Manchas irreversíveis em uma tela OLED

O medo do usuário de uma TV OLED é o aparecimento de manchas permanentes na tela, causado pela deterioração dos pixels envolvidos. O reparo neste caso envolve a substituição completa da tela, mas os orçamentos oferecidos empurram o consumidor para partir para um modelo mais novo, ou então trocar de tecnologia de tela.

 

Eu tenho usado uma TV LG OLED modelo 65E7P por cerca de 4 anos, sem nenhum problema de tela, principalmente aqueles apontados por pessoas que detectaram “burn in” em suas TVs.

Esse termo “burn in” está, no meu entendimento, incorreto, porque não ocorre uma queima de pixels propriamente dita, e sim a retenção de manchas na tela, derivadas da deterioração de pixels, ao ponto de não ser possível reproduzir imagens coloridas corretamente.

O que anteriormente se chamava de “burn in” se referia à queima desigual de pontos em uma tela de tubos de raios catódicos. Esse problema se agravou por conta dos logotipos das emissoras exibidos continuadamente nas imagens de algum programa.

Eu enfrentei o “burn in” especificamente anos atrás quando comprei uma TV de plasma Philips. Bastou somente a reprodução de material 4:3 (tela “full frame” dos primeiros DVDs) e a queima desigual nos cantos onde não havia imagem apareceu em curto espaço de tempo. Tanto assim que eu recorri ao Procon e a Philips se ofereceu para me ressarcir, reconhecendo que aquele problema era típico de uma TV de plasma.

Em modelos de plasma subsequentes foi introduzido o desvio de pixel, que é um deslocamento imperceptível da imagem, para evitar que a imagem fique retida nos mesmos pixels. Outro recurso posterior em alguns modelos de plasma foi o preenchimento da área sem imagem por uma faixa de cinza, evitando que aquela parte da tela ficasse sem imagem.

Tais iniciativas se mostraram frutíferas, mas o que impediu continuar a fabricação de telas de plasma anos atrás foi o custo fabril das telas rejeitadas no controle de qualidade, dando prejuízo à indústria. Depois disso, aconteceu o início do aperfeiçoamento das telas com LCD, daí a decisão definitiva de tirar as telas de plasma da linha de montagem.

De volta para o futuro

O desvio de pixel voltou às telas com o aparecimento do pixel OLED, que tem problema similar ao da tela de plasma, qual seja, a imagem não pode ficar imóvel sem correr o risco de que o pixel OLED fique temporariamente com a mesma alimentação elétrica. Embora tal recurso seja “desabilitável”, não é prudente que o usuário o desligue no setup de ajustes da tela OLED.

Em condições normais de uso, uma tela OLED é submetida a um reset de todos os pixels assim que a TV é desligada. No entanto, se faz necessário submeter esses pixels ao reset por software, que é chamado pela LG de Atualização de Pixels (em inglês “Pixel Refresher”).

Este programa é automaticamente rodado a cada 4 horas de uso aproximadamente, depois que a TV é desligada. Se a TV for religada antes que este programa acabe de rodar ele é automaticamente interrompido, até que o usuário desligue novamente a TV.

Um resumo do que o programa de Atualização de Pixels faz é descrito pela própria LG:

O recurso Pixel Refresher, integrado às TVs LG OLED, detecta automaticamente a deterioração de pixel por meio de varredura periódica, compensando-a conforme necessário. Ele também detecta qualquer mudança de tensão TFT (Thin Film Transistor) durante o desligamento, para detectar e corrigir a degradação do pixel comparando-o com um valor de referência definido.”

Além deste, um outro recurso de proteção importante é o chamado ABL (sigla em inglês de Automatic Brightness Limiter ou Limitador Automático de Brilho). Se na TV a imagem no display não muda, depois de um certo tempo um circuito ABL é acionado e diminui o brilho para um nível que impede a retenção de pixels. Muitos aparelhos ligados à TV não possuem o chamado protetor de tela (“screen saver”) e nesses casos o ABL passa a ser um recurso de proteção útil.

O ABL não é consenso para muitos usuários de TV OLED, que o julgam inconveniente. Tanto assim que aparecem fórmulas na Internet para entrar no menu de serviço da TV e desligar o recurso.

Esses recursos prolongam a vida da tela OLED, mas não impedem a deterioração de pixels. E quando a deterioração dos pixels chega ao ponto de se deteriorar permanentemente o software de atualização se tornará incapaz de reverter este processo. Neste caso será necessário substituir a tela toda.

Testes para detecção de uniformidade dos pixels

É impossível prever que subpixels ou pixels inteiros se deterioraram, mas para constatar a faixa de retenção pode-se recorrer a testes de uniformidade. Estes testes estão disponíveis pela Internet, podendo ser baixados e rodados na TV.

A minha LG 65E7P acusou pixels permanentemente deteriorados, em uma mancha que pode ser observada dependendo do batimento das cores. No caso, ela é mais visível com imagem que contenham fundo avermelhado ou amarelo, na área onde os pixels foram afetados. As capturas abaixo mostram esta diferença:

 

Fundos com cor diferente do comprimento de onda do vermelho podem apresentar esta mancha de aspecto mais tênue. A imagem acima tenta demonstrar esta diferença, partindo do vermelho e passando para magenta e verde. A cor amarela, que não é mostrada na figura, também revela com clareza as manchas existentes na tela.

Mas, a minha TV só foi apresentar este tipo de problema depois de 4 anos de uso, com um número de horas da TV ligada superior a 13 mil:

 

 

Outros tipos de tela também não são imunes a algum tipo de problema que afeta a sua durabilidade. Geralmente, telas de LCD já vem da fábrica com problemas de pixel travado, parcial ou totalmente (este último o chamado “dead pixel”). Lembro que o primeiro monitor LCD Philips que eu usei a fábrica não admitia troca se a tela tivesse até 10 pixels mortos.

O conserto da tela OLED é possível, mas a um custo absurdo

Quando uma tela OLED apresenta danos irreversíveis nos pixels, detectados na forma de uma mancha na imagem, a solução é trocar a tela toda. Mas, a troca de uma tela OLED aqui no Brasil tem um orçamento surrealista. A oficina autorizada me passou uma conta de mais de 30 mil reais, que eu recusei. Isso é o mesmo que empurrar o consumidor para adquirir uma TV nova.

Consultando a minha revenda, constatei que uma TV OLED de 65 polegadas tem custo 3 vezes menor do que o orçamento proposto. E com um detalhe importante: de 4 anos para cá a tecnologia de telas OLED foi modificada, com alguns modelos oferecendo telas com proteção ainda, segundo a LG, mais robusta!

Neste ano a LG promete lançar novas telas, com novas tecnologias do pixel WRGB, com mais brilho e maior durabilidade. Mas, segundo o suporte brasileiro da LG, estes novos modelos, se vierem, será para o segundo semestre de 2022.

Se alguém me perguntar que se eu sei desses problemas, porque então insistir com uma tela OLED ao invés de uma TV LCD com pontos quânticos, e a resposta mais imediata que eu poderia dar seria porque a imagem é muito superior às de outro tipo de tecnologia. Mas, além disso, as TVs LG (acreditem porque eu pesquisei muito) têm recursos de reprodução de imagem que as concorrentes não têm, entre eles o suporte ao Filmmaker Mode, já comentado anteriormente.

Até prova em contrário, não se pode culpar a tecnologia OLED achando que problemas não existem em outros tipos de tela. Eu já tive TVs com tempo de uso muito menor do que o atual e que acabaram dando problemas de circuitos internos, um deles uma fonte de alimentação que precisou ser substituída completamente.

Note que o técnico de rua não tem interesse em ficar retido na casa do cliente tentando achar onde está a falha de uma placa dessas, e ainda correr o risco de não poder fazer este reparo no local. Por outro lado, a substituição de várias dessas placas tem a vantagem implícita de serem novas e com garantia.

Fazendo, finalmente, uma retrospectiva desse assunto “qualidade versus durabilidade”, acho eu muito melhor aturar os problemas das telas atuais do que os das antigas CRT ou plasma.

Quando as primeiras TVs coloridas foram lançadas no mercado eu ainda tinha uns 20 centavos de conhecimento de eletrônica, comprei um gerador de barras da Telefunken, e passei horas incontáveis ajustando o tubo, sem nunca conseguir 100% de satisfação nos ajustes obtidos. Desnecessário dizer que hoje em dia eu não tenho a menor saudade desse tempo!

Pior foi com os meus amigos que compraram uma TV de retroprojeção que exigia a visita do técnico especializado a todo momento. Por isso, no final das contas quem tem TV e gosta de cinema ou algum outro programa vai ter que enfrentar qualquer tipo de problema e o seu custo, até que alguém invente uma tecnologia melhor. Outrolado_

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Algumas palavras sobre tecnologia de displays

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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