Uma forma de explicar a influência da música nas pessoas

A influência da música na psique humana

Uma forma de explicar a influência da música no espírito humano e as diversas fases onde o gosto pela música pode mudar.

 

Às vezes, nós leigos tentamos arrumar uma explicação qualquer para fatos que observamos e, amparada ou não pela ciência, a psicologia é uma arma que jamais poderá ser subestimada!

Sem nunca ter tido queda para psicólogo, ainda assim eu aprendi a lidar com egos diversos, alunos, cientistas, pessoas ingênuas ou com falhas de caráter gritantes, e como isto me ajudou a me defender nas situações adversas.

Mas, a procura de certas explicações parece não ter fim, e uma delas, que ainda paira no meu espírito, e talvez de muita gente por aí, é o porquê das pessoas se sensibilizarem com a audição de determinadas peças musicais, e outras não.

Álbum de família

Lá em casa, segundo a minha mãe, eu já nasci ouvindo música! Na realidade, de acordo com o relato dela, nos meus primeiros meses de vida eu os passava dormindo quase o dia todo. A ponto de ela fazer uma consulta ao pediatra para saber se havia alguma coisa errada comigo. E a coisa que pediatra mais faz na vida é sossegar as neuroses maternas, nem sempre com o devido sucesso.

Lá pelos nove meses de idade, eu acordei de vez, e passava partes do dia chorando sem qualquer motivo aparente. Até que houve um momento, em que a irmã de mamãe e a sua cunhada chegaram lá em casa com um disco da lendária música do lendário compositor Lupiscínio Rodrigues, com o título “Vingança”, cantada provavelmente por uma das irmãs Linda ou Dircinha Batista, não me recordo qual delas. E quando as duas colocaram o disco na vitrola, eu teria parado de chorar, para começar a ouvir.

Bem, isso se tornou parte do folclore familiar, contado por minha mãe, por décadas a fio, ela mesma uma mulher com imensa paixão por música e cinema. Nos anos seguintes, nós já tínhamos uma vitrola maior, e foi com ela que eu me distraí, quando a mamãe me deixava com a babá tomando conta.

Pois é, leitores, eu tive uma, que era uma moça a quem eu me apeguei muito, mas a quem eu nunca dei trabalho algum. Motivo? A mamãe deixava ao meu lado uma pilha de discos 78 rpm, e eu passava a tarde toda apertando a tecla “repeat” do toca-discos, para ouvir a mesma música mais de uma vez.

Aliás, eu passei anos tentando entender como é que uma agulha encostava em um disco e produzia sons e música. E sem dúvida, este foi um forte fator motivacional, que uniu tecnologia e música, que me manteve cativo durante anos.

 

A minha ligação com música era tão forte, que o meu irmão mais velho se divertia com os amigos, pegando aquela pilha de 78s, escolhendo um disco qualquer, e me perguntando que música era aquela. Os selos eram parecidos, mas eu, analfabeto, conseguia identificar assim mesmo.

Na década de 1950, o rádio brasileiro ainda era muito presente. Só a Rádio Nacional do Rio de Janeiro tinha nada menos do que três orquestras. Por ali passaram os grandes maestros e músicos do país, incluindo, é claro, os grande cantores “do rádio”, como se dizia então.

E essa era, sem dúvida, a forma de o público brasileiro ter contato com a arte musical popular. Nas rádios, os programas de auditórios ficavam lotados, e a audiência em casa era maciça.

A música é um estimulador neuro-humoral

Tratados de psiquiatria ou de psicologia podem explicar ou tentar explicar porque as pessoas reagem de maneira específica aos sons e à música, mas certos detalhes ainda carecem de uma explicação mais precisa, e eu não quero aqui, é bom que se diga, invocar a fúria ou a indignação das minhas potenciais leitoras formadas em psicologia.

É claro que diversos tipos de sons chegam ao ouvido humano na forma de uma estimulação física, que se conecta ao cérebro. Dali para frente, tudo fica um pouco nebuloso, porque a resposta a determinados sons é muitas vezes imprevisível. Esta resposta é, de qualquer maneira, neuro-humoral, quer dizer, a cada estimulação sensorial corresponde uma descarga de hormônios específicos no sangue.

Dependendo da descarga hormonal, a sensação pode ser de prazer ou irritação, empatia ou antipatia.

E é aí que entra um fator, a meu ver, difícil de explicar: porque alguns gêneros de música fazem bem a uns e chateiam os outros. O gosto pela música bem que pode ser genético, mas lançar mão dos genes para tentar entender a inclinação por um tipo específico de música é complicado.

Um amigo meu, o Fernando Blanco, me lembra que é preciso expor o indivíduo, principalmente a criança em formação, para que ela entre em contato com certos gêneros de música. E, neste caso, haverá uma correlação direta entre o ambiente onde o indivíduo se cria e a música que ele ouve.

Embora eu não seja capaz de discordar disso, ainda assim me sobra uma dúvida: se uma pessoa for exposta a vários tipos de música, porque então ela responde mais a um tipo e não a outro? E ainda: como é possível explicar que, num belo dia da vida de todo adolescente acostumado com música de diversos gêneros, ele acaba se identificando irremediavelmente com um deles, que o acompanha para o resto da sua vida?

Não obstante tudo isso, eu nunca tive dúvida que se todas as pessoas fossem educadas musicalmente, aumentariam as chances de o aluno descobrir que ele passou a vida inteira ouvindo a música errada!

Louis Armstrong foi o meu maior ídolo da adolescência

No lado dos músicos e compositores o nascimento musical é uma realidade idêntica, pois eu já ouvi vários deles dizendo que certo dia eles ouviram a música de algum artista ou compositor, e a partir daí eles resolveram que era aquilo que eles queriam fazer para o resto de suas vidas.

E se existe algum músico que eu conheça que consiga justificar plenamente o adágio popular “God works in mysterious ways” (no Brasil, a gente diz “Deus escreve certo por linhas tortas”, com o mesmo sentido), esse alguém é Louis Armstrong!

Louis foi menino de rua, pobre, e preto discriminado. Filho de uma prostituta do bairro Storyville em New Orleans, ele foi um dia acolhido por uma família local, que lhe dava abrigo, para não dormir na rua. Com esta gente, ele aprendeu a cantar canções de ninar.

Mas, ainda menino, durante uma celebração festiva do ano novo na cidade, pegou uma pistola e deu alguns tiros para o alto, sendo então recolhido numa casa para crianças de rua. Lá ele conheceu o professor Peter Davies, que lhe deu uma corneta, e lhe ensinou a tocar suas primeiras notas.

Autodidata e com pouca cultura musical, Louis Armstrong revolucionou o blues, inventou o “scat singing” (forma de cantar emitindo sílabas no lugar da letra, acompanhando a melodia), e ainda enfatizou a figura do solista na orquestra de jazz.

Louis Armstrong era capaz de tocar uma única nota e fazer os anjos chorarem, como disse uma vez o crítico e historiador Gary Giddins. Entretanto, foi mestre do swing vigoroso, e praticamente assentou as bases de todo o jazz interpretado pelos trompetes, que veio a seguir.

A partir dele, um número significativo de músicos e cantores (as) sofreu enorme influência nos seus estilos e maneira de tocar e interpretar, de tal forma que se pode dividir o jazz antes e depois dele.

Até hoje eu não sei o que me moveu primeiro, quando eu ouvi Louis Armstrong a partir de certa idade. Eu já o tinha ouvido antes, mas não consegui capturar nada. Uma vez entendendo a sua música, todo o resto passou a ser assimilado com facilidade.

Ainda nesta fase eu me tornei adepto do chamado “Hard Bop”, música inicialmente de difícil assimilação, mas que me permitiu evoluir auditivamente.

O rock and roll é a música de eleição da maioria dos adolescentes

O rock e as suas inúmeras variações têm um aspecto peculiar na sua execução: é uma música rebelde! E com ele é possível deduzir conclusivamente que existe uma correlação direta da rebeldia adolescente, provocada por hormônios, e a maneira como a música é incorporada no espírito do indivíduo.

O rock-and-roll nasceu do rythm and blues, uma derivação do jazz. O ouvinte casual pode até não perceber, mas quase nada do rock-and-roll é de fato alguma coisa nova. Antes do rock, o estilo boogie-woogie, o stride piano e outras técnicas semelhantes de execução já tinham sido usados muitos anos antes do rock aparecer como música.

Entretanto, a música usada para o rock-and-roll está recheada de palavras de duplo sentido, e pelo simples fato de sugerir o ato de admiração ou engajamento de casais em atividades sexuais fizeram a população conservadora norte-americana da década de 1950 acusar a música de demoníaca.

Até mesmo aqui no Brasil este tipo de associação foi feita, com o que se classificou naquela época de “juventude transviada”, termo que acabou virando título do filme “Rebel without a cause”, do diretor Nicholas Ray, e onde aparece o não menos rebelde ator James Dean.

O rock americano da década de 1950 iria fatalmente sofrer golpes musicais contestatórios, vindos de outras praias, e lá pelo final da década de 1960, a mistura já estava inacreditavelmente forte.

Movimentos como o rock progressivo, por exemplo, introduziram nos elementos mais primitivos do gênero instrumentos diversos que nunca haviam sido usados. Uma mistura ainda mais caótica pode ser vista no estilo “hard rock”, já no meio da década de 1960.

 

Design da capa do álbum The Dark Side of the Moon, do grupo Pink Floyd, símbolo do rock progressivo, em 1973. O Lp foi depois relançado em disco quadrafônico e, em tempos recentes, em SACD multicanal.

Em todos esses elementos musicais, a agressividade da execução e a multiplicidade de sons esotéricos induzem adolescentes a se identificarem prontamente e ver neste tipo de música o veículo ideal de expressão das suas revoltas hormonais internas.

A música eletrônica é sintetizada por natureza

O rock progressivo não foi o primeiro a usar música eletrônica. A primeira tentativa bem sucedida de sintetizar sons eletrônicos para produzir música aconteceu ainda na década de 1920.

O russo Léon Theremin construiu e batizou com o seu nome um instrumento capaz de modular e produzir sons através de circuitos osciladores de frequências de rádio. O Theremin foi subsequentemente usado na trilha de diversos filmes, por causa do som ser um tanto tenebroso, e depois por diversos músicos de rock (veja, por exemplo, na gravação de “Good Vibrations”, dos Beach Boys).

A música eletrônica moderna toma grande impulso com o desenvolvimento do Sintetizador Moog, por Robert Moog, já na década de 1950. O sintetizador sofre algumas modificações importantes, com a associação de Moog ao então engenheiro de gravação Walter Carlos.

Walter se tornou Wendy, e continuou a sua produção musical até o desenvolvimento de outros tipos de sintetizadores e teclados.

 

Carlos desenvolveu uma tese de mestrado inteiramente num sintetizador Moog modificado. Este trabalho foi produzido em Lp pela CBS, com o nome de Switched on Bach:

 

 

Switched on Bach foi trazido ao Brasil pelo engenheiro de gravação Sylvio Rabello, a quem conheci nos meus anos de faculdade, por ser pai da minha colega de campus Silvia Rabello. Sylvio trabalhava para a CBS, e numa de suas idas a Nova York conheceu Rachel Elkind, que produziu os discos de Carlos.

A edição de Switched on Bach em 1968 foi sensacional, inclusive fora dos Estados Unidos e é, até hoje, uma audição obrigatória para quem aprecia o gênero. Em anos subsequentes, eu tive acesso a este mesmo Lp no original americano e depois cortado no processo “half-speed mastered”, muito usado pela Mobile Fidelity Sound Labs e pela própria CBS.

Switched on Bach teve uma sequência em Lp, cuja cópia da capa eu guardei, e reproduzo aqui em baixo:

 

 

Com o passar de alguns anos Walter se transformou em Wendy Carlos, e através de um trabalho técnico dedicado de restauração de todas as matrizes de sua época da CBS, feita por ela própria, relançou todos os seus discos em CD, com som muito superior aos Lps.

Wendy Carlos, ainda com o nome de Walter Carlos, fez trilhas interessantes para cinema, no hoje clássico “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, e no inovador “Tron”, de Steve Lisberger. Eis uma captura do filme de Kubrick, com os créditos finais mostrando o seu nome como Walter:

 

A evolução da música eletrônica

Os sintetizadores evoluíram para os instrumentos comandados por uma rede MIDI (Musical Instrument Digital Interface), com significativo impulso na década de 1990. Os primeiros computadores com suporte a instrumentos com interface MIDI apareceram já no início da microinformática, lá pela década de 1980, e em 8 bits. Com o advento dos MacIntosh e do Windows, a interface General MIDI tornou-se o padrão desses sistemas operacionais.

Esta padronização facilitou o mapeamento de instrumentos e de suas vozes (sons que emulam instrumentos acústicos). E permitiu a troca de arquivos MIDI entre vários sistemas operacionais e seus respectivos sintetizadores.

 

 

A última grande evolução dos sintetizadores (pelo menos até onde eu acompanhei isso) foi com a amostragem de instrumentos acústicos em estúdios e a sua emulação por sofisticados microprocessadores, tornando o som de muitos teclados virtualmente indistinguíveis das suas fontes de origem.

Os sintetizadores analógicos, entretanto, têm um enorme séquito de admiradores. E isso é mais uma prova de que, quando alguém se sente atraído pelo som e nem tanto pela música, a sua qualidade intrínseca passa a ser irrelevante.

Os sintetizadores antigos, como o de Robert Moog, têm distorções notórias, mas isso não impede ninguém de continuar os adorando!

A combinação do áudio com a música

O sonho de todo audiófilo é ter a reprodução perfeita da música dentro de casa, o chamado “som absoluto”. Como a concretização do sonho esbarra no lado prático, onde componentes diversos da cadeia de reprodução são bastante imperfeitos, a busca pelo som absoluto e a adoção do áudio como um hobby não termina nunca!

O afeto pela reprodução da música atrai amizades duradouras e com grande identificação recíproca. Mas, por outro lado, as relações interpessoais deste tipo são muitas vezes vítimas da presença de mentes obsessivas, algumas exageradamente esnobes e sectárias, levando, em alguns casos, ao isolamento do indivíduo dentro da própria família.

A apreciação da música, entretanto, não tem absolutamente nada a ver com isso. E, naturalmente, o ideal seria um equilíbrio entre ambas as coisas.

Este equilíbrio passa também pelo aspecto financeiro. Os melhores equipamentos de áudio são exageradamente caros, o que às vezes força o usuário a deixar mulher e filhos, na busca da aquisição de algum desses equipamentos.

Quem gosta mesmo de música, e também gosta de áudio, vai dar preferência à primeira, em relação à segunda, sempre! Embora nenhum audiófilo goste de som mal gravado, e com razão, o valor da arte que vem do intérprete deveria ter precedência sobre o valor da arte de montar um sistema para reproduzi-la.

Na música, existe espaço para todo mundo!

Na apreciação da música, as pessoas precisam conhecer os limites, seus e de quem está do lado. Eu, por acaso, tenho um conhecido, uma pessoa fanática por jazz, que quando tocava algum disco com be-bop, a mulher dele saía correndo da sala.

A relação do indivíduo com a música é afetiva e amparada no domínio emocional. Forçar alguém a ouvir o que não gosta é uma tortura. Em termos educacionais, eu acho importante oferecer e observar, e se não for o caso, deixar de lado.

As gerações mais novas terão uma tendência a gostar de alguns gêneros que as anteriores não entendem e não aceitam. Aquilo que um dia era revolucionário a alguém não será revolucionário para outros, mais adiante.

Por outro lado, é importante que a memória musical seja preservada. As gerações mais novas precisam aprender a ouvir música, e nós, neste país, lamentavelmente excluímos a educação musical dos nossos currículos de formação de base, como se ela fosse desnecessária.

A boa música vem do sofrimento da alma do artista, do compositor ou do intérprete. Ela é o espelho daquilo que o ser humano tem de mais básico e mais nobre.

Todos os aspectos da produção de música gravada, capas, notas da contracapa, fotos, etc., têm o seu lado de arte, que jamais devem ser ignorados.

Toda música tem seu tempo, mas algumas delas serão atemporais. E o sentimento que nutrimos por elas é pessoal e intransferível!  Outrolado_

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Paulo Roberto Elias é professor e pesquisador em ciências da saúde, Mestre em Ciência (M.Sc.) pelo Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da UFRJ, e Ph.D. em Bioquímica, pela Cardiff University, no Reino Unido.

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