defende a adoção do DSD puro nas gravações das fontes musicais sem jamais denegrir o som PCM ou até o analógico, embora ele também afirme que o DSD está mais próximo do analógico.

Sem querer entrar nesta polêmica eu sou, desde muito tempo, favorável a admitir que cada um gosta do que quer, e ouve música de acordo com as suas crenças a este respeito.

Eu vejo no sinal PCM e em particular no DAD e no DVD-Audio uma chance concreta de preservar gravações em mídia ótica com software que qualquer um pode ter dentro de casa. Bem verdade é que quase todos esses programas estão hoje em dia pouco disponíveis ou inexistentes. Mas, para um DAD é possível autorar um disco DVD Video com o auxílio do programa gratuito Lplex.

Se o usuário não for partidário de mídia ótica ele ou ela podem recorrer a arquivos de áudio sem compressão e de alta resolução.

Portanto, todo mundo que gosta de música e aprecia o áudio de qualidade tem ainda hoje recursos de vários tipos.

Quanto ao idealista Paul McGowan da P.S. Audio eu o vejo com muita simpatia a sua dedicação ao hobby, junto com a atenção ao usuário que recorre a ele.

Se o conhecesse pessoalmente eu lhe desejaria boa sorte, porque hoje em dia são poucos os que defendem música gravada com qualidade.  Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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