O falso fenômeno da uberização

O falso fenômeno da Uberização

O modelo de negócios do Uber não é revolucionário. Fora o suporte da tecnologia, as relações econômicas persistem.

 

Para revestir conceitualmente os avanços do mundo dos negócios combinado com as tecnologias digitais, um grupo de “especialistas” cunhou o termo “uberização”. A intenção foi de valorizar o modelo de negócios no ambiente digital, executado por uma empresa que faz a intermediação de um determinado bem ou serviço sem necessariamente produzi-lo ou tê-lo como um ativo.

A frase mais disseminada por esses gurus é: “o Uber oferece o serviço de táxi sem ter um único carro”. O importante para reforçar essa revolução atual no mundo dos negócios é repetir essa frase com um ar de novidade e notoriedade.

Na verdade, não existe nada de muito novo nesse modelo propagado com vigor para dar uma espécie de sustentação a essa nova fase do mundo digital, auferindo um ar de futuro promissor.

O que essa frase encobre com relação aos intermediários do milênio passado é que o atual serviço camufla melhor o ativo envolvido, neste caso, o carro; e o serviço de transporte a ele associado.

Os mercadores eram intermediários e cumpriam uma função semelhante: transportar mercadorias para consumidores de determinadas localidades, que não produziam tais mercadorias.

Na Idade Média, o mercador, assim como os outros membros da população urbana (o artesão, por exemplo), não se enquadrava nas qualificações sociais vigentes à época e também mantinha uma certa distância da nobreza, isto é, não obedecia à tríade de guerreiros, lavradores e oradores.

O mercado

O mercador cumpria a missão importante de selar as bases para a formação do que conhecemos hoje como mercado, assim como o modelo do Uber sedimenta algumas das novas características existentes para o mercado virtual.

Antes da expansão comercial europeia do século XVII, os produtos e serviços em grande parte sofriam com a restrição geográfica, ou seja, um limite físico dificultava a circulação das mercadorias e os produtores ofertavam seus produtos diretamente aos seus consumidores nas feiras, mercados ou nas vias públicas.

A figura do mercador, antes mesmo das grandes navegações, era associada aos que realizavam as caravanas para troca de produtos ou a venda direta nas feiras públicas, estabelecendo aquilo que conhecemos como comércio.

A palavra comércio possui diferentes origens, sendo a grega a mais conhecida, originada do latim commercium, advinda da junção das palavras “com” que significa algo como “junto” ou “conjunto” e “merx/merc” que é algo como “mercado”, “local de troca”.

Desta forma, o comércio seria algo como “local de troca onde pessoas se reúnem”. Veja que a questão do “estar perto” faz parte da origem da palavra comércio.

E são os mercadores que justamente cumprem a função de juntar aquilo que não “estava perto”, ou seja, agrupar um conjunto de produtos de um determinado local e “transportá-los” para um outro local, um outro mercado. Isto significa que esses mercadores não eram produtores dos bens que ofertavam, eram apenas os intermediários.

Modelo de negócio

Esse fenômeno tratado como Uberização, nada mais é do que um novo modelo de intermediação, sustentado agora pelas tecnologias digitais. O intermediário é um velho conhecido da economia, tão importante que esse “agente econômico” foi tratado por uma ciência aplicada específica: a logística.

A Uberização na verdade é um potente acelerador dessas intermediações e não um modelo de negócios revolucionário.

E se o fosse não sofreria com uma greve para melhoria da remuneração do motorista, como existe com qualquer outra empresa na relação entre capital e trabalho. A novidade existe muito mais pela evolução da Tecnologia da Informação e Comunicação do que pelas questões econômicas e sociais.

Na verdade, esta última tem sido alvo de críticas relacionadas com a precariedade do vínculo empregatício e a redução dos direitos sociais do trabalhador.

Destaca-se que o principal ingrediente desse modelo é a possibilidade da relação de muitos para muitos proporcionada pela base arquitetural da Internet: são muitos demandantes por serviço de transporte, que podem encontrar muitos ofertantes de carros para realizar o serviço.

Outro cenário

Essa exaltação da Uberização não ocorre por acaso. Desde a década de 80 verifica-se uma necessidade em justificar que existem movimentos econômicos diferentes acontecendo. Uma espécie de tentativa de salvação do neoliberalismo.

Entretanto, tirando os benefícios diretos produzidos pela comunicação de “muitos para muitos” proporcionada pela Internet (que democratiza a comunicação e o comércio), o que se verifica é somente uma repetição das relações econômicas clássicas num cenário mais perigoso: existe uma concentração de capital em escala global nas mãos de poucos intermediários.

O intermediário moderno não conduz carruagens ou mulas por regiões acidentadas e desérticas, como retratam as imagens dos filmes antigos.

O novo intermediário utiliza de sistemas de informação para aproximar cada vez mais um consumidor de um bem ou serviço, com algumas diferenças importantes e não exaustivas:

  • O novo intermediário não se incomoda em receber centavos por cada transação.
  • Os seus pontos de presença são garantidos pela cobertura da Internet, ou seja, não há limitação geográfica.
  • Ambientes computacionais garantem a gestão de todas as transações.
  • O modelo de negócio gera um contexto de autonomia entre as partes, provocando a falsa sensação de ser “dono” do próprio negócio.

O interessante ao traçar um paralelo com o passado é que aos poucos os mercadores tornaram-se tão ricos e poderosos, que o processo de acumulação de capital dos intermediários capitulou uma das bases para as revoluções burguesas.

Não por acaso percebemos o mesmo movimento nos últimos dez anos, verificando o poder econômico dessas empresas do mercado digital, só que agora com um alcance global, desenhando um falso fenômeno na economia. Outrolado_

 

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Corinto Meffe é escritor, poeta e articulista.

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