Morte no Nilo: lições que não aprendemos

Apresentação do filme Morte no Nilo, em 70 mm, no Cine Imperial em Copenhagen, mostra que não aprendemos a mais básica das lições –  não destruir o que levou anos para ser construído e preservar a todo custo a memória

 

Eu sempre soube que destruir é infinitamente mais fácil do que construir, e isso nunca se referiu tanto aos cinemas de rua que perdemos e não vamos recuperar nunca mais!

Na minha região, somente o Cine Carioca ainda está lá, transformado em igreja evangélica, mas isso porque a associação de moradores da Praça Saenz Peña e arredores se engajou em uma luta insana para tombar o cinema antes que ele fosse destruído.

Quem teve a chance de viver na Europa, ainda que somente por um período de vida limitado, iria aprender como e porque um continente que foi devastado em duas guerras terríveis fez um enorme esforço de preservação do seu território, na esperança de que nunca mais precise reconstruir tudo de volta!

Infelizmente, esta experiência preservacionista nunca passou por aqui. No ambiente acadêmico, toda vez que um colega que passou anos estudando na Europa se manifestava a este respeito, ele ou ela se tornavam alvo do desprezo de seus pares. Eu ouvi críticas as mais absurdas contra esses colegas que ousavam compartilhar as suas experiências de organização do meio social, coisa que nunca, até hoje, atingimos aqui!

O esforço em preservar memória é igualmente excruciante. Se não fosse pelo esforço pessoal do Ivo Raposo, nada mais teria sobrado de um dos mais importantes cinemas do Rio de Janeiro, o Metro-Tijuca. Ivo fez o que as administrações públicas nunca fizeram: preservar a memória do enorme parque exibidor da cidade. A Tijuca chegou a ser chamada de “Cinelândia Tijucana”, por ter sido o bairro com maior número de cinema, a maioria deles na Praça Saenz Peña e seus arredores.

A mensagem que vem lá de fora

O melhor site que eu conheço de preservação dos formatos de bitola larga, notadamente do filme 70 mm é o in70mm, bravamente elaborado por Thomas Hauerslev, com quem colaborei algumas vezes no passado.

Nesses últimos dias ele me manda fotos do Cinema Imperial, localizado em Copenhagen, o qual, embora atualizado para projeção digital e Dolby Atmos, manteve em funcionamento um dos dois projetores Philips DP-70, usado para a bitola de 70mm quando necessário.

Uma das últimas renovações do Imperial está mostrada na imagem a seguir. A tela ainda existe montada para o formato Todd-AO:

 

O Thomas esteve por lá para assistir a exibição do filme de Kenneth Branagh “Morte no Nilo”, filmado em Panavision 70 e apresentado com som DTS 70 mm. As cópias digitais foram codificadas com Dolby Atmos.

 

 

E o poster de apresentação do formato no site do cinema, para quem quisesse comprar ingressos, foi este:

 

As fotos que o Thomas me mandou são essas:

 

No in70mm foi publicada uma lista de todos os cinemas que apresentaram Morte no Nilo em 70 mm. No Imperial a projeção promete se estender até meados de março próximo.

E nós aqui, que iremos continuar a ver como tudo isso é perfeitamente possível, não só as preservações das salas de exibição como dos sistemas de projeção.

Ultimamente, vários cineastas voltaram a insistir no formato 70 mm de bitola larga, e por que então? Simplesmente porque a qualidade de resolução é insuperável, se comparada à mídia digital, e além do mais, a projeção só precisa de um projetor adequado, que seria alimentado através de um prato rotativo. Notem que esses Philips DP-70 foram feitos para durar e se precisarem de manutenção a Kinoton é uma das empresas que faz isso sem problema. O projetor pode ainda ser modernizado de várias maneiras.

As cópias em 70 mm podem ser exibidas com a trilha sonora original em qualquer país. O som DTS é capturado por um scanner montado no topo do projetor, e o timecode inclui não só a informação para sincronizar a reprodução da parte de áudio como a das legendas, no formato DTS-CSS. Ambas as gravações estão contidas em mídia ótica DTS ou enviadas a um media player, e a reprodução das legendas programadas separadamente pelo operador.

Por aí se vê que as projeções de novos filmes em 70 mm são perfeitamente exequíveis. Kenneth Branagh não é o único cineasta que insiste em usar o formato, e nem Morte no Nilo é o seu primeiro feito com câmera Panavision 65. Uma vez feito o filme, a sua conversão se mostrará superior na apresentação do pacote digital, naqueles cinemas que optaram por não manter projetores de película.

Pessoalmente, eu acho que a retirada de projetores analógicos foi um erro. Aparelhagem de alta qualidade colocada de lado ou enviada para algum ferro velho é um absurdo das mesmas proporções. Recuperar tudo isso de volta exigiria um esforço que, aparentemente, não será do interesse dos exibidores, ou seja, lição não aprendida misturada com a incapacidade de tentar manter o que já estava instalado, quando isso ainda era possível!  Outrolado_

 

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

2 comentários sobre “Morte no Nilo: lições que não aprendemos

  1. Boa noite, Paulo. Que beleza de fotos e texto. Por aqui, creio que já tive a oportunidade de comentar, o prédio do antigo cinema está preservado exteriormente. Em seu interior adaptações para acomodar agência do INSS. Uma curiosidade: atrás da cabine de projeção uma bem repartida residência que servia ao gerente da cia., na época, Empresa Teatral Pedutti.
    Abraço.

    • Oi, Celso,

      Parece até o roteiro do filme Cine Majestic. No cinema do meu tio lá em Cajuru a cabine era convencional, mas a casa dele, enorme inclusive, ficava ao lado e dava acesso à cabine por uma escada separada.

      Pois é, amigo, nós aqui não percebemos preservação em lugar algum. Soube uma agora do Cine Icaraí, localizado em Niterói, que está em reforma, vamos ver o que vai dar.

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