A câmera Ultracam 35 mm

Junto com cinco outros filmes, Poltergeist foi fotografado com uma câmera Ultracam 35, depois abandonada de vez. Se alguém procurar, irá achar exemplares usados à venda, por preços nada convidativos.

 

Nem tudo tecnológico em Hollywood deu certo. Como qualquer colecionador de filmes em disco, eu estava outro dia mesmo reassistindo o filme Poltergeist, fotografado em 35 mm com uma câmera Ultracam 35, e depois ampliado em cópia de distribuição para 70 mm. Curioso é que ainda existem câmeras usadas deste tipo à venda, e eu já vi anúncios no Ebay com preços estratosféricos.

Eu assisti este filme quando do seu lançamento no Cinema Metro-Boavista, mas já não me lembro mais se a cópia exibida era a de 70 mm. Eu só tenho ainda certeza de que a mixagem usada na produção foi apresentada em Dolby Stereo.

Entretanto, a versão em disco Blu-Ray é completamente diferente da versão do cinema. As cópias em disco usam o negativo de 35 mm, com uma mixagem 5.1, de modo a favorecer os efeitos sonoplásticos pretendidos. E o resultado é muito superior na reprodução da trilha sonora, assinada pelo compositor Jerry Goldsmith.

 

A Ultracam 35 foi desenvolvida para ser usada como câmera portátil, pelo cinematógrafo Matthew Frank Leonetti, que trabalhou como diretor de fotografia em Poltergeist.

Ao todo, foram poucos filmes feitos com esta câmera, um total de 6 filmes. E uma das prováveis explicações era de que a câmera não era consenso em qualidade por parte dos técnicos que trabalhavam nesta área. Recentemente, eu li um depoimento negativo de uma dessas pessoas, que eu cito traduzido:

Eu tive que usar a Utracam e foi realmente uma das piores câmeras já feitas. Nós a chamamos de Ultrajam devido aos problemas inerentes de atolamento de filme. Dependendo do fabricante do filme, a câmera pode funcionar com muito ruído. O visor é incrivelmente escuro e turvo também. Câmera terrível. Em Hollywood, conheço várias equipes de filmagem que recusariam o trabalho se usar a Ultracam fosse um requisito.”

Como “Ultrajam”, o técnico se refere ao congestionamento do filme que ocorria dentro da câmera, uma vez carregada com o magazine de filme. Não obstante, a imagem fotográfica de Poltergeist é razoavelmente de boa qualidade, os compósitos são bem engendrados, apenas com as notórias limitações técnicas daquela época.

O filme

Poltergeist impressionou a muita gente, na época do seu lançamento, talvez por causa da base do tema, levado para o lado místico, com uma mistura de fenômenos sobrenaturais, que aterrorizam uma família de um condomínio.

Mas, o que está por trás daquilo tudo é a crítica direta à presença “maléfica” dos aparelhos de televisão dentro da casa. O cinema foi um veículo profundamente prejudicado pelas emissoras de televisão, que transmitiram, não só lá como aqui, ora uma programação chula e vulgar, ora predadora de filmes clássicos, que não tinham mais trânsito nas salas de exibição, cujo público sumiu por causa da televisão. O filme mostra que é através de um aparelho de televisão que uma entidade maléfica se manifesta. E, coerentemente, no final do filme a TV é expulsa do quarto de motel onde a família se hospedou.

Claro que as críticas são daquela época e daquele momento. Hoje em dia, uma TV reproduz uma mídia bem mais diversa, tendo se tornado um componente eletrônico sem o qual não se poderia assistir cinema de boa qualidade.

Algumas coisas bizarras aconteceram depois que este filme foi feito. A atriz mirim Heather O’Rourke morreu de ataque cardíaco com apenas 12 anos de idade. E a promissora atriz Dominique Dunne, faleceu também, aos 22 anos de idade, vítima de um estrangulamento em público de um ex-namorado abusivo.

Algumas noções do que seria a vida após a morte também acabaram como alvo de chacota, até mesmo dentro do cinema, citada em diversos filmes até recentemente, como, por exemplo, “A Bug’s Life”, da Pixar. A noção de que, quando uma pessoa morre, ela atravessa um portal de luz para chegar a um outro plano existencial, acabou virando uma anedota.

Poltergeist, mesmo com conceitos esdrúxulos deste tipo, não é um mau filme. Depois do seu sucesso comercial, ele deu origem a outras duas repetições, a segunda fraca e terceira, a meu ver, muito ruim.

Curiosamente, até agora não foi lançada uma versão 4K, apesar de que um tratamento HDR do filme poderia ser bastante interessante. A trilha sonora original em Dolby Stereo não é ruim. Na trilha sonora em Dolby TrueHD do Blu-Ray convencional, a qualidade sonora é realçada com eficiência, através da reprodução com o uso do upmixing feito com Dolby Surround. Seria, portanto, bastante provável de que ficaria melhor ainda com a reprodução em Dolby Atmos. Resta esperar para ver. Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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