Formatos de CD que não deram certo

O Compact Disc revolucionou a indústria fonográfica e foi projetado para muito mais do que música. Parte das tentativas de expansão do CD acabou tendo um fim prematuro.

 

O Compact Disc foi projetado e previsto para conter diversos tipos de conteúdo além da música. O disco tem obrigatoriamente um espaço para metadados, os quais contém uma série de informações, como as tags (etiquetas ou rótulos), ou a indexação das faixas. Ele poderia conter imagens estáticas, vídeo (imagem em movimento), dados (programas ou arquivos), etc. No entanto, vários desses formatos não foram para a frente.

Os metadados podem ser lidos em um disco comercial, mas quando se trabalha com áudio é possível editar ou preencher os dados de interesse, antes de autorar um CD. Abaixo, eu mostro os metadados de um arquivo de um disco recuperado, editado no programa gratuito Foobar 2000:

 

Nem todos os recursos previstos no CD foram adiante, ou um tempo depois abandonados. Quando a Kodak lançou o Photo CD, por exemplo, a ideia era a de revelar fotos e leva-las a um serviço especializado para salvá-las em um CD-R, que seria reproduzido em um player para CD-I (CD-Interactive), mas posteriormente um DVD player de mesa seria capaz de reproduzi-lo também. Uma gravação no formato de multisessão no CD iria permitir o seu uso posterior para incluir novas fotos. Hoje em dia, nem todo player de mesa consegue exibir as fotos de um Photo-CD.

No disco, as imagens são armazenadas em um formato proprietário da Kodak, com a extensão “.PCD” (“Photo Compact Disc”), como visto abaixo no subdiretório IMAGES:

 

Para visualiza-las hoje em dia, pode-se usar o software gratuito IrfanView, disponível na versão de 64 bits. A mídia ficou obsoleta em curto espaço de tempo, principalmente depois do advento das câmeras digitais. Além disso, qualquer imagem digitalizada poderá ser armazenada em um dispositivo de memória, no formato que o usuário desejar.

Colocando imagens em um CD

Por mais que pareça um absurdo, o Video CD foi projetado para substituir a reprodução de filmes em videocassete. O formato foi propagado nos países asiáticos com um custo muito baixo. Depois dele surgiu o Super VCD, com muita pouca diferença de qualidade. O vídeo adotado neste último foi o MPEG-2, que substituiu o MPEG-1 do VCD. Embora o SVCD já conseguisse 480i na qualidade da imagem, a mídia não era capaz de comportar vídeos de maior duração. Isso só foi resolvido com a introdução do DVD.

O CD-ROM

Este foi um formato dos mais úteis que eu usei até hoje, em uma época pré Internet. Quando se ia a uma biblioteca pesquisar um trabalho publicado na minha área, lançava-se mão de volumes monstruosos do Index Medicus. O ano era divido em 12 volumes, tornando a pesquisa braçal super cansativa, fácil de perder uma referência. Um único CD-ROM continha um ano inteiro do Index Medicus, com um eficiente sistema de busca. Uma vez encontrado o trabalho desejado, bastava procura-lo em uma boa biblioteca. O mesmo banco de dados foi depois para a Internet, com a possibilidade de baixar o texto encontrado em formato pdf. Com isso, o uso de uma biblioteca convencional se tornou anacrônico!

Discos de CD-ROM fizeram sucesso no passado, com programas como Encarta ou Cinemagia, ambos da Microsoft, só para citar alguns da década de 1990. Ainda nesta época, pode-se ver um CD-Rom rodando no filme Jurassic Park. Foram muitas as versões do Windows distribuídas em CD, assim como drivers e aplicativos.

O CD com DTS

Quando o filme Jurassic Park foi lançado em 1993 com som DTS 5.1, o CD era a mídia de eleição para armazenar a informação digital. Seus desenvolvedores preferiram gravar a nova trilha separada em CD por conta da qualidade obtida com a ausência de compressão de sinal. Para realizar a apresentação do filme em DTS a cópia enviada aos cinemas é dotada de um timecode, postado na borda do fotograma:

 

O timecode do DTS é uma informação ótica, lida por um scanner montado no topo do projetor, tanto para 35 quanto para 70 mm. O sinal é enviado a um computador, onde estão instalados um ou mais drives de CD-ROM, contendo os discos com a trilha sonora. O timecode é responsável pelo sincronismo digital entre a película projetada e a trilha sonora, e por isso, mesmo que o filme seja emendado, a trilha sonora nunca perde o sincronismo.

O CD permite que a trilha em DTS seja enviada em um bitrate alto (1509 kbps). Um único disco pode conter uma trilha para filmes de até 2 horas de duração. Abaixo se vê uma cópia do CD-ROM usado para o filme Jurassic Park. No selo há um aviso mencionando que o disco não pode ser reproduzido em um reprodutor de mesa convencional:

 

O DTS-CD usado para uso doméstico, com áudio 5.1 foi lançado pelas gravadoras, com total compatibilidade de leitura de um CD convencional. Entretanto, ele não pode ser reproduzido como tal, é preciso que o reprodutor tenha uma saída digital (coaxial ou ótica) para que o sinal lido seja enviado a um decodificador.

Logo no início, usuários se queixaram que o disco só reproduzia ruídos, o que forçou as gravadoras a colocar uma nota dizendo se tratar de uma trilha sonora (DTS) que exigia um decodificador apropriado. Notem que o CD de música é codificado com LPCM, e assim todos os leitores de mesa são equipados com um circuito de conversão (DAC) desenhado especificamente para este tipo de sinal digital.

 

 

Um DTS-CD pode conter todos os sinais DTS 5.1 com extensão, a saber DTS-ES Discreto ou DTS-ES Matricial, de 6.1 canais. E aí, novamente, a extensão só pode ser reproduzida se o decodificador for capaz de identificar este tipo de sinal. Mas, como se trata de uma extensão, diante de um decodificador DTS antigo ela pode ser ignorada e o som reproduzido como 5.1 somente.

Embora tecnologicamente atraente, o DTS-CD perdeu espaço no mercado fonográfico e hoje em dia é difícil encontrar um disco desses à venda. A turma dos fóruns sobre som quadrafônico usou o DTS para encapsular 4.0 em 5.1, e assim compartilhar material de discos antigos ou fitas pré-gravadas previamente decodificados com qualidade.

O CD Single

A indústria fonográfica sempre se inclinou para a portabilidade. Os “singles” em 45 rpm foram alavancados com força pela RCA, para destronar os elepês na preferência do público mais jovem. Em curto espaço de tempo uma guerra de formatos foi levada a termo, que depois se encerrou sem que houvesse algum vencedor. Elepês para audiófilos são cortados em 45 rpm e os singles foram produzidos em 33 1/3 rpm com o nome de “compactos”.

O mesmo conceito de mercado foi aplicado para o CD. O CD Single foi lançado com disco de 8 cm (3.14 polegadas), só que desta vez com maior número de músicas que os antigos 45 rpm e compactos. No início, para se reproduzir o disco single em um leitor de CD as gravadoras forneciam um adaptador:

 

Depois, uma adaptação na bandeja da gaveta para os 8 cm foi oferecida para leitores de CD em diante. Abaixo, se pode ver um disco CD single em uma gaveta de um drive para PC:

 

O disco acima foi prensado pela Delos, com um repertório retirado de algumas de suas gravações digitais de música clássica:

 

 

Na contracapa do disco pode-se ter a descrição do repertório. O disco com o título de 2001, A Sonic Odissey, foi incluído na série “Pocket Classics”, em alusão ao termo “Pocket CD”, ou Mini CD, como eram conhecidos comercialmente estes discos:

 

 

A ideia do CD Single não foi adiante, e poucos títulos foram lançados. Mas, a explicação é muito simples: um reprodutor portátil de CD lê um disco convencional de 120 mm (4.7 polegadas), com a vantagem implícita de ter disponível um conteúdo de até 74 minutos de música ou um pouco mais, sem nenhuma compressão.

O CD do tipo “Enhanced”

O nome “Enhanced CD” tenta dizer ao usuário que a mídia inclui fotos ou vídeos além da música. Veja que o nome “Enhanced” (“Aperfeiçoado”) não tem nada a haver com a qualidade da masterização da música. E nem sempre é possível, pelo menos eu nunca vi, se usar um leitor convencional de mesa para acessar o conteúdo extra gravado no disco. Uma das possibilidades, neste caso, é colocar o disco em um drive ótico usado em computadores, mas nem sempre o resultado é satisfatório, porque para reproduzir o conteúdo extra é preciso ter o codec ou o programa adequado.

Abaixo se pode ver o exemplo de um Enhanced CD, no disco contendo a trilha do filme Laranja Mecânica:

 

 

Colocando-se o disco no drive ótico pode-se ler o conteúdo extra, como mostrado abaixo, neste caso o link para uma página, que pode ser aberta em qualquer navegador:

 

 

É preciso tomar cuidado com discos “Enhanced”, porque no passado foram aplicados programas de “proteção contra cópia”, alguns deles obrigando o usuário a instalar programas contidos no CD, para “autorização” de reprodução do conteúdo em um computador:

 

 

Programas do tipo AnyDVD e similares irão bloquear esta instalação, e por justa razão: no passado, um vírus rootkit foi incluído em um disco vendido pela Sony, e este disco infectou todos os computadores onde ele foi tocado. A Sony foi processada e os discos retirados do mercado, mas não sem antes alertar o consumidor até onde a indústria fonográfica podia chegar para tentar impedir a cópia do conteúdo.

O rootkit é um malware (programa malicioso), que cria uma porta de comunicação no computador infectado, permitindo o acesso remoto ao conteúdo da máquina. O rootkit é instalado em um lugar difícil de achar, o que obrigou a sua remoção com antivírus atualizados. Por isso, o AnyDVD e ferramentas similares rodam no background logo na inicialização do sistema e bloqueiam automaticamente este tipo de conteúdo, para evitar qualquer infecção causada por leitura de um CD ou qualquer outra mídia ótica contendo malware.

Com o tempo, esquemas de proteção contra cópia, todas amparadas pelo infame DRM (Digital Rights Management), foram abandonadas pelas gravadoras, depois que ficou mais do que evidente a ineficácia da proteção contra cópia.

O tempo desgastou a mídia

No início dos anos 80 o lançamento do CD provocou um maremoto de expectativas. Ouvintes de música clássica ficaram gratos com a ausência de ruído e com o excelente alcance dinâmico da nova mídia.

A Telarc lançou de imediato faixas de uma peça mais longa com a ajuda da indexação (Index 1, 2, etc.), mas para identifica-las era preciso que o reprodutor de mesa conseguisse ler essas informações nos metadados do disco, e isso atrasou a realização da novidade. A possibilidade de indexar trechos de música em uma única faixa parecia atraente, mas a prática teria se mostrado inútil, porque é bem mais fácil dividir uma faixa em segmentos como Faixa 1, 2, etc., e na autoração zerar o tempo padrão de 2 seg entre uma faixa e outra.

 

 

Outros desgastes do CD como uma mídia eclética também foram decorrência, entre outros fatores, do avanço da tecnologia e da substituição do conteúdo, como o vídeo, por exemplo, que passou para o DVD, Blu-Ray, e mídias similares.

A meu ver, o CD continua impecavelmente indispensável como veículo, e me atreveria a dizer, como preservação de conteúdo musical. Mídias como HDCD, K2HD ou XRCD mostraram virtudes inegáveis de autoração, sem em nenhum momento alterar as características e especificações do Red Book, isto é, 44.1 kHz de amostragem e 16 bits de resolução, e com total garantia de reprodução. Tudo isso é um benefício inestimável para o colecionador, que nunca verá a sua coleção de áudio se tornar obsoleta!  Outrolado_

 

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O CD mantém a promessa do som perfeito para sempre

 

O fantasma da deterioração da mídia ótica

Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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