Protegendo o trabalho em casa

A proteção doméstica para o escritório improvisado e para todos os demais equipamentos sensíveis a variações ou impurezas na rede elétrica é importante na preservação dos aparelhos em uso e do trabalho que se consegue com eles.

 

Todos nós que usamos parcial ou completamente o computador dentro de casa em um escritório até improvisado, o chamado SOHO (Small Office Home Office), precisamos de algum tipo de proteção contra a imprevisível rede elétrica que nos serve todo dia.

E é preciso contornar um pouco (ou muito, no meu caso) da ignorância neste assunto, para saber o que fazer diante do problema rede elétrica, que pode oscilar perigosamente, tanto no ambiente da rua quanto no doméstico.

Quando trocaram o nosso transformador local, que fica no início da minha rua, a voltagem fornecida que, idealmente, deveria ser de 127 Volts ou um pouco mais, raramente é fornecida abaixo de 130 V, a maior parte do tempo 132 V, que eu acho muito alta e prejudicial a muitos equipamentos.

Na época dos 8 bits, o meu SOHO não tinha nenhum tipo de proteção. Por causa disso, eu estava distraído escrevendo um capítulo de um livro quando a luz acabou e eu perdi tudo! Eu tinha achado que o texto estava indo bem, talvez nem precisasse de muita revisão, mas quando a energia elétrica se foi, a minha animação foi junto com ela! E ficou ali uma experiência desagradável, eu me indagando como iria conseguir recuperar aquele texto fazendo tudo de novo.

No início dos 8 bits, os arquivos eram salvos em fita cassete, método primitivo de salvar qualquer trabalho. Um dos seus piores atributos é levar um tempo enorme para salvar qualquer coisa. Na dúvida se iria faltar luz de novo, eu passei a salvar meus textos em intervalos regulares. Não me surpreendi quando vi que muitos programas em 16 bits passaram a fazer isso automaticamente e/ou da forma que o usuário desejasse.

A falta de luz é assassina de equipamentos que dependem, por exemplo, de uma atualização de firmware, no caso de uma placa-mãe, do BIOS. Alguns fabricantes instalam dois chips com BIOS nas suas placas, se um der problema o outro entra em ação, para tirar o usuário do sufoco.

Eu tive várias placas Asus nas quais o BIOS poderia ser gravado através de um switch que comandava um drive USB, já montada ou sem nenhum componente instalado. Eu tive um problema sério com uma delas, mas anos atrás, eu aprendi com uma pessoa que trabalhou na Asus que quando o BIOS está com problema e não há meio de recuperá-lo usando este método, o que se faz é desmontar a placa toda, só deixando a força ligada, e aí milagrosamente se pode recuperar o BIOS com um drive USB.

Eu passei por isso e posso garantir que funciona mesmo, o que não te impede de ainda assim passar sufoco!

O que escolher para se proteger das intempéries

A escolha de qualquer método de proteção de equipamentos contra oscilações da rede elétrica, raios e trovões, irá depender basicamente do tipo de proteção a ser exigido. O usuário que, como eu, pouco conhece de eletrônica ou eletricidade, irá forçosamente ter enorme dificuldade em fazer este tipo de escolha, e para piorar mais ainda, a Internet (YouTube, por exemplo) está inundada de gente dando pitaco, podendo facilmente confundir mais ainda a cabeça de quem ouve e precisa de ajuda!

Um desses momentos de confusão que eu enfrentei se referia a estabilizadores de tensão, que são sistematicamente condenados sumariamente por estes analistas. Eu consultei, anos atrás, o pessoal técnico da área, alguns deles condenando as opiniões daqueles que condenavam o uso de estabilizadores.

E tinham razão, porque estabilizadores modernos já haviam se livrado anos atrás do principal defeito mencionado por aqueles que condenavam esses aparelhos, que é o tempo prolongado de resposta dos relês que trocavam as tensões para estabilizar a saída.

Um estabilizador SMS que eu precisei usar trabalhava com um microprocessador RISC de alta velocidade, era capaz de monitorar a tensão real da rede (medidor do tipo True RMS), acusar as variações críticas de tensão, e ainda impedir ruídos e surtos de passar adiante. Se nada disso fosse verdade, por favor alguém me explique como eu usei este estabilizador anos a fio, sem nenhum dano aos equipamentos ligados nele!

Vou mais além, um no-break APC que eu usava na época tinha um desagradável e irritante ruído toda vez que o seu circuito AVR (regulador automático de tensão) entrava em cena, o que, na minha rede elétrica, era o tempo todo, e acabava atrapalhando o meu trabalho.

Eu liguei para a APC e perguntei se havia algum problema se eu ligasse o no-break em um estabilizador, e o técnico respondeu que não, bastava observar a tensão de trabalho do estabilizador, que foi o que eu fiz. E assim aquele ruído sumiu e me deixou em paz. O no-break nunca deu defeito!

Quando exegetas condenam o estabilizador para uso com computadores, eles não comentam que nenhum computador de mesa precisa de um estabilizador. As fontes modernas para uma placa-mãe têm todas elas todos os tipos de proteção incluídos, por isso elas não necessitam de qualquer estabilizador ou outro tipo de proteção, exceto o da falta de energia elétrica.

E para resolver isso, a única opção é a adoção de uma UPS (Uninterruptible Power Supply), no-break ou nobreak, se quiserem. Dentro de uma UPS duas conversões de energia elétrica são feitas: a primeira, através de um retificador, que converte a corrente alternada da rede elétrica em corrente contínua, que irá carregar as suas baterias; e a segunda, através de um circuito conversor, que faz o oposto, gerando corrente alternada na saída, e que entra em cena quando falta luz.

O armazenamento temporário da corrente contínua é conseguido com o uso de baterias, e irá depender da capacidade delas manter o equipamento ligado por mais ou menos tempo, dependendo da carga total dos equipamentos ligados ao no-break. Se a carga for pesada, as baterias duram pouco tempo e vice-versa.

Cada fabricante fornece uma curva de carga versus tempo de sustentação das baterias, como esta, por exemplo:

Como se vê, equipamentos ligados ao no-break que consomem pouco podem ficar ligados por muito mais tempo durante a falta de luz. E como a recíproca é verdadeira, os no-breaks dotados de saída USB podem, e devem, ser monitorados pelo sistema operacional, ou se for o caso, por um aplicativo dedicado.

O Windows, por exemplo, reconhece o no-break e avisa quando a carga das baterias fica crítica, orientando o usuário para salvar tudo e desligar o computador. Nas configurações do sistema um no-break pode ser monitorado e programado para os casos de presença e falta de energia:

 

Cuidados que se deve tomar

Justamente porque a energia elétrica da rede é responsável por manter as baterias sempre com carga é imprudente desligar o no-break da tomada. Depois de desligado no painel, o no-break continua a carregar as suas baterias. Tirá-lo da tomada fará as baterias descarregarem com o tempo. Se isso acontecer, o usuário é avisado para recolocar o no-break na tomada por pelo menos 12 horas, antes de ele ser reutilizado.

Notem que, sucessivos ciclos de carga e recarga tendem a diminuir a vida útil das baterias. Normalmente, uma bateria dura de 2 a 5 anos, antes de ser trocada. Se mantida corretamente, a vida dela será sempre a mais longa. Reparem que um notebook tem a sua bateria para mantê-lo ligado fora da tomada, mas o mesmo raciocínio se aplica. Aqui em casa eu recomendo deixar a fonte do notebook sempre ligada, mas isso fica ao critério de cada um.

Com o uso de no-breaks para alimentar um computador de mesa, é preciso estar atento aos sinais do painel e/ou aos avisos do sistema operacional, se existentes. Em alguns casos, a placa lógica do no-break, que equivale a uma espécie de placa-mãe, ou seja, contém os seus principais componentes eletrônicos, pode subitamente dar erro.

Quando isto ocorre, o procedimento é idêntico ao do computador pessoal, quando este emperra por qualquer motivo: desligar completamente o equipamento, no caso do no-break retirando-o da tomada e aguardando cerca de uns 10 segundos ou mais antes de religar. Isto força a reinicialização de todos os componentes, o chamado “hard reset”.

Eu passei por uma experiência deste tipo, com o no-break APC modelo BZ1200BR, que eu usava anos atrás. Subitamente, o painel do no-break indicava que ele estava funcionando em modo bateria (ausência de energia elétrica na rede), quando na verdade ele estava operando em modo rede (elétrica). O técnico da APC mandou que eu o retirasse da tomada, forçando assim o “hard reset”. E isso resolveu momentaneamente o problema. Se persistisse seria necessário levar o no-break a uma oficina para reparo.

Em uma outra situação, bem mais recente, e que me deixou em um suspense desnecessário, aconteceu com o meu SMC-1500 BR, no-break do tipo inteligente e com saída senoidal pura. O estresse aconteceu no exato momento eu que precisei ligar o sistema para fazer uma atualização do firmware da minha multifuncional, via ligação com cabo USB diretamente no computador.

Não havia outro modo de fazer isso, porque a multifuncional precisava estar offline, isto é, fora da rede local. Naquele momento, eu liguei o no-break e ele se recusou a funcionar em modo rede, indicando carga muito baixa de bateria no painel. No início, eu não entendi nada. Fui lá verificar a rede elétrica e não havia nada errado. Instintivamente, eu retirei o no-break da tomada, e deixei assim até terminar de verificar tudo. Depois disso, ele voltou a funcionar, mas ainda com carga baixa. Aguardei até o dia seguinte, para me certificar se estava tudo em ordem.

Ao ligar de novo, a carga da bateria era plena e não havia mais sinais de erro. Relatei tudo isso ao suporte da APC por e-mail (antes era por telefone, mas infelizmente agora não), e nem eles entenderam o que havia se passado.

Aparentemente, foi um erro na placa lógica, tal como no caso anterior. O susto que eu passei me deixou irritado, porque com atualização de firmware não se brinca!

Um no-break deve ser mantido sempre ligado ou desligado e religado?

Eu uso dois no-breaks APC Smart-UPS no meu SOHO, um deles alimenta o modem, o roteador, o telefone fixo e a multifuncional, esta última ligada extemporaneamente; e o outro, que alimenta o computador, o monitor e o som 5.1. O no-break da rede local fica ligado noite e dia, mas o segundo só quando eu estou trabalhando.

Eu sempre tive dúvida se é permitido deixar um no-break ligado direto. Como uma rede local precisa ficar operando o tempo todo e o telefone fixo não deve desligar, o ideal é que o no-break esteja à postos diante das contínuas faltas de luz. Por isso, resolvi arriscar. Até hoje, não me arrependi.

Mas, como a dúvida permanece e o assunto é para lá de controverso, eu resolvi consultar a APC, e a resposta deles foi: “tanto faz”! Existem pilhas de opiniões pela Internet, a este respeito, inclusive em vídeos e fóruns. Técnicos do assunto acham desnecessário deixar o no-break sempre ligado, basta não retirá-lo da tomada, conselho que faz sentido.

Porém, argumentam alguns, que deixar o no-break sempre ligado evita o ciclo de realimentação de todos os seus circuitos, incluindo baterias, e desta forma mantendo o aparelho prontamente disponível e com uma suposta tendência a uma maior durabilidade dos componentes eletrônicos. O consumo de energia, sem carga alguma na saída, costuma ser baixo e, portanto, não deve onerar a conta de luz.

O APC Smart-UPS C tem um display LCD, que pode ser mantido apagado, e isso é útil quando ele for mantido permanentemente ligado. O display pode reacender se necessário, bastando apertar algum botão do painel.

Se prejuízo não tem, ou se “tanto faz”, eu prefiro deixar os meus no-breaks permanentemente ligados, com o display desligado. Mas, isso fica a critério de cada usuário. Não creio, dando desconto à minha ignorância, que se deixar o no-break ligado ele irá evitar o erro da placa lógica acima mencionado, porque este erro ocorreu anos atrás em um no-break permanentemente ligado.

Outro aspecto importante sobre os no-breaks é o do tipo de corrente elétrica que ele entrega após a conversão da energia das baterias para corrente alternada. Esta saída tanto pode fornecer uma onda elétrica senoidal pura, idêntica à da rede elétrica, quanto aproximada, que alguns rotulam como onda quadrada. Este tópico já foi extensamente detalhado em outro texto sobre o assunto no-breaks.

Resumidamente, eu me sinto à vontade para afirmar que o no-break de onda senoidal aproximada tem mínima chance de danificar um computador de mesa. Eu afirmo isso, porque usei um no-break deste tipo por muito mais de cinco anos, ligando e desligando após o uso, e o meu computador nunca pifou ou acusou problema.

É nessas horas em que é preciso ler ou ouvir com reservas a ênfase de terceiros contra este tipo de aplicação. Exegetas afirmam que fontes PFC para computadores podem ser danificadas com o uso de um no-break com onda senoidal aproximada. A minha experiência no passado com um APC Back-UPS Pro 1500 mostra exatamente o contrário. Mas, isso tem uma razão de ser: uma boa fonte para computadores dribla qualquer tipo de impureza ou oscilação da rede, impedindo que essas anomalias cheguem até a placa-mãe.

Réguas ou filtros de linha

A noção do que é um filtro de linha costuma ser um pouco vaga. Teoricamente, a filtragem da corrente deveria prever todo o tipo de anomalia, mas quando se trata de ruído na linha nem todos os filtros de linha conseguem resolve-lo.

Um protetor de rede, nome a meu ver mais correto para uma régua de extensão dedicada, é o que consegue pelo menos proteger contra surto, desliga se operar em sobrecarga, e evita impedir que oscilações abruptas de alta ou baixa tensão danifiquem os aparelhos ali conectados. Um bom protetor deve ter pelo menos um fusível próximo do varistor, ou então, melhor ainda, um micro disjuntor, que desarma se acontecer um curto-circuito ou sobrecarga na rede, e pode ser rearmado cerca de 10 segundos depois.

Se alguém precisa de fato de proteção somente, deve fazer uso de um Dispositivo de Proteção contra Surto, conhecido como DPS. Ele tanto pode ser individual, ou seja, usado para apenas um aparelho a ser protegido, ou em uma régua de cinco ou mais tomadas. E neste caso, deve-se tomar cuidado para não exceder a carga total dos equipamentos ligados na régua. O chamado surto da rede elétrica é uma elevação transiente de energia elétrica, de alta intensidade, capaz de danificar a fonte de um equipamento que não tenha proteção contra surto.

Condicionadores de energia são muito usados em home theater. A sua função é alimentar os aparelhos ligados com uma corrente elétrica a mais pura possível, na suposição de que impurezas na alimentação elétrica prejudicam a reprodução do som. Infelizmente, esses aparelhos são demasiadamente caros. Se o usuário não tiver problema com despesa, e desejar instalar um equipamento desde tipo, ele ou ela devem observar atentamente o total da carga a ser conectada. Os fabricantes especificam o máximo que um condicionador aguenta, e esse limite não pode ser ignorado.

Post-scriptum:

Na minha opinião, e por favor não esqueçam que eu sou leigo nesses assuntos, se a proteção de algum equipamento não necessitar de atender ao problema da falta de luz, a instalação de um bom DPS já basta, porque quando a luz volta geralmente ela vem com picos de tensão indesejados.

O mesmo acontece quando o ambiente onde os equipamentos estão ligados está sujeito ao não isolamento em rede separada de motores ou compressores, que provocam, por si próprios, oscilações com surto no restante dos equipamentos.

Uma geladeira ou um ar condicionado, por exemplo, devem ser sempre alimentados com uma linha separada, e protegida com disjuntor. Em prédios antigos, daqueles com rede monofásica e sem aterramento, isso pode ser uma tremenda dor de cabeça, e neste caso manda o bom senso que o serviço de um eletricista seja solicitado assim que possível.

Notem que os surtos de tensão não são somente aqueles provenientes de descargas atmosféricas. Quando falta luz em casa, nenhum dano aos equipamentos irá ocorrer, mas sim quando a luz volta, geralmente com o pico ou surto de tensão mencionado acima.

Alguns modelos de DPS são dotados de um circuito de retardo, capaz de monitorar a volta da energia elétrica e só ligar os equipamentos de volta quando a energia estiver estável. Esse é, a meu ver, o DPS ideal.

No passado, eu tive problemas com queimas de fonte de alimentação queimadas, por falta de um DPS. Depois disso, eu observei que a relação custo/benefício torna obrigatória a instalação de um DPS na linha de equipamentos sensíveis, até mesmo geladeira, máquina de lavar, etc.

O custo de um bom DPS é ridículo quando comparado à visita de um técnico para fazer algum reparo. Preciso dizer mais? Outrolado_

. . .

 

Protegendo o trabalho em casa com um no-break

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

3 comentários sobre “Protegendo o trabalho em casa

  1. Olá Paulo
    Essas réguas/filtros de linha vendidas até em supermercado (com raras exceções) são dispositivos de baixa qualidade de construção, com bitolas dos fios utilizadas em sua construção que não suportam alguns testes mais rigorosos, com risco de curto circuito e incêndio, devido não suportarem a carga descrita na embalagem. Por outro lado quem quer investir na proteção de todos periféricos de sua estação de trabalho, os nobreaks realmente são a solução ideal e segura.

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