O início penoso da alta definição no Brasil

O desenvolvimento da HDTV foi árduo e levou anos. Muito do que se fez se tornou anacrônico ou obsoleto, pois os formatos mudaram com o tempo. Quem, no início teve dúvidas do que era alta definição, pode baixar arquivos e testar em casa, do jeito que era possível.

 

A maioria das coisas que nós enfrentamos no nosso dia-a-dia tem sempre um início penoso, porque nem sempre as soluções para os enfrentamentos são fáceis de encontrar. E quando se trata de ciência e tecnologia, os trabalhos de pesquisa e desenvolvimento dos projetos levam anos para chegar a algum lugar. A HDTV é um desses casos. Aparentava estar finalizada, mas levou anos para que os países decidissem adotar um modelo de transmissão terrestre satisfatório. Não só isso, mas o material de apoio, como câmeras, ilhas de edição, etc., tinham que acompanhar este progresso.

Eu ainda me lembro bem da época onde eu tinha algum contato com o pessoal técnico da Sony, e um belo dia eu soube que a primeira TV de alta definição produzida em Manaus estava prestes a ser lançada no mercado. Infelizmente, eu não me lembro mais das especificações do modelo, nem guardei qualquer documentação dela.

Esta TV, com tela CRT 16:9, geometria exemplar, foi projetada para reproduzir com alta fidelidade imagens de HDTV de 1080i. Ela e os seus congêneres importados foram usadas por vários grupos de pesquisa, incluindo o da Universidade Mackensie e da TV Globo.

O aparelho pesava 127 quilos, e isso eu ainda me lembro, porque eu fui obrigado a reforçar a mesa de madeira onde ela ficou pousada. A minha TV chegou em casa pouco antes de ser lançada. Telas de 16:9 já existiam no mercado, mas nenhuma delas com alta definição. A qualidade da imagem desta TV da Sony era, portanto, inédita.

Na época em que o sistema brasileiro de HDTV já estava pronto para ser lançado, baseado no formato ISDB-T desenvolvido no Japão, eu fui convidado para uma visita a um dos eventos da SET, onde a Sony tinha um estande com material de alta definição para ser colocado à venda. Um disco ótico, precursor do Blu-Ray, trabalhava com uma câmera de HDTV, podendo ser gravado localmente e depois editado em uma ilha de edição posteriormente.

A TV da Sony que eu recebi precedeu o aparecimento do famigerado HDMI, e apesar de que as suas entradas de vídeo componente serem perfeitamente adequadas para sinais 1080i, ela acabou nunca vendo a luz do dia quando o ISDB-TB foi ao ar. Primeiro, porque a mídia ótica disponível era o DVD. Quando o Blu-Ray saiu (circa 2006) a reprodução de 1080p era somente por HDMI; e segundo, porque bem no início das transmissões terrestres os receptores para HDTV custaram a ser lançados.

A imagem abaixo mostra o último modelo desta linha de TV, idêntica àquela que eu recebi, mas já com uma entrada HDMI, obrigatória para a proteção de conteúdo:

 

Quem não teve acesso à imagem 1080i do ar, mas se interessou em ver a sua reprodução, lançou mão de arquivos contendo videoclipes, tanto de 720p quanto de 1080i. No início da HDTV foi dada uma preferência aos vídeos 720p (1280×720) para certos tipos de captura e transmissão, como as esportivas, e isto ocorreu pelo fato de que a imagem era formatada com varredura progressiva, e por isso com menos artefatos de movimento.

O vídeo a seguir demonstra arquivos contendo videoclipes de 720p e 1080i:

 

 

Esses segmentos foram achados entre aqueles que eu coletei e que sobraram nos meus arquivos de anos atrás, que eu mantenho em mídia ótica. No vídeo se pode ver parte dos testes da Globo, que se tornaram disponíveis para download. Trailers de documentários, como “Step Into Liquid” ou “Journey Into Amazing Caves”, este último rodado em IMAX, foram disponibilizados como propaganda, para posterior lançamento em DVD. Posteriormente, as suas versões originais foram relançadas em Blu-Ray.

A implantação da HDTV exigiu um enorme esforço técnico e financeiro por parte de fabricantes de equipamentos e emissoras de TV. Transmissores tiveram que ser adaptados, o pessoal técnico que lidava com isso cortou um dobrado para estabelecer o melhor algoritmo de transmissão, de modo a alcançar o maior número de espectadores.

Como o Rio de Janeiro é uma cidade cercada de montanhas e alguns bairros cheios de prédios exageradamente altos, a implantação da HDTV enfrentou todo tipo de obstáculo. A recomendação inicial era de se usar antena externa, tipo log periódica, para sinais analógicos VHF. Os fabricantes a rotularam de “antena digital”, mas elas são adequadas para VHF, UHF (HDTV) ou FM também.

O sistema de HDTV adotado aqui sofreu todo tipo de críticas, algumas partindo, para variar, de ativistas de partidos políticos, com objetivos não muito claros. Mas, o grupo da SET e os demais participantes não se abalaram e foram em frente. Com o tempo, a Globo começou a transmitir alta definição com o serviço de áudio 5.1, mas eu até hoje não sei mais que fim levou isso. Vários ajustes precisaram ser feitos nos receptores de HDTV, para que o formato funcionasse corretamente.

Atualmente, a tecnologia de streaming avançou muitíssimo mais do que a HDTV, com métodos sofisticados de compressão de áudio e vídeo, alcançando com facilidade 4K, HDR, Dolby Vision e Dolby Atmos. Mas, serviços de streaming com esta qualidade só foram possíveis porque a transmissão e a recepção de sinal de Internet melhoraram consideravelmente, não só em largura de banda, mas em velocidade.

A versão 3.0 da TV aberta promete mudar tudo, e ainda este ano espera-se uma definição de como isto será feito.  Outrolado_

 

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A TV aberta 3.0, um futuro imprevisível que começa agora

 

70 anos de TV no Brasil. Poderia ter sido melhor?

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

4 comentários sobre “O início penoso da alta definição no Brasil

  1. Esse comentário Paulo, poderia render uma matéria a parte.
    A TV Digital no Brasil virou esculhambação. Tem emissoras utilizando a multiprogramação em até 4 “sub-canais” de vídeo, e um de áudio dentro de um mesmo canal principal, totalizando 5 canais na mesma transmissão. E ainda tem a novela do 5G que está obrigando as pessoas adquirir um kit de receptor e antena da banda KU para locais remotos ainda com cobertura de sinal analógico, para poder continuar assistindo a TV aberta. Quanto a versão 3.0 da tv aberta nem dá para sonhar com isso.

    • Oi, Rogério,

      Como sempre, os seus comentários são lúcidos, pertinentes e contribuem para o que eu escrevo, obrigado!

      Pois é, a TV Digital começou com brigas e disputas, como você deve se lembrar, e agora esta coisa toda. Por acaso, por esses dias eu andei fuçando o 5G e fiquei perplexo, a tal ponto que, quebrado como eu estou, prefiro aguardar o desenrolar dos acontecimentos para saber que decisão eu vou tomar. Por enquanto, eu não sei o que dizer. Depois de várias tentativas, e eu sou muito lento mesmo de raciocínio, eu ainda não sei claramente as especificações exigidas para a recepção 5G. Os fabricantes “aprovados” com a homologação da Anatel colocam lá uma sopa de letrinhas, dando a entender que o telefone é compatível com qualquer transmissão, mas no final a gente vai ter que recorrer à operadora, para ter certeza de não estar comprando o telefone errado. Um saco, totalmente desnecessário, concorda?

      Sobre a TV Digital: anos atrás eu tive vários encontros com o Euzébio Tresse, engenheiro experimentado e membro da SET, que lutou como poucos para ver o esforço todo ter sucesso. Não tenho mais contato com ele já se passaram muitos anos, infelizmente, mas eu até gostaria de saber como ele se sente com o que está acontecendo.

      Volta e meia eu vejo vídeos do YouTube prenunciando ou até mesmo vaticinando a quebra e fechamento das emissoras de TV, por exemplo, a RedeTV. Veja que, no passado, nós tivemos exemplos de má administração absurdos, um deles o da Rede Tupi, que foi espoliada e veio a fechar, após uma interminável briga entre os condôminos e a família do fundador.

      A realidade tecnológica de hoje desfavorece emissoras OTA e de assinatura, e eu observo que a tendência é cada vez pior nesta direção. Agora mesmo, será a Amazon Prime quem irá transmitir os jogos da Copa do Brasil exclusivamente, ou seja, quem não é assinante vai ficar na saudade!

      • Olá Paulo nos primórdios da implementação da tv digital em S.P. tive a honra de trabalhar junto do Mestre Olimpio José Franco, que foi um dos precursores do sistema no Brasil. Mas testemunhando no que se transformou o line-up da praça São Paulo (hoje com mais de 50 canais ativos), sendo mais da metade deles loteados com transmissões religiosas, isso me faz pensar que esses canais servem apenas como fonte de renda para os permissionários dessas concessões, que ao conquistar esses canais eles não tem intenção de lançar programação própria, e muito menos gerar postos de trabalho, e/ou criar conteúdo e desenvolver a cultura. Quanto ao 5G, a sua enorme limitação de cobertura e distância em relevos como São Paulo e Rio de janeiro (cheios de prédios, morros e etc…), não recomendo a compra de celular com a nova banda, a não ser que a pessoa resida muito próxima de uma E.R.B. do contrário a baixa latência e oscilação do sinal, irá frustrar o uso e navegação do usuário. O pior é que ninguém está informando a população, que o 5G para funcionar bem, não pode haver obstáculos físicos entre a antena e o celular. Diante disso acabei de trocar meu aparelho, por uma marca tradicional com Android Puro, e ainda de quebra “o fabricante” me deu de brinde 1 ano de assinatura do Amazon Prime vídeo. No meu caso optei por modelo com a banda 4G+ (com bom desconto) para não ter dor de cabeça, e/ou frustrações com o 5G nessa fase de implantação.

        • Mas testemunhando no que se transformou o line-up da praça São Paulo (hoje com mais de 50 canais ativos), sendo mais da metade deles loteados com transmissões religiosas, isso me faz pensar que esses canais servem apenas como fonte de renda para os permissionários dessas concessões, que ao conquistar esses canais eles não tem intenção de lançar programação própria, e muito menos gerar postos de trabalho, e/ou criar conteúdo e desenvolver a cultura

          Você disse tudo, e eu acho uma indecência. O objetivo é corrupto e resulta no aproveitamento oportunista dessas igrejas que se beneficiam da lei. Eu só lamento por aqueles que trabalham neste segmento. Parece mentira, que a gente viu emissoras irem à bancarrota e os funcionários e artistas sem pagamento, alguns passando fome! Aquela vigília da TV Tupi do Rio foi de partir o coração! Então, você aí vê como é que se age nessas esferas com dois pesos e duas medidas!

          Obrigado pela dica do 5G. Aparentemente, existe a possibilidade de cobrança pelo acesso, então é preciso esperar para ver. Aqui onde eu moro não existe nenhuma antena da minha operadora (TIM), nem em perspectiva, quer dizer se eu trocasse de celular hoje não iria usar nada!

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