Longe deste insensato mundo do 3D

Coraline em Blu-Ray reapareceu no catálogo e eu aproveitei para recuperar o filme. A versão em 3D é uma das melhores, mas hoje em dia impossível de assistir com as TVs atuais.

 

Dias atrás, eu vislumbro a chance de readquirir uma edição em Blu-Ray do filme de animação Coraline, feito pelo diretor especialista em “stop motionHenry Selick. Eu havia pego emprestado o disco e depois copiado para uma mídia gravável, mas com o tempo eu descobri que a mídia (Ridata BD-R de 50 GB) parava de tocar de uma hora para outra, talvez porque a fabricação de mídia desta época, que foi bem no início das gravações em disco Blu-Ray feitas no drive do computador, não eram confiáveis. De lá para cá não gravei mais nada e nem sei dizer se a mídia evoluiu e se tornou mais estável.

O disco Blu-Ray fabricado aqui tem as versões 2D e 3D, para sorte de quem gosta do filme e o quer na coleção. Não vejo este disco faz tempo, assim para mim como colecionador foi uma grata surpresa, que eu não hesitei em aproveitar.

 

 

Na época em que Coraline foi lançado em Blu-Ray ele se tornou uma espécie de referência para a apreciação da imagem 3D, e não por coincidência a imagem 3D observada em uma TV compatível é excepcional.

A tecnologia de animação stop motion se baseia na captura de fotogramas de poses dos personagens, conseguidas sem esforço com uma câmera fotográfica digital de alta resolução. Seus realizadores montaram um adaptador capaz de desviar a câmera para a posição de paralaxe da mesma captura, montando assim um filme 3D com perfeição.

Mas cadê a TV para ver isso hoje em dia?

Já se passaram anos em que a TV 3D desapareceu do mercado consumidor. Houve, me lembro bem, um hiato nas vendas, que desencadeou um desinteresse de muitos fabricantes em oferecer novos modelos. Durante um tempo, se a memória não me trai, LG e Sony ficaram falando sozinhas no mercado, e, eventualmente, desistiram de vez.

Antes de TV 3D sumir das lojas, foi feita uma pesquisa de mercado que tornou evidente a falta de interesse neste formato. Aparentemente, muita gente havia comprado uma TV dessas e depois de um certo tempo acabou se cansando de ver filmes 3D, seja porque o formato deixou de ser novidade, seja pelo uso cansativo dos óculos necessários para a realização estereoscópica da imagem.

No desenvolvimento do disco Blu-Ray 4K a imagem 3D foi descartada, inclusive por dificuldades técnicas, e as TVs 4K seguiram esta mudança.

A Rede TV e a Rede Globo ambas haviam experimentado 3D em transmissões abertas, a primeira deixou no ar por muito tempo uma imagem 3D simulada. Mas, ambas desistiram. Eu cheguei a ver a imagem 3D da Rede TV no ar e achei péssima!

Os problemas com os aparelhos de TV começavam pela tecnologia usada. Os óculos ativos, alimentados por uma bateria, trabalhavam com um obturador para alternar as imagens estereoscópicas, o que os tornavam pesados no rosto de quem assistia. O obturador operava em síncrono com a TV, e por isso tinha que estar obrigatoriamente conectado com ela.

A tecnologia passiva fazia uso de um óculos convencional, feito com o emprego de filtros polarizadores, bem mais leves, mas ganhou fama de perda de resolução da imagem em 1080p. No final, nenhuma das duas tecnologias prevaleceu.

Coraline em 2D evidencia que o 3D no final não faz falta

Aquela sensação do “estar lá”, dentro da cena, que tanto atraiu quem assiste 3D, está muito bem realizada neste filme. A produção se preocupou em ocupar o espaço prometido pela terceira dimensão e o filme reflete isso.

Porém, para se fazer cinema, o 3D deixa de ser tanta importância assim, por causa do desenvolvimento da estória no roteiro, que deve sempre ter prevalência! O filme Coraline se baseia em uma fantasia surreal, na qual a personagem se envolve, à procura da atenção que os seus pais deixaram de lhe dar, e para perceber o conteúdo da trama o 3D, embora de forte apelo visual, simplesmente não faz falta!

O filme em si pode ser visto como uma chamada de atenção dos pais, que em tempos modernos, deixaram de tratar os filhos com o devido cuidado, e se lançaram no mercado de trabalho, se ausentando do espaço doméstico.

Se ambos pai e mãe não dão atenção aos filhos, a tendência deles pode ser uma via escapatória da invenção de um mundo paralelo, e é isso o que acontece com Coraline.

A evolução social da qual eu fui testemunha me mostrou que as mulheres deixaram de lado o que se chamava de “prendas do lar”, para se lançarem de vez ao mercado de trabalho. Na universidade, eu vi turmas que eram predominantemente masculinas mudarem da noite para o dia, com a presença de mais de 50% de público alvo feminino, e depois chegando ao ponto de, em algumas turmas, os rapazes se tornarem minoria.

A ocupação do mercado de trabalho pelas mulheres acabou tendo (e tem até hoje) o seu preço! Eu vi no ambiente acadêmico, onde ocasionalmente se toma conhecimento das dificuldades pessoais dos alunos, uma distorção completa dos paradigmas que anteriormente norteavam as relações interpessoais entre homens e mulheres.

Este é, aliás, um assunto muito vasto e incapaz de ocupar este espaço. Mas, basta dizer que o cinema pode perfeitamente ilustrar a realidade das pessoas e da sociedade como um todo, com imagens ou estórias que demonstrem estas transformações.

Eu vi em Coraline um filme que vale a pena guardar e assistir de vez em quando, mesmo com a ausência do 3D. Aposto que seus realizadores sentiram que o esforço técnico iria valer a pena, e valeu mesmo!

Por que motivo o disco reapareceu no mercado, eu não saberia dizer, porque muitos dizem que mídia ótica está falida. Mas, estar disponível de volta para quem o perdeu não tem preço, felizmente neste caso, sem atingir valores estratosféricos!

Ironicamente, o som 3D apareceu nas mídias e ficou, se tornando referência para filmes bem projetados lançados em Blu-Ray e nos serviços de streaming. Este tipo de reprodução também nos dá a sensação de “estar lá”, imersos no filme, e não precisa de óculos para ser percebido. Outrolado_

 

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A projeção em Super Cinerama

Nova atualização do decodificador Claro-Net

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

6 comentários sobre “Longe deste insensato mundo do 3D

  1. Olá Paulo satisfação em retomar o contato.
    Este tema me remeteu a uma tremenda tristeza. Perdi no ano passado minha Tv Samsung 3D, que devido a degradação nas soldas do display com cabo flat que conecta a placa T-Com, causaram centenas de listras que condenaram a tela.
    Aí caímos seu texto que diz:
    – Mas cadê a TV para ver isso hoje em dia?
    Então Paulo de forma coesa a sua linha de raciocínio, eu diria que todos nós perdemos com o fim das Tv’s 3D. As mídias com todos os filmes lançados nesse sistema em breve se tornarão inutilizáveis; e quem acreditou na evolução e investiu em aparelhos 3D agora ficará na berlinda. Fazer o que né ?

    • Olá, Rogério,

      Prazer em retornar o contato.

      Eu também acho que houve perda, e o colecionador na saudade, conforme afirmei. Acho também que se poderia lançar um modelo ou outro, para quem se dispuser a atualizar a TV atual. Eu não vi mais nada em tela 3D, então este capítulo me parece que está enterrado.

  2. Oi, Paulo. E os filmes em 3-D no cinema como andam? Aqui no interior de sp, com duas salas não tenho conhecimento de projeções nesse formato. Aliás, tem tempo que não frequento a tela grande tendo em vista que não se encontra mais sessões legendadas.

      • Bom dia, Paulo. Em n osso contato em 30 de abril falávamos do 3D no cinema. Li agora que “Avatar 2”, James Cameron aperfeiçoou a tecnologia em que não haverá mais necessidade dos famigerados óculos. Confirmando o noticiário, é um avanço e tanto. Embora, na verdade o tal de 3D em filmes comuns não acrescenta nada.

        • Oi, Celso, eu também li um boato a este respeito, e se for o caso poderá impactar novamente a produção e a comercialização de filmes. A gente nota que, de novo, o público precisa de motivação para voltar a ir ao cinema, muito triste!

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